Nada espero.
Nada temo.
Sou livre.
Inscrição no túmulo
de Kazantzakis
Somos uma ficção que se refaz e se constrói o tempo todo. Chame isso, se quizer, de processo de individuação (Como dizia Carl Jung). Prefiro ir com o grande Riobaldo de Grande Sertão: Veredas.
O senhor… Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas — mas que elas vão sempre mudando. (Guimarães Rosa, pág. 20).
Riobaldo ainda acrescenta: “Viver é muito perigoso!”.
A repetição é o estado neurótico por excelência. Uma postura unilateral que impede que a diferença do outro apareça. Isto vale também para o indivíduo quanto para a cultura. Por isso a atitude democrática é fundamental ao verdadeiro desenvolvimento cristão . Como poderei escrever algo da grandeza de “A Última Tentação de Cristo” se não tiver condições internas e externas para me expressar.
Para Jacques Derrida a literatura, nas condições de hoje, é a “estranha instituição que permite dizer tudo ou quase tudo”. Este tudo habita tanto o registro da totalidade quanto o da permissão, ou seja, dizer qualquer coisa. Por isso, condições democráticas são fundamentais. Chame, se quiser, o processo de ampliação da consciência de democracia do sujeito (agulha do palheiro). Uma democracia, como também afirma Derrida, que está sempre por vir, nunca estará pronta, pois sempre algo novo surgirá para ser recebido com hospitalidade.
“Assim caminha a humanidade”, já dizia Lulu Santos, “com passos de formiga e sem vontade”. A inércia do ego, as forças conservadoras e os desejos individualistas o tempo todo ameaçam o processo de emergência .
Além dessas forças, a psicologia acrescenta uma outra, o esteticismo. Olhar para as imagens do inconsciente unicamente em busca de prazer e satisfação estética destrói todo o procedimento. A formulação estética funciona apenas na elaboração formal da imagem. A ela devem se seguir o entendimento intelectual e a preocupação ética e moral com aquilo que as imagens representam. Esquecer deste aspecto transformador é como determinar por si só que não poderá viver, após sua morte, junto ao seu Deus.
Finalizando , invoco Fernando Pessoa que expressou esta necessidade de ser agulha e não palha , por intermédio de belíssimas palavras :
Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: “Navegar é preciso; viver não é preciso.”
Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para se casar com o que eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha. (Pessoa, Obra Poética, pág.15)





