É indiscutível a capacidade intelectual de Slavoj Zizek, autor internacionalmente reconhecido de importantes livros, alguns dos quais já publicados em língua portuguesa. Devido, justamente, a esta capacidade é que fiquei espantado com a quantidade de erros grosseiros em seu artigo publicado no caderno Mais com o título “Luta de Classes na Psicanálise”, que trata da diferença entre Freud e Jung (?). Esta interrogação indica uma dúvida que tive ao ler o supracitado artigo: quem é o Jung de Zizek? Parece-me que este Jung é a leitura popularizada, domesticada e pasteurizada executada por Joseph Campbell, mais o “new age” insosso, repetitivo e apaziguador de James Redfield, mais a estranha interpretação “junguiana” de Takovski, somadas às opiniões que Freud e Lacan possuem de Jung, tão parciais e capengas quanto às de Jung em relação a Freud.
Nada disso, porém, é realmente novo. Uma das “coisas” que os críticos de Jung têm em comum é a ausência quase que total de parâmetros mínimos para um razoável trabalho crítico, ou seja, começar sempre pela leitura atenta e criteriosa do autor em julgamento. Isto não foi feito por Zizek. Não há indícios que apontem quais livros de Jung foram lidos, sem falar na fortuna crítica, que no caso junguiano é bastante rica. A única citação existente é do livro “Memórias, sonhos e reflexões”, onde Jung menciona a palavra rizoma que Zizek, apressadamente, identifica com o rizoma deleuziano. Este trecho, de qualquer maneira, encontra-se logo no início do livro, o que não deixa claro até onde ele prosseguiu na leitura direta de Jung.
O que fica claro no artigo de Zizek é que ele baseia sua crítica nas fontes já citadas, em especial, Joseph Campbell e James Redfield. Conseqüêntemente, a análise de Zizek está mais tingida pelo “ouvir dizer” do que pela leitura árdua e demorada de, pelo menos, boa parte dos textos de Jung: 20 volumes com artigos coligidos, 7 volumes com a transcrição dos seminários conduzidos por Jung (somente o seminário sobre o Zaratustra de Nietzsche possui 1500 páginas), 5 volumes de correspondência. Tudo isso foi reduzido a Campbell e Redfield. Zizek, contudo, tocou inadvertidamente em um ponto sensível que afeta tanto a recepção quanto a transmissão do pensamento de Jung. Muitos admiradores e “seguidores” de Jung baseiam-se justamente nestas tentativas de popularização de seu pensamento, passando longe do estudo exaustivo de sua intimidadora obra. Estes “junguianos” (admito, estas aspas tem algo de pretensioso) usam Jung para justificar suas certezas e fantasias, como se a simples presença, em seus trabalhos, do nome de um cientista renomado garantisse a boa fundamentação de seus argumentos. Cabe aqui a pergunta: o que Jung acharia destas simplificações? Várias respostas poderiam ser achadas justamente nos volumes com sua correspondência. Junguianos (com e sem aspas); freudianos (com e sem aspas) e o próprio Zizek (“Zizek”) ficariam espantados, ao percorrer suas páginas, com as respostas de Jung. Às perguntas mais estapafúrdias, Jung sempre responde ou com uma elucidação simbólica, ou com um pedido de provas científicas, como, por exemplo, em resposta a uma leitora que afirmava a existência da vida após a morte. Jung merece melhores leitores e melhores críticos.
