Nelson Costa Jr» Blog Archive » A "emergência" na linguagem de Babel.

Desde o momento em que me disponho a falar de Babel, espero que no final da minha intervenção se elevem muitas vozes a formular uma confusão que certamente existirá; e será bem-vindo quem quer que venha a apresentar a própria voz fazendo com que Babel possa continuar.

Sem dúvida alguma o relato do mito de Babel é conhecido por todos, narrado no capítulo 11 do Livro do Gênesis: antes de Babel todos os homens da Terra tinham uma única língua, usavam as mesmas palavras. “Disseram um ao outro: “Vamos construir para nós uma cidade e uma torre cujo topo toque o céu e vamos nos dar um nome para não dispersarmos sobre toda a terra”. Mas o Senhor desceu do céu e disse: “Eis, eles são um só povo e todos têm uma única língua e eis, esse é o início da sua obra. E agora quanto planejarão fazer não será impossível”, quer dizer “Agora poderão fazer qualquer coisa.”

Um comentarista judeu, que escreve mais tarde, em plena Idade Média, explica assim: “Agora poderão coroar a idolatria”. Assim acontece que Deus dispersou os homens por toda a terra, e criou uma infinidade de línguas, e o povo não foi mais um só. Essa foi a punição.

Logo, no mito da torre de Babel estão contidas três problemáticas diversas. A primeira é aquela da origem das línguas: como surgiu um número tão grande de línguas? Em segundo lugar, o mito encara um outro problema: por que existem tantos tipos de povos sobre toda a terra? E, num terceiro nível, coloca o problema da hybris: é quando o povo é ainda um único povo que concebe a idéia de chegar até o céu ou, como dizem mais tarde os comentaristas judeus, que amadurece a intenção de atacar o céu, de engajar uma guerra com Deus, de elevar ídolos ou de destruir o céu com lanças e flechas.

Qual foi a punição que Deus infligiu aos homens por tal ato de hybris? Esta: a cada povo foi atribuída uma língua particular, e enquanto antes toda a terra tinha um único modo de se exprimir, agora os homens foram dispersos, ocuparam a inteira geografia do planeta, e tiveram muitas línguas. Portanto a dispersão por todo o planeta e a grande variedade dos lugares geográficos estão ligadas à multiplicidade das línguas, e constituem uma resposta à hybris da unificação.
A hybris da torre se realiza quando há unicidade, e é então que se tem uma única língua. E quando se tem uma única língua, se tem a hybris.

Devemos refletir sobre isto hoje, sobre como o mundo veio lentamente a ser dominado por uma única língua: a língua da Internet. Eu também, nesse momento, estou usando aquela única língua.

Dissemos que a narração bíblica coloca três problemas diversos. Existem muitíssimos mitos das origens; não da origem da língua, mas da construção de uma torre que chegue a tocar o céu – os Nyambos têm uma no México, em Cholula, e, ainda no México os Toltecas têm uma também, também se apresenta entre os Cuki em Assam e entre os Karen na Birmânia: se trata sempre de manifestações de hybris, de soberba, de arrogância, da tentativa de escalar e de agredir a potência de Deus. A punição divina no mito não consiste na destruição dos homens, como acontece no caso de Sodoma e Gomorra ou no caso do Dilúvio: não se destrói o mundo, mas se dispersam os homens por todo o mundo. Em outros termos, se cria a variedade, os vários estabelecimentos. É difícil dizer que se trata realmente de uma punição. É para impedir o ato de hybris, para impedir a uniformidade que se tem a diversidade. É um elemento sobre o qual refletir, em meio a tantos impulsos poderosos em direção à uniformidade, na ciência e na economia, nos negócios, na política e assim por diante.

Existe claramente um forte impulso ao universalismo. A aspiração a uma ciência unificada, a um direito internacional, a uma Igreja e a uma língua universais: o esperanto, por exemplo, exprime no seu próprio nome a idéia de aspiração, de esperança. Esperança de uma paz universal e da possibilidade de solução de todos os conflitos através da unidade. Mas não é essa a lição que nos vem por meio de Babel. Babel nos diz que o Senhor quer: Ele quer a diversidade, a variedade.

Como disse um escritor, os Apaches têm um nome para cada lado do rio, mas nenhum nome para o rio; eles entendem o particular, o local. E o discurso poético, a metáfora, a língua originária traz muitos significados nas imagens. Embora eles sejam particulares, são também intensos, ricos como qualquer outro universal: são, se quisermos, mais arquétipos simbólicos que puramente sinais. Acreditar que a comunicação pede uma língua universal, abreviada, uma Neolíngua à la Orwell significa reduzir a comunicação a mera informação, transformando a informação e a mensagem em “dados”. Uma mensagem é alguma coisa a mais que um conjunto de “dados”. Uma mensagem é um anghelos, e cada nação, diz o Gênesis, tem o seu anjo, porque tem a sua linguagem.

Os anjos podem ainda falar entre si porque a sua língua é a língua desse mundo: não creio que falem Teologia, creio que falem Natureza. Falam a língua da lenha que queima, da luz das estrelas, do latido de um cão à distância. Por causa de Babel, todos os povos que não se entendem entre eles podem ao contrário entrar em contato um com o outro através deste profundo universalismo da psique no nível arquetípico da existência, através do fundamento poético da mente.