Vivemos nossas vidas inescrutavelmente incluídos na fluente vida do Universo.
Martin Buber, I and You
Para algumas pessoas, a idéia de um Deus transcendente que cria e provavelmente controla o Universo a partir de um local privilegiado fora das leis da física, além do espaço e do tempo, continuará sempre convidativa. Não há nada que os impeça de imaginar que esse Deus precedeu — e provavelmente criou — o Big-Bang. Esta é uma posição perfeitamente sustentável, embora nos deixe com um Deus que não sofre, Ele mesmo, nenhuma transformação criativa, que não está em diálogo com Seu mundo, e tudo isso deve continuar sendo inteiramente uma questão de fé.
Mas, se pensarmos em Deus como algo inserido nas leis da física, ou algo que as emprega, então o relacionamento entre o vácuo e o Universo existente sugere um Deus que poderá ser identificado com o sentido básico de direção na expansão do Universo — talvez até com uma consciência em evolução dentro do Universo. A existência de um tal “Deus imanente” não impede que também exista um Deus transcendente; no entanto, devido ao que conhecemos do Universo, o Deus imanente (ou o aspecto imanente de Deus) nos é mais acessível.
Esse Deus imanente estaria sempre empenhado num diálogo criativo com Seu mundo, conhecendo-Se a Si mesmo apenas na medida em que conhece Seu mundo. Este é o conceito de Deus proposto com grande força por Teilhard de Chardin, e mais recentemente pela “teologia do processo”, e é um conceito em termos do qual torna-se razoável falar de seres humanos — com nossa física da consciência que espelha a física do vácuo coerente — concebidos à imagem de Deus, ou como parceiros da criação de Deus. Nas palavras de Teilhard:
Não estamos preocupados apenas com o pensamento como algo que participa da evolução como uma anomalia ou um epifenômeno; mas a evolução como algo tão reduzível ao pensamento, e tão identificável com um progresso em direção ao pensamento, que o movimento de nossas almas expressa e mede os exatos estágios da própria evolução. O homem descobre que ele não é senão a evolução que se tornou consciente de si mesma, para usar a expressão concisa de Julian Huxley.
Nós, seres humanos, com nossa necessidade de formar um mundo coerente, contribuímos muito para o fomento desse processo de coerência em evolução, primeiro como espécie, depois como indivíduos e finalmente através de nossos relacionamentos e nossa cultura. Cada qual é um estágio avançado na criação de maior coerência ordenada, e em cada estágio de sua evolução, poderíamos especular, que este processo estaria, em si, em diálogo com o vácuo (Deus?), sendo expresso como mais flutuações em seu bojo. As experiências místicas são por vezes descritas como se espelhassem tal diálogo.
Novamente, em termos religiosos, o impulso básico em direção à maior coerência ordenada pode ser visto como a base física da graça, aquilo que nos permite, através do relacionamento, transcender a individualidade (a queda) e voltar à unidade (Deus). Em termos judaicos, o relacionamento salvador é o povo de Israel (a Lei); para os cristãos, o corpo de Cristo. Em termos quânticos mais amplos, é o processo de sobreposição e entrada em correlação não-local um com o outro (e um com o mundo do outro) comosistemas quânticos semelhantes — ver, sentir e tornar-se parte desse processo.
Trecho do livro “O ser quântico”, da extraordinária Danh Zohar.





