Nelson Costa Jr» Blog Archive » Quando o Cristianismo não faz sentido – 1.

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Uma história maculada.

“As teorias preconcebidas dão formas às maneiras que nós vemos as evidências, em vez de deixarmos as evidências moldarem nossas teorias.”

Anthony Flew

Imagine você no verão da antiga Turquia em 325, sentado a mesa juntamente com o imperador romano Constantino, e todos os bispos de todas as províncias, discutindo as controvérsias doutrinais do Cristianismo dos séculos IV e V, em prol do estabelecimento canônico, e da política do império. Com certeza muita coisa mudou após o término dessa conversação que durou 2 meses.
Imagine você agora ao lado do Hus saxônico, Martinho Lutero, fixando noventa e cinco teses na porta da catedral da cidade aonde ensinava, insinuando que a mesma Igreja que deliberou o cânon sagrado incorria em graves erros.
Agora, imagine você em 1940, sentado na entrada do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau no sul da Polônia assistindo 438.000 judeus da Hungria sendo queimados vivos dentro de fornos, e de fogueiras ao ar livre, devido a uma ideologia patrocinada pelo povo alemão, e estabelecida pelo líder do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nazi), Adolf Hitler. Hitler usou o seu julgamento como uma oportunidade de espalhar a sua mensagem por toda a Alemanha, e costumava respeitar e seguir os exemplos de anti-semitismo e absolutismo, de seu antigo compatriota Martinho Lutero, que em seu tempo confrontou as doutrinas estabelecidas pelos pais da Igreja.
Suponha agora, você vivendo a década de 60 e experimentando a implantação dos projetos culturais e ideológicos alternativos lançados na década de 50, a revolução comportamental, as idéias de liberdade, e a experiência de poder ver o homem pisar na lua. A agitação foi tão grande nessa época, que o Papa João XXIII abriu o Concílio Vaticano II, que revolucionou a Igreja Católica.
Notoriamente, podemos ver quantas reviravoltas drásticas o Cristianismo sofreu em conjunto com essas transformações sóciais desde então. De acordo com a história da Igreja nossas formas de se entender a Deus não ficaram de fora de tais conversões, e evidentemente o Cristianismo deixou de ser o caminho, e passou a ser um sistema de crenças que constantemente se alteram, em conformidade com o desenvolvimento de nossa sociedade. Para igreja evangélica, ser cristão na década de 60 era ser protestante. Nos anos 70 era ser crente. Nos anos 80 era ser evangélico. Nos anos 90 era ser gospel. E agora no recente século, aparentemente vivemos um Cristianismo indefinido, aonde a melhor forma de servir a Deus ficou a par das experiências individuais.

O Cristianismo através dos tempos se adpatou a humanidade através de suas denominações e doutrinas, levando a Igreja a não ficar de fora da evolução humana. Mas da mesma forma que essas mudanças ocorreram na sociedade, podemos descrever muitas histórias a respeito das experiências e impulsões que cada indivíduo recebeu. Essas transformações não ficaram limitadas somente a grupos sociais ou a igreja, elas de alguma forma influenciaram cada indivíduo de cada época correspondente. Incluindo os cristãos.
Para clarificar a idéia, pare por um momento agora, e analise as últimas alterações que ocorreram contigo nos últimos passados anos, devido aos fatos e acontecimentos de sua época. Você vai perceber que muita coisa aconteceu em sua vida , mas que devido a essas transições e outros fatores, elas não foram levadas em conta. Examine sua vida espiritual por exemplo:

Talvez tenha tido uma experiência magnífica com Deus em sua adolescência na escola dominical, na escola bíblica de férias e nas conferências missionárias, aonde descobriu que Deus era importante , e que Jesus havia nascido da virgem Maria, muito antes de saber quem ela era . Porventura os cultos de celebração do Natal ainda fazem parte de suas boas lembranças, em conjunto com a mensagem de João 3:16, que talvez hoje não faça mas sentido. E finalmente os hinos, principalmente da harpa cristã, que tocaram profundamente na vida de muitos.

Firme nas promessas do meu Salvador,
Cantarei louvores ao meu Criador.
Fico pelos séculos do Seu amor,
Firme nas promessas de Jesus.

Firme, firme, firme nas promessas de Jesus, meu Mestre,
Firme, firme, sim firme nas promessas de Jesus.

