A ESCRAVIDÃO ENTRE OS CELTAS: REFLEXÕES A PARTIR DAS CARTAS
DE SÃO PATRÍCIO.
Patrício teve uma experiência direta com a escravidão mesmo quando vivia em um uicus de nome Banauem Taburniae, na Bretanha, com seus pais e era um nobre bretão romano. Neste período, ele era dono de escravos. Aos dezesseis anos, ele foi raptado e conduzido à Irlanda onde teve que ser um escravo pastor de ovelhas por mais de seis anos.
Suas cartas nos fornecem alguns indícios para refletirmos sobre o fenômeno da escravidão entre os celtas, pois ele viveu entre a Bretanha e a Irlanda celta do século V d.C. Não é freqüente encontrarmos no mundo antigo, um ex-escravo falando de sua escravidão. Assim sendo, Patrício é um dos poucos escritores antigos que nos deixaram relatos que mencionam, por alguém que teve uma experiência direta, este fenômeno (THOMPSON, 1986: 19).
Segundo Norberto Luiz Guarinello (2006: 228), no que convencionalmente chamamos de mundo antigo, havia uma situação relacional entre escravidão e liberdade. O Império Romano conheceu diversas formas de trabalho compulsório e a escravidão era somente uma dentre estas formas. No entanto, a temática da escravidão estava presente em todas as dimensões do que o autor chama de “tecido social” romano e não somente relacionada ao mundo da produção, do trabalho e dos afazeres domésticos, não exercendo, desta forma, nenhuma influência na esfera política e cultural. Guarinello afirma que a escravidão no mundo romano é um fenômeno de grande plasticidade e para compreendermos melhor a idéia do escravo como uma mercadoria, tendo em vista este contexto, ele introduz, a partir do livro Slavery and Social Death de O. Patterson, a noção de “trajetória”. Nestes termos, a escravidão pode ser compreendida como um processo de morte simbólica. O escravizado perde sua identidade original, sua pessoa, para tornar-se quem seu senhor determinar. No entanto, nesse processo, ele não se transforma numa coisa. Pelo contrário, o escravizado é ressocializado dentro da sociedade que o escravizou, seguindo trajetórias determinadas, tanto pelas necessidades do dono, como por sua própria individualidade (GUARINELLO, 2006: 232).



