3
A narrativa de uma alma.
Ao menos pelo fiasco é preciso lutar.
Thomas Bernhard.
Talvez o mundo nunca tenha se visto ante uma necessidade tão grande de uma parada, de um descanso deliberado no sentido espiritual, como hoje em dia. Parada para avaliar a situação e reformular os valores – na medida em que ainda se dê algum valor à vida; e na realidade essa é a principal pergunta a fazer.
Estou convencido de que a desvalorização da vida, a decadência existencial veloz, exterminadora, da nossa era é causada pelo profundo desespero cuja raiz se oculta nas experiências religiosas destruidoras e no saber catártico que delas se origina. É como se o homem já não vivesse o próprio destino aqui na Terra, e com isso perdesse o direito sofrido de repetir com o rei Édipo : “ A despeito de tudo, minha idade avançada e a grandeza da minha alma sussurram-me que tudo vai bem …”, ou como se também não lhe dissesse respeito a Escritura : “ E morre Jó na boa velhice e realizado”.
Como se não bastasse toda essa catástrofe humana , a única esperança dada por Deus pelo Cristo crucificado – a graça- é eliminada por leis que são feitas por homens e não por Deus. Um aplica a lei ilegalmente, o outro situa a lei na ilegalidade. Um surge como redentor, ao passo que sob o hábito se esconde o demônio; o outro se veste de Satã e é o próprio. Nessa divisão a religião(nisso enquadro o cristianismo também), vai se proliferando entre aqueles que realizam suas ideologias (segundo a ideologia), e o outro opondo-se a ela com ódio.
Porém, a vida livre de sofrimento se libertou da realidade podendo nos ensinar algo, de modo que podemos perguntar, como Hermann Broch: “Existe realidade ainda nessa vida distorcida?”. Assim, em nossa época a alegria (para não mencionar a felicidade) e o sofrimento assumem as formas mais estéreis – exilados nos cenários dos extermínios em nome de Deus, no totalitarismo cristão , no fundamentalismo bíblico e na esperança programada.
Mas o cristão que entende a mensagem de Cristo passa por cima dessas atrocidades como um poeta através do auxílio do amor. Os poetas são os legisladores do mundo.Penso que é dessas imediações que temos de partir. Porque é também verdade que os poetas – e devemos tomar o significado amplo da palavra, no sentido da imaginação criadora – não fazem leis, como os fariseus de uma sinagoga, mas submetem-se a elas, às leis que no mundo funcionam como tal e engendram e ordenam a história, a história da humanidade.
O poeta jamais transgride a lei, pois a obra seria injustificada ou simplesmente ruim. Essa lei inapreensível e, apesar disso, a mais eficaz, não só dirige nosso espírito, mas alimenta incessantemente nossa vida,pois,não fosse assim, não existiria, permitam que a nomeie, na falta de melhor e na minha perplexidade, com a expressão tomada de empréstimo a Thomas Mann, a “alma da minha narrativa”. Ou não?Estaria eu enganado?Teríamos sido vítimas de uma ilusão de ótica em que a ótica, na realidade, chama-se manipulação cristã, e não haveria nenhuma vitória ? Espero que não, bem disse Kierkegaard : È na derrota que o crente encontra a vitória !.
Leia também :
- Quando o Cristianismo não faz sentido – 2.
- Quando o Cristianismo não faz sentido – 1.





