Emergente sempre foi uma expressão do antigo futuro, que traz o melhor do passado para o futuro.
Steve Knight.
Por trás de cada grande corrente teológica, por trás do Vaticano II , da teologia progressista, da teologia política, da teologia da libertação, há uma nova experiência de Deus. De repente se descobre Deus com outro rosto. A teologia é uma diligência, é um esforço de traduzir essa experiência. E as pessoas lêem teologia porque se sentem afinadas com a experiência que ela comunica. Se alguém escreve hoje um texto de teologia nos quadros teóricos do mundo medieval, ninguém lê nem entende, porque não diz nada para nós que vivemos um outro mundo.
Ocorre que, hoje dada a crise da cultura, isto é, a crise da pós-modernidade, dos nossos pontos de referência, ninguém sabe para onde vai a história, nem a Igreja sabe qual é o seu futuro. Ninguém sabe por onde vai a humanidade, por onde vai a política – principalmente esse ano no Brasil – , o destino dos pobres…E a Igreja, que está no mundo, também participa dessa confusão mental.
Apesar disso, momentos assim são sempre de profunda religiosidade. Quando a cultura entra em crise, há sempre uma volta do religioso. Porque o religioso refaz os elos entre as fases da história humana. É no religioso que a pessoa costura os grandes sonhos, as grandes utopias que lhe permitem viver e dão esperança de ir adiante. Porque a religião se especializou nessas inquietações. É o discurso especializado da crise do ser humano que pergunta : para onde vou ? De onde venho ? Quem sou eu ? Essas são as questões básicas da religião. Na crise mundial hoje, é natural, pertence à dinâmica do processo que as grandes mitologias, os grandes sonhos, as grandes vertentes religiosas se reanimem.
Há uma disputa feroz no mercado religioso por quem tem a melhor resposta. Existem propostas arcaicas das religiões fetichistas; outras que procuram aceitar o desafio de hoje, dentro da visão da cosmologia pós-moderna, esta nova visão que vem da física quântica, da nova antropologia, das ciências astrofísicas. Aí e um lugar de experiência de Deus, da nova revelação do sagrado. A maioria de nós não participa desse discurso acadêmico. Ele é muito científico. Nós estamos no cotidiano. É trabalhar, ganhar o pão para as crianças, um pouco de diversão. É uma experiência que trabalha os eixos existenciais que, no fundo, são a saúde, a doença, a frustração, o amor, o trabalho, o dinheiro, suficiente para poder viver, as angústias de se garantir a vida amanhã, a esperança radical.
Como encontrar Deus nesse cotidiano ? Como encontrar sua graça, a esperança, aquilo que nos faz olhar mais para frente ? A grande ilusão do cristianismo, é dizer que, para Deus, há só uma porta, só uma janela. Esse é o nosso caminho, mas não é o único.
A Deus, chegamos por todos os caminhos: o da umbanda, do candomblé, do zen-budismo, dos protestantes, dos católicos romanos, da secularização do hoje, do discurso científico como o de Einstein. Deus está em cada encruzilhada. Topamos com Ele em cada caminho. É arrogância pretender ter o monopólio da verdade e achar que só o nosso caminho atinge Deus e que os demais atingem ídolos. Não é verdade.
Esquecemos que os primeiros capítulos do Gênesis não falam do povo judeu, nem do cristianismo, falam da história dos povos. O Gênesis fala da primeira aliança que Deus fez com a humanidade, com a Criação, com todos os elementos, bichos, peixes, árvores…Segundo essa aliança, tudo que vive merece viver. Todos estamos debaixo desse arco-íris de Deus. Todos os povos são povos de Deus. Só depois do capítulo 2, é que se diz: porque os povos se extraviaram, Deus escolheu um povinho miserável, que é o último dos povos, como diz Oséias, para ser uma recordação de que todos são povos de Deus, para ser um sinal levantado entre as nações, indicando: “Vocês são povos de Deus e todos são povos de Deus.” Por isso, o Apocalipse assegura, no capítulo 21, que Deus será Deus de todos e todos os povos serão povos de Deus. A maioria das traduções afirma: “E todo povo será de Deus”. Mas o singular não está no texto original grego, ali é plural. Então, o chinês será povo de Deus, assim como o coreano, o asteca, e o inca, o guarani, e o ianomâmi, todos povos de Deus, sob o arco-íris da benevolência divina. Não só quem passou pela circuncisão judeu-cristã.
Essa compreensão é importante : a emergência nos liberta das malhas religiosas que criam as diferenças, sem ver a unidade em Deus.





