Foi Jesus um “emergente”? 2-Parte.
Jesus foi um emergente não por título ou denominação, mas pela emergência de sua natureza humana-divina, histórica, biológica, educacional e cultural. Por tudo aquilo que antecedeu e possibilitou sua livre decisão de encarnação. Além do mais, quanto mais se medita sobre Jesus mais se descobre o mistério que sua vida humilde escondia e mais se remonta para as origens.
Ao falarmos da emergência de Jesus, devemos antes esclarecer um equívoco. Emergente não é uma pessoa que diz pura e simplesmente coisa nova. Nem emergente é sinônimo de esquisito. Muito menos de auto-denominação. Emergente vem de origem. Quem está perto da origem e do originário e por sua vida, palavras e obras leva os outros à origem e ao originário deles mesmos. Nesse sentido, Cristo foi um emergente. Não porque descobre coisas novas. Mas porque diz as coisas com absoluta imediatez e soberania. Tudo o que diz e faz é diáfano, cristalino e evidente. Os homens percebem logo. É isso mesmo! Em contato com Jesus, cada um se encontra consigo mesmo e com aquilo que há de melhor nele – a pessoa emerge, cresce, cada qual é levado ao originário. O confronto com esse originário gera uma crise : urge decidir-se em emergir ou então instalar-se no derivado, secundário, na situação vigente.
O bom senso é a captação dessa emergência no homem que a gente vive e sabe, mas que é difícil de se formular e fixar em imagens. Cristo soube verbalizar a emergência ou sã razão de forma genial. Por isso que ele resolve todos os conflitos e coloca um “ e ” onde a maioria coloca um “ ou ”. O autor da carta aos Efésios diz muito bem que Cristo derrubou o muro que separava os pagãos dos judeus e “fez dos dois um só homem novo” (Ef 3, 14-15). Ele derrubou todos os muros, do sacro e do profano, das convenções, do legalismo, das divisões entre os homens e entre os sexos, dos homens com Deus, porque agora todos têm acesso a Ele e podem dizer “Abba, Pai” ( Ef 3,18; cf. Gl 4,6; Rm 8,15). Todos são irmãos e filhos do mesmo Pai. A emergência de Jesus consiste pois em poder atingir aquela profundidade humana que concerne a todos os homens indistintamente. Daí que ele não funda uma escola a mais, nem elabora um novo ritual de oração, nem prescreve uma super-moral. Mas atinge uma dimensão e rasga um horizonte que obriga tudo a se revolucionar, a se rever a se emergir.
Com Cristo, tudo emerge. Com ele, um velho mundo se acaba. E reaparece um outro, onde os homens têm a chance de serem julgados não por aquilo que as convenções morais, religiosas e culturais determinam, mas por aquilo que, no bom senso, no amor e na total abertura para Deus e para os outros, se descobre como sendo a vontade concreta de Deus.