Nelson Costa Jr» Blog Archive » Por que a religião ainda permanece ?

Hoje, a freqüente emergência de movimentos religiosos, assim como o empenho aplicado ao fortalecimento das instituições que sobrevivem da veiculação do sagrado, nos demonstram até que ponto o território dos fundamentalismos tem se difundido. É possível, inclusive, que os vínculos que unem a civilização ao sagrado sejam mais fortes em nossa época do que o foram em outros momentos históricos. A zona limítrofe à qual a história da civilização nos trouxe causa tanta perplexidade que a retomada do culto ao Eterno não faz outra coisa senão ilustrar a tentativa de suportar o choque de uma realidade irremediavelmente fragmentada. A difusão do sagrado testemunha a súplica desesperada para que os estilhaços dessa realidade sejam reunidos, ainda que de modo bastante precário, a fim de restabelecer sua unidade imaginária.

Por essa razão, Lacan (2005) dirá que a religião está destinada a triunfar em nossa época. O triunfo da religião sobre a ciência e também sobre a psicanálise se justifica porque, na prática religiosa, Deus é a garantia de que há, ainda, uma verdade estável e permanente. O Onipotente confere estabilidade para aquilo que é, em si mesmo, pura contingência. Realizando um movimento contrário, a ciência e, mais precisamente, a psicanálise, nos informa que o estado real de nossa realidade é exatamente aquilo que podemos assistir a olho nu, e que as mídias, ao seu modo sensacional, não cessam de nos informar: jogo contínuo com o imprevisível, ausência de garantias ou controle.

Nesse sentido, a presença vigorosa da religião na contemporaneidade pode ser vista enquanto um esforço a mais na tentativa de fazer existir uma unidade estruturada: construção de um território seguro, que passa, necessariamente, pela negação da realidade em seu estado de pura dispersão. Por esse motivo, a religião fervilha e se prolifera de modo desenfreado, costurando as peças soltas que compõem a nossa realidade e procurando desmentir o caráter fragmentário de uma sociedade cada vez mais acossada pelo real de sua condição. Ao contrário do que supunha Freud (1927/1974d), o futuro da ilusão religiosa não é o desaparecimento, mas o triunfo: a religião triunfará inclusive sobre a psicanálise, que, por sua vez, terá que sobreviver a ela (Lacan, 2005). Segundo afirma Lacan, a religião: Não triunfará apenas sobre a psicanálise, triunfará sobre muitas outras coisas também. É inclusive impossível imaginar quão poderosa é a religião… O real, por pouco que a ciência aí se meta, vai se estender, e a religião terá então muito mais razões ainda para apaziguar os corações. A ciência é novidade, e introduzir á um monte de coisas perturbadoras na vida de todos. Ora, a religião, sobretudo a verdadeira, tem recursos de que sequer se suspeita. Por hora, basta ver como ela fervilha. É absolutamente fabuloso. (Lacan, 2005, p. 65)

O espírito das luzes silenciou o universo aterrorizando Pascal e, por extensão, todo o restante da humanidade. Desde então, tem-se feito todo o possível para amenizar o mal-estar que acomete a civilização e que resulta da generalização desagregadora do silêncio na atualidade. Esse movimento de reação é a chama que faz fervilhar em nossos dias o culto ao sagrado. É na garantia de estabilidade fornecida pelo Divino que a humanidade angustiada busca se refugiar. Tal estabilidade, entretanto, não passa de uma ilusão que procura negar o caráter imprevisto da contingência superpondo a isso a imagem de uma realidade estável e organizada pelo direito e pela lei. Em uma época sem identidade, o engajamento nos movimentos religiosos produz, pela negação do caráter irremediavelmente fragmentado da cena contemporânea, uma identidade reacionária e disposta a todo tipo de combate para garantir a ilusão de homogeneidade entre os seus fiéis.

Se o silêncio que aterrorizava Pascal permanece propagando seus efeitos na sociedade contemporânea, parece haver evidências suficientes para afirmar que ele passou a ser experimentado de uma forma completamente nova: o pânico. A novidade dessa experiência que se torna plenamente difundida na sociedade pós-industrial e globalizada amplia no homem a dimensão daquilo que não pode ser controlado. A angústia, em relação à qual sempre foi possível se refugiar pela construção de territórios seguros, torna-se implacável desde o momento em que esses territórios cuidadosamente construídos passam a ser ineficientes para salvaguardar em relação à ameaça que ronda. O que desencadeia o terror é precisamente o fato de que as ameaças provêm de todas as partes, inclusive de dentro do próprio organismo.

