Coragem de ser.
Um outro mundo é possível agora, e está disponível para todos os que crêem.
Brian Mclaren.
A pós-modernidade, o niilismo, a vida sem sentido, o “tempo do desespero”, a morte de Deus, o perecimento das Igrejas, o fim das ideologias; tudo isto permeia e ameaça o ser humano (e a religião atual). “A terra tinha sido expulsa do centro do mundo”: com Copérnico, o homem deixou de estar no centro do Universo; com Darwin, o homem deixou de ser o centro do reino animal; com Marx, o homem deixou de ser o centro da história e, com Freud, o homem deixou de ser o centro de si mesmo, notou Eduardo Prado Coelho. André Comte-Sponville inicia seu livro O tratado do desespero e da beatitude com estas temáticas da situação humana atual. “O homem do século XX perdeu um mundo significante e um eu”, nota Paul Tillich, que não viveu a pós-modernidade, mas de uma certa forma a previu pela “perda de Deus do século XIX”, com Feuerbach e Nietzsche, e, sobretudo, pelo existencialismo (que é o problema e a resposta atual). O ser humano na pós-modernidade perdeu seu mundo (desespero), suas referências de ser (insignificante) e todas as “garantias” dos esquemas explicativos (como a ciência e a religião). Só lhe restam a ansiedade, o insignificante, o medo e o desespero diante das
coisas da vida, como nota André Comte-Sponville. Este é o cenário para reflexão da pós-modernidade. “A ansiedade que determina nosso período”, diz Paul Tillich, “é a ansiedade da dúvida e do sem valor”: perdeu-se a significação da própria existência. Na perda do significado da existência, o ser humano, frente ao seu vazio interior, busca sentido para a vida.
Mas, motivadas pelo desespero, e não pela coragem, as atitudes podem ser traidoras com o próprio ser. A sociedade aproveita da falta de sentido na vida para associar a idéia de existência com a de consumo: consumir dá sentido à vida e nos faz cidadãos da pós-modernidade – e não é somente o consumo material, mas também o ideológico. Consumir produtos e ideologias, consumir o outro como objeto de prazer em relacionamentos desairosos, não obstante a ansiedade e o medo, é fuga mental e existencial. Nesta fuga negamos o próprio ser à procura de sentidos que evitem a solidão: vestimos a realidade de sentidos “para poder suportá-la”. É necessário, pois, olhar para estes problemas e dar o primeiro passo: mergulhar no vazio do ser e na angústia; na noite da alma. Para mergulhar dentro de nós, temos de aceitar quem somos. Aceitar é o primeiro passo, como indica Paul Tillich, “aceitar-se como sendo aceito, a despeito de ser inaceitável”. Angústia e desespero, é preciso iniciar pela solidão. “Solidão é o lugar para purificar-se”, já dizia Martin Buber. E é preciso tempo para chegar nesta solidão, “e muita coragem”. A coragem é o passo decisivo do ser humano para ser. Devemos começar pela pós-modernidade, pois não podemos escapar dela. Devemos começar dentro de nós, pois não podemos escapar de nós mesmos. Devemos começar pela coragem, pois sem ela não podemos ser.
O pensamento pós-moderno sobre a coragem está representado na filosofia de André Comte-Sponville. Pós-modernidade é quando o velho não é mais, mas o novo ainda não é; quando algo deixou de ser, mas outro algo ainda não veio a ser, nota Vitor Westhelle. A coragem pós-moderna não é mais a coragem dos filósofos clássicos e estóicos, mas ainda não é coragem dos pós-modernos. A vida pós-moderna perdeu seus fundamentos e significados. Dar sentido a algo é sinal de ausência: ausência do ser. Aristóteles disse que a forma mais elevada de coragem é sem esperança, pois é necessário ser corajoso, sobretudo, quando falta esperança. Num mundo onde falta o ser, o sentido e a esperança, “verdade é silêncio” e opinião é tagarelice. É preciso abandonar os refúgios oferecidos pela sociedade e entrar dentro de si. Pois “a verdade está do lado do ser, e não do lado do discurso”. Mas, para chegar a este ser, precisa-se de coragem. Coragem de ser.
Teologia na Pós-modernidade – 1 Parte.
COMTE-SPONVILLE, André. Tratado do desespero e da beatitude.
TILLICH, Paul. A coragem de ser.





