“O povo foi seduzido por um tipo de progresso imoderado, por uma patologia ideológica, como alguns antropólogos chamam”.
Thomas Beaudoin.
Um cristianismo teo-capitalista muitas vezes funciona como uma máfia, que promete segurança e proteção a partir de uma taxa. Mas se você não pagar essa taxa, a máfia diz que, o “Poderoso chefão” irá destruí-lo.
Em vez de um “esquema de proteção”, esse cristianismo se torna um “esquema de perdão”, que gera uma criação de culpa e ansiedade. Um esquema de perdão e conforto que no final cria mais culpa e ansiedade, para você precisar de mais perdão e conforto amanhã ; assim por diante. Ou seja, esse sistema funciona da seguinte forma: ele promete a satisfação e a felicidade através da posse e consumo, mas procura sempre inflar o seu desejo de felicidade, assim você terá sempre a necessidade de possuir e consumir mais, sempre terá uma enorme insatisfação.
Esse sistema, faz você sonhar com uma realidade sem sentido, fundamentada nas Escrituras Sagradas. Você associa tais “realidades” com os dizeres “santos”, e leva seus anseios e desejos aos líderes dessa máfia, que pregam um deus mafioso que, atende a todo consumismo humano de quem se submete a ele; aonde no final lhe consomem. Em outras palavras, você fica totalmente doutrinado pela estrutura imperialista da narrativa capitalista santa – Cristianismo teo-capitalista.
Sem entrar no mérito da questão política – que não é o mesmo caso neste contexto – Jesus simplesmente nega esse dualismo cristão-capital, muito feudal, quando ministra o Sermão da Montanha por exemplo, descrito em Mateus 5,1-7:
E Jesus, vendo a multidão, subiu a um monte, e, assentando-se, aproximaram-se dele os seus discípulos; E, abrindo a sua boca, os ensinava, dizendo:
Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus;
Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados;
Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra;
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos;
Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia;
Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus;
Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus;
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus;
Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa.
O Sermão da Montanha, que não quer ser lei, é um convite dirigido a todos para terem uma consciência extremamente clara e uma capacidade ilimitada de compreender, simpatizar, sintonizar e amar os homens em suas limitações e realizações. Essa mensagem de Jesus gera vida para aqueles que estão ameaçados em sua “vida”, e não em seus egoísmos gerados nesse sistema teo-capitalista.
Precisamos prestar muita atenção nesse sistema, porque ele é como uma faca de dois gumes que, corta de um lado a sacralização e a abnegação dos pobres oprimidos, e do outro lado, a idéia de que Deus irá abençoar o nosso sistema suicida, originado em nossa história egoísta, que foi enquadrada a um conjunto de elementos destruidores.
Como dizia Carlos Drummond de Andrade :
Necessitamos sempre de ambicionar alguma coisa que, alcançada, não nos torna sem ambição. Fazemos da injustiça, da incompreensão e do ódio os veículos de uma distante e soturna justiça, a ser desfrutada por alguns eventuais sobreviventes.
É possível que achem essa posição exclusivista. É possível que entrevejam em minhas palavras um sentimento anticristão. Mas primeiro tenho de reiterar que falo o tempo todo de um certo tipo de sistema cristão. Eu o denomino de “cristianismo teo-capitalista”, porque seu modo de pensar, suas regras de conduta, toda a sua existência espiritual, a sua existência própria, foi influenciado e talhado pela ideologia capitalista do século XV.
Esse totalitarismo teo-capitalista transforma de início em massa, depois encerra entre as paredes de um regime fechado e, por fim, rebaixa a peça sem vida da engrenagem. Como um bom ditador, esse sistema diz que o homem não carece mais de redenção, porque ele não é mais responsável por si mesmo; Que homem não carece mais de atitude, porque Deus premeditou tudo para ele; Que homem não carece mais de sofrimento, porque Jesus está de acordo com sua vontade pessoal.
O teo-capitalismo tira do homem o universo, a subjetividade, as dimensões trágicas do destino humano. Ele o prende a uma metafísica específica, aonde seu destino fica à mercê de uma ideologia, de uma raça, de uma classe social. Enfim, além desse sistema retirar a realidade na qual o mesmo está mergulhado , porque é mais, ele também retira dele a verdadeira humanidade vivida por Cristo, ou seja, a simples percepção da vida.