Quando as tentativas de circunscrever um campo de onde se poderia facilmente distinguir entre o bom e o mau, entre o certo e o errado etc., fracassam, e, além disso, quando a desmesura da pulsão irrompe no primeiro plano da cena, o resultado é a vertigem. Como nos afirma Suely Rolnik, o homem está completamente tomado de pânico: por encontrar-se exposto ao trágico numa proporção provavelmente mais violenta e recorrente do que no final do século passado, o que provoca uma desestabilização ainda maior. Como o trágico continua sendo um trauma, a intensificação da disparidade que o caracteriza passa a ser vivenciada como incidindo sobre a própria vida: este homem sente seu organismo habitado por um perigo progressivo de perda de organicidade, de desorientação, que a qualquer momento pode chegar a um verdadeiro enlouquecimento do corpo e levá-lo à morte. Sente-se inteiramente impotente para fazer algo que breque este processo, pois ele acontece imperceptivelmente no segredo de suas entranhas. É como se a vida escapasse de suas mãos (Rolnik, 2005, p. 6).

Acometido pelo pânico, o homem contemporâneo entende que é preciso construir estratégias que lhe proporcionem algum alívio do seu mal-estar. Por esse motivo, a defesa contra o processo de dissolução – que ameaça o sentimento de organicidade de modo cada vez mais irreversível – passa a constituir um dos programas mais fundamentais e caros à contemporaneidade. Isso faz da nossa época um terreno bastante propício para o fortalecimento das atitudes reacionárias que negam a realidade em sua condição fragmentada em busca do suposto alívio proporcionado pela ilusão da estrutura. Para remediar o mal-estar e o sofrimento provocado por uma realidade em processo ininterrupto de desdobramento, o homem se vê persuadido a aderir àqueles discursos cujo principal intuito parece ser restaurar ao mundo sua estabilidade pelo exorcismo da dispersão e pela anulação do contingente. Desse modo, o afluxo da humanidade ao território do sagrado parece estar ligado à tentativa de defender-se contra a insuportável perda da organicidade que se realiza na contemporaneidade.

Supor a existência de uma ordem, instaurada e regida pelo Onipotente e Onisciente Criador, permite a construção de uma ilusão que parece ser absolutamente indispensável ao nosso tempo. Por esse motivo, é bastante provável que a proliferação do culto ao divino juntamente com o avanço desenfreado dos fundamentalismos religiosos constitua mais uma das manifestações sintomáticas características da nossa época. Até onde podemos ver, aquilo que norteia esse retorno ao sagrado em nosso tempo é a solidez e a permanência inabalável das verdades produzidas sob a forma da revelação. A verdade, estável e absoluta, produzida pela revelação religiosa, cria o engano de que ainda há, no interior dessa dissolução generalizada, ao menos um discurso – o religioso – capaz de manter-se de pé. Somente um discurso assim articulado pode ser capaz de refugiar a humanidade desolada fornecendo a ela a salvaguarda de uma Providência que regula com bondade e justiça toda a ordem universal. Nesse ponto reside, talvez, o principal trunfo das práticas religiosas em relação aos outros saberes: a condição de produzir uma consistência imaginária que devolve à realidade fragmentada a ilusão de conjunto. A unidade imaginária, entretanto, apesar de sua fantástica capacidade de cerzir a realidade despedaçada, não passa de uma reação cuja função primordial é dissimular a inconsistência do Outro. Tal procedimento, portanto, não produz mais do que um suporte canhestro cujo objetivo fundamental é fazer com que a humanidade consiga suportar, pela ilusão de conjunto do Todo, o choque da cena contemporânea.

Lacan, J. (2005). O triunfo da religião, precedido de, Discurso aos católicos (A. Telles, trad). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Vatimo, G. (1996). O fim da modernidade: niilismo e hermenêutica na cultura pós-moderna (E. Brandão, trad). São Paulo: Martins Fontes.