E viva São Patrício !

Posted in Vida & Realidade on March 17, 2010 by Nelson Costa

A ESCRAVIDÃO ENTRE OS CELTAS: REFLEXÕES A PARTIR DAS CARTAS

DE SÃO PATRÍCIO.

Patrício  teve uma experiência direta com a escravidão mesmo quando vivia em um uicus de nome Banauem Taburniae, na Bretanha, com seus pais e era um nobre bretão romano. Neste período, ele era dono de escravos. Aos dezesseis anos, ele foi raptado e conduzido à Irlanda onde teve que ser um escravo pastor de ovelhas por mais de seis anos.

Suas cartas nos fornecem alguns indícios para refletirmos sobre o fenômeno da escravidão entre os celtas, pois ele viveu entre a Bretanha e a Irlanda celta do século V d.C. Não é freqüente encontrarmos no mundo antigo, um ex-escravo falando de sua escravidão. Assim sendo, Patrício é um dos poucos escritores antigos que nos deixaram relatos que mencionam, por alguém que teve uma experiência direta, este fenômeno (THOMPSON, 1986: 19).

Segundo Norberto Luiz Guarinello (2006: 228), no que convencionalmente chamamos de mundo antigo, havia uma situação relacional entre escravidão e liberdade. O Império Romano conheceu diversas formas de trabalho compulsório e a escravidão era somente uma dentre estas formas. No entanto, a temática da escravidão estava presente em todas as dimensões do que o autor chama de “tecido social” romano e não somente relacionada ao mundo da produção, do trabalho e dos afazeres domésticos, não exercendo, desta forma, nenhuma influência na esfera política e cultural. Guarinello afirma que a escravidão no mundo romano é um fenômeno de grande plasticidade e para compreendermos melhor a idéia do escravo como uma mercadoria, tendo em vista este contexto, ele introduz, a partir do livro Slavery and Social Death de O. Patterson, a noção de “trajetória”. Nestes termos, a escravidão pode ser compreendida como um processo de morte simbólica. O escravizado perde sua identidade original, sua pessoa, para tornar-se quem seu senhor determinar. No entanto, nesse processo, ele não se transforma numa coisa. Pelo contrário, o escravizado é ressocializado dentro da sociedade que o escravizou, seguindo trajetórias determinadas, tanto pelas necessidades do dono, como por sua própria individualidade (GUARINELLO, 2006: 232).

Read more »

A Igreja é “Emergente” porque não é uma pedra!

Posted in Nelson Costa, Teologia. on March 16, 2010 by Nelson Costa

Pedras estão fora do tempo.  O tempo lhes é uma realidade exterior: o vento que sopra, a água que corre… São imutáveis, sempre as mesmas,  porque estão mortas. Para a pedra tudo é igual. Indiferentes ao  mundo que as cerca. São sempre as mesmas. Porque estão mortas. As plantas estão vivas.  Porque estão vivas, as plantas estão sempre se transformando numa outra coisa, diferente do que são. A vida não suporta a mesmice. Nascer, crescer, envelhecer, reproduzir.  Nenhuma planta é igual a si mesma num momento subsequente de tempo. As pedras nem nascem, nem crescem, nem envelhecem, nem se reproduzem. São eternas. São sempre as mesmas. Mortas.

Rubem Alves.

Os grandes conflitos da vida podem pôr em risco a experiência de Deus, porque a experiência de Deus é uma caminhada nunca assegurada. Toda tradição fala dos três caminhos. O primeiro é positivo, vai pela luz, pela bondade. O segundo, negativo, é a negação dos sentidos e da mente. No fim, a transfiguração, a exaltação, onde se capta Deus para além dessas contradições.

No processo de experiência de Deus, colocam-se em crise as imagens de Deus. Há muitas pessoas com uma experiência trágica na vida, de morte, assassinato, violência. Como Deus pode ser Pai se permite isso?, perguntam-se, e entram em crise. Na verdade, o que entra em crise é a nossa projeção de Deus como Pai, o nosso conceito de Deus como Pai.

