Nelson Costa Jr» Blog Archive » Nem sempre a voz do povo é a voz de Deus.

Na Grécia, havia um templo dedicado ao deus Hermes (Mercúrio, para os romanos) que funcionava como oráculo, mas era diferente do consagrado a Apolo, em Delfos. Lá, não tinha nenhuma pitonisa para interpretar a mensagem da divindade. Quando alguém queria fazer alguma consulta a Hermes, entrava no templo, entregava a sua oferenda e ia até a estátua do deus do comércio. Fazia uma pergunta baixinho, junto ao ouvido dele e, em seguida, tampava os ouvidos. Saía do templo, que ficava em uma rua muito movimentada, e, no meio da rua, destampava os ouvidos. A primeira coisa que ele ouvisse naquele burburinho era a resposta de Hermes à sua pergunta, porque “a voz do povo era a voz do deus”.

A maioria, em qualquer lugar, está apta a se chamar de ortodoxa, e a chamar seus oponentes de hereges. Mas a maioria em um lugar pode ser a minoria em outro. A maioria em Massachusetts é a minoria em Virgínia. A maioria na Inglaterra é a minoria em Roma ou em Constantinopla. O Arcebispo de Cantuária, o Primaz de toda a Inglaterra, deu ao senhor Curzon uma carta de apresentação ao Patriarca de Constantinopla, o líder da Igreja Grega. Mas o Patriarca nunca havia ouvido falar do Arcebispo de Cantuária, e perguntou: “Quem é ele?”

Todavia, é um argumento muito comum que tal e tal doutrina, sendo abraçada pela grande maioria dos cristãos, deve ser necessariamente verdadeira. “É possível”, dizem, “que a grande maioria dos cristãos estivessem agora, e por muito tempo, em erro em uma doutrina tão fundamental como esta?” Até mesmo um homem tão inteligente quanto o Dr. Huntington, parece ter sido grandemente influenciado por este argumento ao se tornar trinitarista.

O mesmo argumento tem levado muitos protestantes à Igreja Católica. E, sem dúvida, há uma verdade no argumento – uma verdade, de fato, que está implícita em toda a obra presente – que doutrinas assim defendidas por grandes multidões durante longos períodos não podem ser completamente falsas. Mas isso não prova, de forma alguma, que sejam plenamente verdadeiras. De outra maneira, a verdade mudaria com a mudança da maioria. Em um século os arianos teriam estado certos. Ademais, a maioria dos que aderem a uma doutrina não a examinaram, e não têm nenhuma opinião definida concernente a ela. Eles a aceitam, como lhes é ensinada, sem refletir. E novamente, a maioria das verdades estão, no princípio, na minoria.

O Cristianismo, no primeiro século, estava em uma minoria muito reduzida. O Protestantismo, no tempo de Lutero, estava no cérebro e coração de um homem. Pensar, portanto, que a Ortodoxia, ou a verdadeira crença, seja aquela da maioria, é impedir todo progresso, censurar toda nova verdade, e resistir a revelação e inspiração de Deus, até que tenha conquistado para si o apoio da maioria da humanidade.

De acordo com este princípio, como o Cristianismo ainda é uma minoria quando comparada ao paganismo, todos nós devemos nos tornar seguidores de Boodh. Tal perspectiva não pode ser examinada seriamente nem por um momento. Todo profeta, mestre, mártir, e campeão heroico da verdade passou sua vida e ganhou a admiração e grato amor do mundo por oporem-se à maioria em favor de alguma verdade negligenciada ou impopular.

Clarke, James Freeman. 1866