A repetição compulsiva de críticas a Jung por parte de pensadores e psicanalistas em flagrante contraste com a categoria e o rigor de suas respectivas obras, desloca essas críticas para a esfera sintomática. Quem é, ou o que é este Jung que eles tanto precisam que exista, a ponto de se negarem a uma troca criativa e a um confronto salutar de idéias. Toda a complexidade da escola junguiana é reduzida a umas poucas teses infundadas (que por si só já merecem um estudo), sem consulta aos trabalhos de Jung e sem o conhecimento do trabalho crítico efetuado pelos inúmeros autores junguianos espalhados por todo o mundo. Se há luta de classes, como sugere o título do artigo de Zizek, esta se caracteriza pelo desejo de uma perspectiva teórica se manter hegemonicamente superior, impedindo que outros discursos apareçam. Tudo isso é muito gozado. De minha parte (e de todos os junguianos que eu conheço) não alimentamos nenhum ódio à psicanálise. Muito pelo contrário. Somos seus devedores. Reconhecemos as grandes descobertas e as grandes idéias de todas as psicanálises e de todos os teóricos das várias escolas psicológicas. Os textos junguianos são, na verdade, intertextos que dialogam com Freud, Adler, Klein, Lacan, Kohut, Boss, Reich só para citar uns poucos nomes. É que Jung afirma insistentemente que o psiquismo é uma coisa tão complexa que nenhuma teoria poderia ter a pretensão de explicá-lo, por isso, precisamos de todas. Além do mais, Jung, como Nietzsche, afirma que toda teoria é sempre também uma confissão subjetiva. No pensamento de Jung não há uma descrição unificada do psiquismo, nem uma postura teórica que explique tudo. No entanto, é na psicanálise, desde seus primórdios, que vemos a figura da expulsão do membro desqualificado, o que, como demonstra o caso de Luce Irigaray, nem sempre é o caso. Neste sentido, a ilustração do artigo é significativa. Ela retrata Jung com a cabeça separada do corpo. Numa primeira leitura e em harmonia com o teor desvalorizador do artigo, esta cisão poderia apontar para a inconsistência das idéias de Jung: o corpo na realidade concreta dos fatos enquanto a cabeça flutua solta com as idéias mirabolantes do psiquiatra suiço. Esta mesma ilustração, entretanto, também pode ser lida como o auto-retrato do movimento junguiano: sem uma identidade unificada, onde as várias formas de ler, compreender e entender Jung polemicamente se enfrentam gerando críticas e discussões. Este, com certeza, é nosso inferno, mas tambérm nosso céu.
Na primeira parte de seu texto Zizek afirma que a popularidade de Jung se deve à reconciliação entre ciência e espiritualidade gnóstica. Como já comentei, Jung é (mal) usado por um grande número de pessoas que tentam associar seu nome às mais variadas concepções religiosas ou pseudo-religiosas, no intuito de obterem alguma credibilidade ou respaldo “científico”. Encontramos, realmente, nos escritos de Jung, menções a vários ítens que são pratos especiais do cardápio esotérico: discos-voadores, alquimia, crença nos espíritos, vida após a morte, reino espiritual “mais profundo”, são alguns desses ítens. O fato que nos interessa não é sua presença, mas a atitude de Jung para com eles. Se, por um lado, Jung demonstra uma enorme abertura para o inexplicado, por outro lado, em nenhum momento compartilha literalmente estas crenças. Seu olhar é dirigido ao sentido simbólico das mesmas tanto para o sujeito quanto para a cultura. Em relação aos discos-voadores, por exemplo, Jung pergunta qual necessidade psicológica está sendo satisfeita por esta crença, ou, numa linguagem mais facilmente entendida por Zizek, por que e como se goza acreditando em discos-voadores (quando Jung escreve sobre o arquétipo da totalidade, está falando que se goza com tudo nesta vida). Jung não está preocupado com a existência real dos discos-voadores, mas os vê como produtos psico-sociais que merecem uma investigação psicológica. Por isso, em uma de suas cartas, Jung se defende: se ele é místico por estudar o misticismo, Freud seria pervertido por estudar as perversões.
A mesma atitude Jung mantém em relação ao gnosticismo. No início da era cristã foram produzidos inúmeros textos que buscavam oferecer visões diferentes daquela oferecida pelo cristianismo que então se oficializava. Quais necessidades e significados psíquicos eram expressos através destes textos? Muito mais que sublinhar as teses gnósticas, Jung apreciava os gnósticos porque produziam teses que buscavam abalar ou suplementar (no sentido derridiano) a tese oficial. Por Jung se recusar a oferecer qualquer explicação que ultrapassasse os limites da psicologia empírica, tratava tudo exclusivamente do ponto de vista psíquico, o que o levou a ser acusado de ateu por muitos teólogos. Jung não estava em busca do reino espiritual oculto “mais profundo”, como afirma Zizek, mas sim, ao reconhecer este ”reino” como uma fantasia psíquica, buscava entender os movimentos e os textos que esta fantasia produz, que são merecedores de serem estudados por todos que se intressam pela cultura.