O grande grito de Cristo na cruz: “Pai, Pai, por que me abandonaste?” destruiu a imagem de Deus como Pai de infinita bondade, que iria intervir, salvar o Messias em risco no momento em que o Reino seria instaurado…Deu-se conta, então, de que o Reino não vinha assim, como se imaginava empiricamente.

Jesus continua a crer. Grita contra Deus: “ Por que me abandonaste ?” mas continua a chamá-lo Pai. Só que agora o Pai é o outro Pai. Deus-Pai é luz e bondade. Só que outra luz e bondade. A crise vai destruindo imagens de Deus e reconstruindo outras.

Read more »

Diálogo sobre o paradoxo da pedra.

Posted in Filosofia on March 15, 2010 by Nelson Costa

B: A onipotência é contraditória, pois uma das tarefas possíveis que um ser onipotente pode realizar, criar uma pedra que não pode ser movida, implica uma limitação da sua onipotência.

A: Estamos de acordo que x é onipotente se e somente se para todo y, se y é uma tarefa possível, então x pode fazer y?

B: Sim, onipotência é isso.

A: Se uma tarefa y é possível, então há um mundo possivel em que y é feito, certo?

B: Certo.

A: Se esse é um mundo possível, então não há nada nele que seja contraditório, seja uma contradição interna, seja uma contradição entre duas coisas, certo? Caso contrário, será um mundo contraditório e, por isso, impossível.

B: Sim, isso mesmo.

A: Mas um mundo em que houvese uma pedra que não pode ser movida e um ser onipotente não seria um mundo contraditório e, portanto, impossível?

B: Sim, mas o que afirmo ser possível é um ser criar uma pedra que não pode ser movida, ponto. Por que fazer referência ao ser onipotente na investigação sobre se isso é possível?

Read more »

Participe!

Posted in Vida & Realidade on March 13, 2010 by Nelson Costa

Questionando o hoje – Slavoj Zizek.

Posted in Filosofia on March 12, 2010 by Nelson Costa

PÓS E ATUALIDADE

A questão dos pós algum conceito, para Zizek, possui um diferencial. Para ele, denominar taxativamente um conceito como pós é errado, uma vez que a sociedade atual vive o hoje e as análises que – no caso, ele faz – são calcadas no presente. Definir a sociedade contemporânea como pós-moderna, por exemplo, seria se colocar a frente dela olhando para trás, o que não é verdade. Dessa forma, o pensador deve se colocar como agente do presente e pensar o hoje agora.

Isso, no entanto, não exclui o uso da terminologia e, pelo contrário, incita mais ainda a crítica. Como exemplo de tal contexto, e dentro do pensamento do filósofo esloveno, podese observar a questão da pós-política. Nela, diz Zizek, não se explicita as ideologias, apenas há espaço para elas e o que aparentam ser rasgos de pluralidade. As ideologias tênues e convergentes são em realidade distintos estilos de vida sujeitos ao império das modas, pelos ciclos ditados pelo mercado. Esquematismos dos procedimentos aplicados, também, ao esvaziamento político e ideológico, de modo que, assim, conseguem facilmente transformar em “produtos” ou “modismos” (com seus vastos recursos ligados à tecnocracia midiática), até mesmo aqueles movimentos que a princípio podem trazer, em si, traços e posturas de “negação” ao sistema. O que a sociologia caracteriza por behaviorismo prático.

Esse tipo de influência faz com que a ideologia não induza mais comportamentos, modelos e mecanismos que se oponham aos meios de controle. Agora, na verdade, prevalecem as coerções econômicas, como instrumentos de inclusão/exclusão, de pertencer ao correto, ao mercado de trabalho ou, por outro lado, “de não pertencer” e do temor de cair na desgraça do desemprego e da inatividade (ou da incapacidade) econômica.

Read more »

Certos espíritos ateístas estão profundamente enraizados em Cristo.

