PÓS E ATUALIDADE
A questão dos pós algum conceito, para Zizek, possui um diferencial. Para ele, denominar taxativamente um conceito como pós é errado, uma vez que a sociedade atual vive o hoje e as análises que – no caso, ele faz – são calcadas no presente. Definir a sociedade contemporânea como pós-moderna, por exemplo, seria se colocar a frente dela olhando para trás, o que não é verdade. Dessa forma, o pensador deve se colocar como agente do presente e pensar o hoje agora.
Isso, no entanto, não exclui o uso da terminologia e, pelo contrário, incita mais ainda a crítica. Como exemplo de tal contexto, e dentro do pensamento do filósofo esloveno, podese observar a questão da pós-política. Nela, diz Zizek, não se explicita as ideologias, apenas há espaço para elas e o que aparentam ser rasgos de pluralidade. As ideologias tênues e convergentes são em realidade distintos estilos de vida sujeitos ao império das modas, pelos ciclos ditados pelo mercado. Esquematismos dos procedimentos aplicados, também, ao esvaziamento político e ideológico, de modo que, assim, conseguem facilmente transformar em “produtos” ou “modismos” (com seus vastos recursos ligados à tecnocracia midiática), até mesmo aqueles movimentos que a princípio podem trazer, em si, traços e posturas de “negação” ao sistema. O que a sociologia caracteriza por behaviorismo prático.
Esse tipo de influência faz com que a ideologia não induza mais comportamentos, modelos e mecanismos que se oponham aos meios de controle. Agora, na verdade, prevalecem as coerções econômicas, como instrumentos de inclusão/exclusão, de pertencer ao correto, ao mercado de trabalho ou, por outro lado, “de não pertencer” e do temor de cair na desgraça do desemprego e da inatividade (ou da incapacidade) econômica.
PLURALIDADE INDIVIDUAL
Zizek denomina o comportamento da sociedade capitalista atual como “autocolonialismo”. Isso quer dizer que tal realidade, impulsionada pelas corporações globais que dão o relevo às velhas potências coloniais e ao Estado-Nação, é amparada por uma insignificante filosofia de acompanhamento em que se mescla o liberalismo- tolerante e o multiculturalismo.
O multiculturalismo, que se baseia no respeito ao outro, é para Zizek uma forma de consolidar, ou impor, ao ‘outro’, paradoxalmente, a própria diferença igualitária. Ou seja, uma modalidade de racismo, invertido ou negado, marcado à distância pelo respeito e tolerância. Por isso, o multiculturalismo seria, para as corporações globais, o que um dia foram as políticas trabalhistas da burguesia definidas a partir das diferenças de classes: um engodo. “A política pós-moderna concentra-se em guerras culturais e lutas por reconhecimento: seu princípio básico é a tolerância sexual, étnica e religiosa, ela prega o evangelho multicultural. À leitura desses autores pós-modernos, é difícil fugir à impressão de que gostaríamos de banir os turcos e os demais imigrantes simplesmente porque não toleramos sua ‘outridade’. A intolerância sexual e cultural serve de chave para as tensões econômicas e não o contrário, como nos bons velhos tempos do marxismo ortodoxo”, aponta.
Como exemplo da ação do multiculturalismo e tolerância, Zizek diz: “Eu acho que já tivemos o suficiente desta ideologia multicultural, que, para mim, pelo menos, é frequentemente um racismo invertido. Normalmente, multiculturalistas diriam: ‘Oh, eu quero entender como você é diferente’. Não, o que se deve entender fundamentalmente é que as pessoas não são diferentes – apenas coisas diferentes lhes acontecem. O que precisamos hoje em dia é de códigos de conduta, não de mais entendimento. Eu acho que nos deveríamos opor totalmente a esta chantagem liberal de que temos que entender uns aos outros. Não, o mundo é demasiado complexo, não podemos. Detesto pessoas. Não quero entender as pessoas. Quero ter um certo código em que eu não entendo o seu estilo de vida e você não entenda o meu, mas podemos coexistir”.
CAMADAS DO PENSAMENTO
A análise social de Zizek é dirigida às cadeias estruturais que tocam o indivíduo dentro do espaço do mercado global: logo abaixo da camada das simulações de realidade que encenam a pós-política, local onde se esconde o inconsciente e incauto indivíduo-consumidor.
O pensamento do filósofo revisita a história sem a nostalgia ou a melancolia de um passado. Zizek utiliza-se constantemente do interior construtivista das mensagens transmitidas pela indústria cultural e midiática, com especial atenção à produção cinematográfica.
No cinema encontra os vestígios do feitiço, do encantamento, dos argumentos que constroem a esfera do virtual. O 11 de Setembro (discutido exaustivamente pelo autor no livro “Bem-vindo ao Deserto do Real”!), com a queda das torres gêmeas de Nova York, eis aí uma manifestação real que confirma uma faceta da realidade virtual moldada sobre o imaginário coletivo dos estadunidenses por meio da ficção cinematográfica. Exemplo desse recurso usado por Zizek é o artigo Capitalista, sim, mas zen…, publicado na revista “Le Monde Diplomatique Brasil”.
No referido texto, o filósofo discorre, como um verdadeiro fã de Guerra nas Estrelas, o paralelo entre o mundo criado por George Lucas, a sociedade capitalista atual e a crença religiosa, ou, mais precisamente, sobre aspectos do cristianismo e do budismo. Para o filósofo, “no momento crucial da saga de “Guerra nas Estrelas”, George Lucas estabelece um paralelo entre o indivíduo e a política (.); [dessa maneira, o diretor constrói] conotações contemporâneas de referência à Roma antiga nessa transformação de Estados-nações em Império global”. Outro ponto levantado é o comportamento e a motivação do protagonista, Anakin, amarrados aos ditames da sociedade.
Paralelamente ao que ocorre em “Guerra nas Estrelas”, Zizek levanta aspectos do imaginário coletivo com relação à religiosidade, ou, mais especificamente, à espiritualidade. “A posição budista é, em síntese, a da indiferença, enquanto o amor cristão é uma paixão que introduz hierarquia na relação entre os seres. (.) Por conseguinte, o que nos resta a fazer é renunciar ao nosso desejo para adotar uma atitude de paz interior. Não é de surpreender que um tal budismo-taoísmo possa funcionar como complemento ideológico da globalização liberal: ele nos permite participar do esquema mantendo uma distância interna… Capitalistas, sim, mas desapegados, zen…”, conclui retomando tudo aquilo que se liga ao behaviorismo prático.
Fonte: Revista Filosofia. Via (@neopaulo).





