Não basta saber o que os outros souberam.

Fé em Cristo é um contínuo processo de inserimento daquilo que Ele significa, dentro da nossa compreensão da vida, do homem e do mundo. Até agora predominou na cristologia a perspectiva sacral; a maioria de seus títulos eram proclamados na esfera cúltica da liturgia. Outros porém possuem um caráter eminentemente secular, como aqueles das epístolas aos efésios e colossenses, onde Cristo é decantado como o cabeça do cosmos e da Igreja, como aquele elemento que confere a toda a realidade sua existência e consistência.

Tais títulos porém não foram adequadamente explorados na teologia e na vivência concreta da fé. Se repararmos as formulações litúrgicas, os manuais de cristologia e em geral os livros sobre Cristo – inclusive as Escrituras – percebemos com pesar o predomínio do pensar historicista e a falta de fantasia criadora da fé. Sabemos minuciosamente o que os outros souberam no passado, como tentaram integrar Cristo dentro de seu horizonte de compreensão, mas vemo-nos pessimamente informados de como devemos levar adiante esse mesmo processo e como o estamos em concreto fazendo.

Como chamamos nós a Cristo hoje ?

Que contribuição daremos nós, com a riqueza que nosso mundo oferece, na decifração de seu mistério ?

Que títulos vamos lhe conferir que signifiquem nosso amor e nossa adesão à sua pessoa e mensagem ?

Em que sentido nossa vida é o lugar hermenêutico na intelecção mais profunda dos títulos tradicionais ?

Quando a juventude pós-moderna diz : “Jesus é o cara; Jesus vai além do pensamento; Creio em Deus; Nós todos somos irmãos no corpo de Cristo” ou a frase : “ Ligue-se na espiritualidade e não na religião bicho! Você não precisa usar drogas. Basta um pouco de Mateus, Martin Luther King Jr. , Marcos, Madre Teresa, Lucas, Desmond Tutu e João. Cristo é uma viagem eterna”, será que os títulos e nomes salvação, Senhor, corpo de Cristo, seguimento de Jesus não assumem um conteúdo mais nuançado e também mais concreto que só nossa geração vive e pode testemunhar e com isso estamos dando nossa colaboração na revelação de quem é Jesus ?

Enfim, a fé deve libertar a figura de Jesus das peias que o prendem e o diminuem. Cada geração deve se confrontar com o mistério de Jesus e tentar dar-lhe os nomes que correspondem à nossa vivência de sua inesgotável realidade. No fundo, a fé adulta de cada cristão é desafiada a falar dele e a partir dele, bem ou mal como é dado a cada qual.