Posted in Filosofia, Nelson Costa on March 9, 2010 by Nelson Costa

Quando Nietzsche anuncia a morte de Deus, ele fala do Deus que tem que morrer mesmo, porque é o Deus das nossas cabeças, o Deus inventado, o Deus da metafísica, o Deus que não é vivo. Ele fez uma oração que traduzi, sem chegar a transmitir todo o seu teor poético. O titulo é:  A Oração ao Deus Desconhecido.

Antes de prosseguir em meu caminho e lançar o meu olhar para a frente uma vez mais, elevo, só, minhas mãos a Ti na direção de quem eu fujo.

A Ti, das profundezas de meu coração, tenho dedicado altares festivos para que, em cada momento, Tua voz me pudesse chamar.

Sobre esses altares estão gravadas em fogo estas palavras: “Ao Deus desconhecido”.

Sei, sou eu, embora até o presente tenha me associado aos sacrílegos.

Sei, sou eu, não obstante os laços que me puxam para o abismo. Mesmo querendo fugir, sinto-me forçado a servi-Lo.

Eu quero Te conhecer, desconhecido.

Tu, que me penetras a alma e, qual turbilhão, invades a

minha vida.

Tu, o incompreensível, mas meu semelhante, quero Te

conhecer, quero servir só a Ti.

(Friedrich Nietzsche)

Uma ortodoxia herética – Como falar de algo que não pode ser dito?

Posted in Nelson Costa on March 8, 2010 by Nelson Costa

Peter Rollins & Nelson Costa.

Peter Rollins levanta, com suas parábolas, o véu que cobre a essência da teologia cristã mundial dessa nova era. Num clima descontraído, e iluminado por um lindo dia, tive a oportunidade de me encontrar com Peter, e aprender um pouco mais  sobre essa sua tremenda capacidade.

Escritos religiosos geralmente são concebidos para tornar a verdade da fé clara, concisa e saborosa. Parábolas subvertem essa abordagem – disse Peter. Na parábola, a verdade não é expressada através de um discurso teológico empoeirado, que visa nos educar, mas surge como um discurso lírico, que nos inspira e transforma – complementei.

À luz disto, conversamos sobre as novas fronteiras que o Cristianismo necessita ultrapassar, falamos sobre a necessidade de transformação e não somente de readaptação que a Igreja precisa enfrentar, e sobre a ferramenta utilizada por Deus conhecida como “mistério”, que precisamos abraçar.

Brevemente, Peter lançará seu novo livro, que certamente esquentará mais as fogueiras da nova inquisição cristã. Mas enquanto isso não acontece, ele autografou o seu último livro “Uma ortodoxia herética”, para ser doado aos leitores do meu blog – sorteio via twitter, me adicione e participe!

Enfim, o papo foi muito bom, e brevemente estaremos juntos novamente – pelo menos por necessidade. Com o “The The Insurrection Tour” batendo às portas, o “Vox Emergente no Brasil” quase acontecendo, e o “TRANSform Conference” se aproximando, em breve terei mais notícias para dar a todos, pois a essa altura o efeito da cafeína já passou há tempo e amanhã tem mais um dia inteiro de bate-papo na Igreja que trabalho! Paz e Espírito de Criatividade!

O Deus mendigo.

Posted in Teologia. on March 5, 2010 by Nelson Costa

Diante do infinito, todo o finito torna-se irrelevante. Há muitas maneiras de enunciar o argumento.

José Comblin

Durante séculos os teólogos debateram a questão da predestinação, isto é, da compatibilidade entre a liberdade de Deus todo-poderoso e a liberdade humana. Assim fazendo, situaram no mesmo plano as duas liberdades. Se os teólogos – tomistas, dominicanos e jesuítas – tomaram essa posição durantes séculos, não é estranho que filósofos façam a mesma coisa. De qualquer maneira, a pessoa sente tantas vezes o conflito entre a sua vontade, o seu desejo e o que diz que é a vontade de Deus, que a reação parece inevitável. Os sartreanos sustentam que, para ser livre, é necessário negar a existência de Deus. Infelizmente para eles, Deus não depende das negações ou das afirmações de Sartre. A verdadeira resposta está na fraqueza de Deus. O nosso Deus é um Deus “escondido” – tema constante da tradição espiritual cristã.