Zizek também afirma: “o inconsciente junguiano não é mais aquele dos impulsos sexuais reprimidos, mas o da libido dessexuada dos poderes espirituais que ultrapassam o ego consciente”. Este é um ponto crucial no confronto Jung-Freud e é, igualmente, carregado de malentendidos. A libido, para Jung, é também sexualidade, mas não somente, ou não apenas. Além do mais, Jung acreditava que Freud havia estendido tanto seu conceito de sexualidade, que tudo passou a ter um sentido sexual. Mas as duas concepções, a de Jung e a de Freud, são apenas hipóteses científicas. Nada justifica que ultrapassemos este limite. No entender de Jung, no entanto, não era essa a atitude de Freud. Tanto que estranhou quando este lhe pediu: “Jung, nunca abandone o dogma da sexualidade”! Dogma? Estamos fazendo ciência ou religião? Esta vizinhança, nas psicanálises, é algo extremamente complexo para tratarmos aqui. Agora, se algum “seguidor” (ou “crítico”) brada que para Jung a sexualidade não era importante, isto não é uma afirmação teórica, mas a expressão de um sintoma neurótico. Há um gozo em não gozar.
Outro ponto mencionado por Zizek de difícil aprofundamento aqui por falta de espaço é em relação à teoria dos arquétipos e do inconsciente coletivo. Ela é uma teoria interessante e problemática, onde o próprio Jung foi o primeiro a criar grandes confusões. Ao mesmo tempo, é um dos aspectos de sua teoria mais trabalhados, descontruídos e criticados pela exegese pós-junguiana. Os dois parágrafos do texto de Zizek onde menciona os arquétipos, contudo, falam muito menos deles do que revelam o mapa de sua própria ideologia. No entender de Zizek a diferença entre Freud e Jung é a diferença entre contingência e certeza. Como exemplo, imagina como Freud e Jung trabalhariam um caso de claustrofobia. No caso de Freud, a busca seria por uma experiência singular que explicaria a presença da fobia; no caso de Jung, a explicação estaria na repetição de uma experiência traumática universal que, de repente, tomaria conta do pobre e infeliz sujeito. Esta é, no mínimo, uma leitura selvagem da teoria dos arquétipos e da prática clínica junguiana. Pensar assim seria o mesmo, como o próprio Freud rejeitou, de receitar pênis em doses regulares para a cura da histeria. Além do mais, a motivação ideológica de atacar Jung fez Zizek esquecer do último trabalho escrito de Freud, Móises e a religião monoteísta, onde defende a herança filogenética de acontecimentos culturais.
Na seção seguinte, é a vez do confronto Jung-Lacan. O objeto de estudo é Deus e sua relação com o inconsciente. Segundo Zizek, a colocação lacaniana seria “Deus é inconsciente”, enquanto a junguiana se resumiria na fórmula falsa: o “inconsciente é Deus”. Esta oposição é, na realidade, a oposição entre verdade e mentira. Como ficariam estas duas proposições a partir de uma outra leitura que não a “new age” que Zizek sublinha, pois é a única que ele possui ou que sua ideologia o deixa possuir?
“Deus é inconsciente” é a tese principal de Jung em seu livro Resposta a Jó. Neste livro ele contrapõe as forças cegas do inconsciente à capacidade de discriminação ética, representa pela consciência do homem Jó. Com todo seu sofrimento Jó, mesme percebendo que tudo fora ação de seu próprio Deus, continuou adorando-O e respeitando-O. Continuando sua fantasia (pois, não se trata de um livro de teologia, mas de psicologia revestida de linguagem religiosa, tal qual Totem e Tabu de Freud), Jung fala do espanto de Deus, onisciente, mas inconsciente da armadilha em que havia caído, quando confrontado com a grandeza daquele pequeno ser mortal. Deste espanto e desta admiração viria Seu desejo de se encarnar como homem na figura de Jesus.
