“O homem nasce livre, e em toda parte é posto a ferros. Quem se julga o senhor dos outros não deixa de ser tão escravo quanto eles”.
Jean-Jacques Rousseau
Como estamos impregnados dessa espiritualidade farisaica ! Quando estamos bem, nos aproximamos de Deus. Quando mal, cheios de contradições e infidelidades, não nos achamos dignos de nos aproximar dele. Numa narrativa zen-budista, um monge pede ao mestre para sair do mosteiro, que era em plena cidade, para ir à montanha encontrar Deus. O mestre lhe concede três anos, ao término dos quais vai visitá-lo. Pergunta-lhe se já havia encontrado Deus, ao que ele responde: “Olha, acho que estou chegando lá, mas não cheguei, me dê mais um prazo”. O mestre concorda: “Você tem mais três anos”. Três anos depois, o mestre volta. “E então?” O monge disse: “Estou quase. Já toquei na porta dele, só falta abrir. Preciso de um último prazo”. O mestre vai embora e, ao voltar, três anos depois, o monge lhe confessa que Deus até abrira a porta, mas não Se mostrara ainda. O mestre indaga: “Está convencido de que, atrás da porta, vai encontrar Deus?” Ele responde: “ Olhe, depois de nove anos, para falar a verdade, não estou convencido”. E pergunta ao mestre: “Onde está Deus ?” Ele aponta para a cidade: “Lá embaixo, na merda.”
Está parábola zen-budista é justamente para mostrar a espiritualidade de Jesus. Ela é o inverso da espiritualidade dos fariseus. No primeiro modelo de espiritualidade, o do fariseu, o centro da santidade está na minha capacidade de ser virtuoso. No modelo de Jesus, quanto mais na merda estou, mais Deus me ama e mais devo me abrir para Ele. Ou seja, não há montanha a subir, não há virtude a servir de critério para o encontro com Deus. Há apenas uma coisa: Deus nos ama irremediavelmente, apaixonadamente. E quanto pior estivermos, mais nos devemos abrir a esse amor de Mãe – Jesus vive, a experiência de Deus, que acolhe, tem misericórdia, é Pai e Mãe – Porque a mãe se preocupa mais com filho doente, fraco, que está metido em uma porção de rolos. É com esse que ela mais sofre, é a esse que ela mais quer. É preciso deixar-se acolher, na linha do acolhimento que Jesus faz à prostituta, ao ladrão, ao sujeito que está condenado pelos fariseus, enfim, à escória. Os convidados ao banquete, na parábola, são a escória. São os privilegiados no festim do Pai.
A espiritualidade de Jesus é a do amor. Na espiritualidade do fariseu, Maria é fiel a João porque há um código social que prega que a infidelidade conjugal é um pecado e um escândalo. Maria é doida para dar uma pulada de cerca e João também, mas diz a moral conjugal que têm de ser fiéis um ao outro. Na espiritualidade de Jesus, Maria é tão apaixonada por João, e João é tão apaixonado por Maria, que não conseguem deixar de ser fiéis um ao outro.
Eis a proposta de Jesus: deixar-se amar por Deus para ser virtuoso, e não ser virtuoso para chegar a Deus.