É um Deus que se manifesta no meio da nuvem, que se faz perceptível, mas não impõe a sua presença. A liberdade consiste justamente nisto: diante do outro, a pessoa pára, reconhece e aceita que exista. Abre espaço, acolhe. Longe de dominar, escuta e permite que o outro fale primeiro. Assim Deus suspende o poder de Deus.

Nenhuma evidência, nenhuma ameaça, nenhum constrangimento força nem obriga. Deus permite e deixa fazer. Deus respeita o outro na sua alteridade e permite, até mesmo, que o outro se destrua sem intervir. A liberdade de Deus consiste em permitir e ajudar a liberdade do menor dos seres humanos. A liberdade de Deus reprime o poder. Torna-se fraca para que possa manifestar-se a força humana.

Read more »

Não faça uma imagem do “Eu Sou”.

Posted in Psicologia., Vida & Realidade on March 2, 2010 by Nelson Costa

Para muitas pessoas religiosas, a questão popular “O que faria Jesus?”, é essencialmente o mesmo que, “O que eu faria?”. Diante disso, Nicholas Epley, da Universidade de Chicago nos USA, decidiu pesquisar essa idéia através de um intrigante e controverso experimento. Através da manipulação psicológica e cérebro-exploração, ele descobriu que quando os americanos religiosos tentam inferir a vontade de Deus, eles praticamente inferem suas próprias crenças pessoais.

Estudos psicológicos comprovam que, quando se trata sobre a questão da fé, as pessoas são egocêntricas. Elas usam suas próprias crenças como ponto de partida. Epley constatou que o mesmo processo ocorre quando as pessoas tentam adivinhar a mente de Deus. As opiniões e atitudes no final, são reflexos das crenças que cada indivíduo tem. “As mesmas partes do cérebro humano que definem as crenças, são as mesmas partes que definem a vontade de Deus”, disse Epley.

Read more »

A revelação divina no cristianismo primitivo: dialética entre tradição, escrituras e revelação.

Posted in Teologia. on March 1, 2010 by Nelson Costa

A visão moderna da cristandade fundamentalista é que a Bíblia ou “Sagradas Escrituras”, contém toda a revelação Divina. Trata-se de uma coleção de Livros Sagrados que contém relatos desde a Criação do universo, até o que virá no Final dos Tempos. Foi através das Sagradas Escrituras que Deus se comunicava e se comunica até os dias de hoje com Seus Filhos para Se revelar, ensinar, guiar, repreender, exortar, instruir, encorajar, enfim para Se comunicar com suas Criaturas tão amadas. A Bíblia, quando utilizada em oração, é o diálogo com Deus.

João Crisóstomo, um dos Padres de Igreja, – diz a lenda – antes de ler o “Livro Santo”, rezava a seguinte oração: “Senhor Jesus Cristo, abre os olhos do meu coração para que eu possa compreender e realizar a tua vontade… ilumina meus olhos com a tua luz”. Do mesmo modo, nos aconselha Santo Efraim: “Antes de qualquer leitura, reze e suplique a Deus para que Ele se revele a ti”. Poderíamos dizer que, para os Padres, a Bíblia é o Cristo em pessoa, pois, cada palavra sua, afirmavam, era capaz de colocá-los na presença de Jesus Cristo, como afirma Santo Agostinho: “Ele, Aquele que eu busco nos livros”.

De fato, para esses cristãos, a Escrituras sagrada se caracterizava como a revelação de Deus aos homens – revelação essa que, muitas vezes, dispensava a necessidade de qualquer outra revelação.

Read more »