- Então o senhor acha que não existe um Deus?
- Ao contrário, penso que muito provavelmente existe.
- Então, por que…?
Mustafá Mond atalhou-o.
- Mas ele manifesta-se de maneira diferente a homens diferentes. Nos tempos pré-modernos, manifestava-se como o ser descrito nesses livros. Agora…
- Como se manifesta ele agora? – perguntou o Selvagem.
- Bem, ele se manifesta como ausência; como se em absoluto não existisse.
- A culpa é sua.
- Diga, antes, que é culpa da civilização. Deus não é compatível com as máquinas, a medicina científica e a felicidade universal. É preciso escolher. Nossa civilização escolheu as máquinas, a medicina e a felicidade. Eis por que eu guardei esses livros no cofre. Eles são indecentes. As pessoas ficariam escandalizadas se…
O Selvagem interrompeu-o.
- Mas não é uma coisa natural sentir que há um Deus?
- O senhor poderia igualmente perguntar se é natural fechar as calças com zíper – retrucou o Administrador, sarcasticamente. – Fez-me lembrar outro desses antigos, chamado Bradley. Ele definia a filosofia como a arte de encontrar más razões para aquilo em que se acredita por instinto. Como se nós acreditássemos em alguma coisa, seja o que for, por instinto! Cremos nas coisas porque somos condicionados a crer nelas. A arte de encontrar más razões para aquilo em que se crê por outras más razões, isto é filosofia. As pessoas crêem em Deus porque foram condicionadas para crer em Deus.
- Ainda assim – insistiu o Selvagem – é natural crer Deus quando se está só, completamente só, à noite, pensando na morte…
- Mas agora nunca se está só – disse Mustafá Mond. – Fazemos com que todos detestem a solidão, e organizamos a vida de tal forma que seja quase impossível conhecê-la.
O Selvagem concordou inclinando a cabeça com tristeza. Em Malpaís, sofrera porque o haviam excluído das atividades comunais do pueblo; na Londres civilizada, sofria porque nunca podia fugir dessas atividades comunais, nunca podia estar sossegado e só.
Admirável Mundo Novo [ Brave New World ]foi escrito em 1932, e, se o mundo não era há quase 80 anos exatamente do jeito que é hoje salvo evolução da ciência e tecnologia, Aldous Huxley é o deus da cultura-ciência-tecnologia. Ou, então, tinha superpoderes.
Direto da Girafa.