A segunda proposição, “o inconsciente é Deus”, também pode ser encontrada em Jung, mas com um sentido totalmente diferente daquele sugerido por Zizek. O “inconsciente é Deus” é muito mais do que a simples inversão entre sujeito e predicado, mas a afirmação do inconsciente como sujeito, um sujeito tão especial e tão totalmente Outro que seu predicado é Deus. Quando Jung se refere ao caráter “divino” do inconsciente ele não está se referindo a “unidade fantasmática de uma pessoa”, mas exatamente o contrário: Jung está descrevendo, em linguagem poética, metafórica e mítica (formas de expressão favoritas de Jung), a diferença radical entre inconsciente e consciente, semelhante à diferença radical entre Deus e homem. Com isso, ele não pretende criar uma nova religião, embora muitos assim o entendam (ou precisam), mas deseja evitar a redução das expressões e fantasias inconscientes a desejos subjetivos, reconhecendo este inconsciente, que Jung chamou de psique objetiva, como um Outro. Esta psique objetiva não é criação humana (egóica), da mesma forma que o fígado, o coração e os pulmões não o são. Como a Coisa mencionada por Zizek, ela sempre já antecipadamente existe, mas não como essência que será descoberta na famosa jornada interior, mas como expressão poética de um Outro que não se furta a uma tentativa de diálogo, mas que nunca se deixará domesticar e ser reduzido ao mesmo.
Zizek vê Jung como aquele que, devido à sua influência gnóstica pagã, cujo universo seria distinto do judaico-cristão (depois fala só em judaico) encarnado pela psicanálise, aposta na conciliação e resolução definitiva de todos os conflitos . A luta de classes vira agora guerra religiosa. Zizek não consegue perceber que com a identificação (metafórica eu insisto) do inconsciente com Deus, Jung está justamente afirmando o abismo do Outro e colocando o empreendimento psicanalítico em uma dimensão ética absoluta. Não é mais apenas uma atividade médica. É um Outro que tem desejos que podem atingir o pobre mortal de maneira traumática, mas também de maneira amorosa. Porém, para , o amor cristão é uma tentativa de “superar” o caráter de “Outro” do Deus judáico. Surge aqui uma dúvida: não há expressão amorosa no judaísmo? Parece que, também em questões religiosas, não concordamos.
Na psicologia junguiana “o enigma do gozo do Outro” é chamado “processo de individuação”, o caminhar em direção à totalidade, isto é, a tudo que existe, a todos os potenciais, a todos os Outros (internos e externos) que eu estou sujeitado e destinado (lançado) a encontrar. Nada da pacífica, tranqüila e purificada jornada em busca do nosso verdadeiro “eu interior”, como pensa Zizek. Nem o sentido das manifestações inconscientes é pré-determinado. Zizek esqueceu (ou desconhece) que o encontro histórico entre Freud e Jung se deu quando este último pesquisava as associações de palavras e suas perturbações, culminando em sua teoria dos complexos. Da mesma maneira, não existe para Jung “um significado mais profundo” por baixo da contingência dos acontecimentos, embora, nada impeça que Zizek e outros acreditem nisso.
Infelizmente, não há como aprofundar as outras questões que Zizek identifica com Jung (como ele imagina que o psiquiatra trabalharia o problema amoroso e a questão dos gêneros, o transforma em um verdadeiro idiota). Mas, para terminar, vou comentar algo que não pode faltar em nenhuma crítica a Jung: o seu “envolvimento” com o Nazismo. Aqui, desinformação, preconceito e a atitude ideológica de denegrí-lo revela, claramente, a não leitura dos textos de Jung, especialmente de suas cartas, onde, cuidadosamente, explica seus motivos para aceitar ser o presidente não da “Sociedade Alemã de Psicologia”, como escreveu Zizek, mas da “Associação Internacional Geral e Médica de Psicoterapia”. Somente este “ato falho” já revela muito as intenções de Zizek.
Obviamente, não estou defendendo Jung cegamente. Sua psicologia contém muitos problemas metodológicos e muitas concepções há muito ultrapassadas. Há também, é claro, idéias riquíssimas e formulações de hipóteses que anteciparam vários desenvolvimentos em todas as áreas da psicologia e da psicoterapia. O trabalho incessante de desconstrução feito pela escola junguiana em nenhum momento escamoteia os problemas em prol de uma ênfase unilateral nas virtudes da psicologia de Jung. Neste sentido, a leitura dos volumes de cartas é uma fonte indispensável de informações, onde o próprio Jung tenta corrigir pontos obscuros do seu pensamento. Com sua leitura atenta, muitos erros grosseiros da interpretação unilateral de Zizek poderão ser evitados.
Texto de Carlos Bernardi publicado na Folha de São Paulo em resposta ao artigo “Luta de Classes na Psicanálise” de Slavoj Zizek, publicado no caderno Mais de 7 de julho de 2002. Na edição do dia 28 de julho do mesmo caderno, foi publicada uma outra resposta, apontando, igualmente, os erros de Zizek.