Firme nas promessas não irei falhar,
Vindo as tempestades a me consternar;
Pelo verbo eterno eu hei de trabalhar,
Firme nas promessas de Jesus.

Firme nas promessas sempre vejo assim,
Purificação no sangue para mim;
Plena liberdade gozarei, sem fim.

Firme nas promessas de Jesus.

Firme nas promessas do Senhor Jesus,
Em amor ligado com a Sua cruz,
Cada dia mais alegro-me na luz,
Firme nas promessas de Jesus.

Talvez na juventude, não tenha tido uma experiência tão boa quanto a da adolescência. Muitos jovens nessa fase, vivenciaram um período de medo, ansiedade e culpa, por questionarem o modo de servir a Deus transmitido pela igreja . Um grande número de jovens cristãos passaram horas de suas vidas orando a Deus com medo do inferno, ansiosos por tal pensamento não cessar, e por se sentirem culpados por não conseguirem crer mais em Deus, da mesma forma que criam quando adolescentes.
Aí vem a fase adulta, que clarifica certas perturbações da juventude, mostrando que certos conflitos pessoais sagrados, ocorreram devido a colisão entre a visão do mundo particular fora da fé, com a visão peculiar a respeito de Deus que cada um possuía.

Mas aí já é tarde demais, e infelizmente, esses fatores já afetaram as verdades individuais que cada um aprendeu a respeito de Cristo e sua Igreja, e uma nova pergunta se levanta nos raciocínios da maturidade dessa nova geração:

O que significa anunciar Jesus como filho de Deus, e crer que a Igreja é o seu corpo, se não sei mais quem é Deus, e quais são as intenções do Cristianismo ?

Devido a esse conjunto de transformações geradas no desenvolvimento integral da humanidade, as pessoas passaram a procurar por mecanismos de defesas, que geraram novas condições de vida, e que moldaram cada indivíduo de acordo com os seus específicos meios a um sistema. Assim a Igreja passa a vivenciar novas crenças, novas dúvidas, novas divisões e novas doutrinas que afastam alguns, e agregam outros a ela. Logo, diante desse paralelo entre o mundo e a igreja, pode-se concluir que uma grande parte da cristandade, independente de denominações , já questionou a fé, ou se decepcionou de alguma forma com o Cristianismo , e que outros, felizmente se apegaram a ele.

Como então sobreviver essa crise sagrada ?
Como restaurar a imagem da Igreja que foi destorcida pelas transições sem levá-la a outro extremo ?
Como reencontrar Jesus de novo ?

O importante é compreender que diante desse processo doloroso de restauração, muitas vezes as respostas irão aparecer nos momentos de desesperança, dúvida e questionamento, conforme aconteceu com muitos cristãos no passado.
Do mesmo jeito que a existência humana é argumentada em busca de uma respectiva resposta para exclusivos problemas, se deve questionar os enredos da vida, do conhecimento , das verdades e da fé, para se conseguir reparar os acabamentos do Cristianismo . A esperança da igreja , e dos embaraços particulares, será encontrada nas contendas, nas descrenças e conflitos, da mesma forma que foi encontrada através da vida natural.
É pertinente se compreender que Deus não trará respostas ou novas expectativas ao ego humano , a não ser através da praticidade das narrativas bíblicas, filosóficas e científicas, que compõem todo enredo.
Enfim, não é possível dizer em detalhes o que o futuro guarda para o cristianismo, só sabemos de seu passado, e de que um dia estaremos frente a frente diante de Deus com nossa história.
Nessa nova série do blog “Quando o Cristianismo não faz sentido”, não pretendo oferecer uma resposta a todas as perguntas, impor alguma idéia, ou muito menos confrontar as doutrinas de alguma denominação. Talvez usei de muita especulação que confronte algumas, mas já deixo claro que minhas intenções não são de criticar nenhuma delas. Já deixo minhas desculpas se alguém for confrontado por elas também.
O meu desejo é de disponibilizar o que sei, e de buscar através do questionamento, da conversação, da filosofia e descrição, a melhor forma de se apreciar o Criador, e construir um história pessoal que favoreça o seu Reino. Procurar reencontrar o que significa ser um cristão hoje, cooperar na reconstrução da imagem da Igreja e deixar claro que o Cristianismo faz sentido.

Nelson Costa

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