Nelson Costa Jr» Blog Archive » O Senhor da Audição.

“ O progresso epistêmico é possível apenas se alguém primeiro se predispuser a admitir que está errado”  - Paul Noble

O Espírito, diz Karl Barth, é o “ Senhor da audição”. Para que os leitores se apropriem do texto bíblico, é necessário mais do que puro esforço exegético, é necessário a dúvida. Quando lutamos para alcançar o entendimento, não estamos lutando contra o sangue e a carne e sim contra os principados e potestades deterministas. Ler é uma luta com o texto contra aqueles poderes que estabelecem o entendimento. Também estamos lutando contra nós mesmos, contra nossa ânsia por poder, contra a tendência a totalizar e a nos tornamos senhores absolutos em relação aos outros. Enfim, se o Espírito é o Senhor da audição, e esse senhorio não gera novas descobertas e  significados, esse espírito na verdade é um tipo de suplemento hermenêutico classificatório que, coloca a filosofia acima do coração aquebrantado – É qualquer coisa menos o Espírito.

Se existe na verdade algum “Espírito” na leitura bíblica, esse Espírito com certeza troca qualquer imperativo  hermenêutico por uma comunidade sincera. Observe as Escrituras por exemplo:

Neemias 8 apresenta um provocante estudo de caso do tipo “Senhor da audição”. Ele mostra Esdras em uma plataforma de madeira elevada para a finalidade específica de ler a lei de Moisés aos exilados que acabavam de retornar a Jerusalém. Quando Esdras abriu as Escrituras, as pessoas, abaixo dele, ficaram literalmente “ posicionadas sob” o texto. A subsequente resposta que deram à leitura mostrou que elas utilizaram mais o texto do que entenderam – O Templo estava destruído, logo, a apropriação do significado lido teria que ser muito mais do que mera regras hermenêuticas a serem seguidas.

As Escrituras foram lidas durante um quarto do dia, e no quarto seguinte as pessoas responderam, confessando seus pecados e adorando ao Senhor. Essa não era uma letra exaustiva morta, mas um texto que falava diretamente ao coração das pessoas. De maneira significativa, sua recepção do texto foi uma ocasião para reforma, emergência e renovação.

Com base nesse texto (Em outros textos como Atos 2, Joel e alguns salmos pregados por Pedro), pode-se concluir que,  o “ Senhor da audição” opera através de qualquer comunidade que se dispõe diante de Deus com contrição. Tal Senhor respeita o tempo, o espaço e o momento – Imagine o coração de um povo que conhecia a história do Templo e do cativeiro.

Segundo o filósofo Gadamer, a participação na tradição é a condição para todo entendimento. Um texto pode ter matéria e energia, mas também ocupa um lugar específico em um tempo específico, e sua posição pode mudar. Tanto os textos  quanto os leitores são completamente históricos; cada um deles mostra os sinais de seu condicionamento cultural – O grupo que retornou do cativeiro não era mais o mesmo que inicialmente fora cativo. Gadamer e Neemias, nos ensina  irmos contra o mito da objetividade, em que o lugar do leitor na história e na tradição é um ingrediente vital no processo de interpretação de um todo. Os preconceitos pessoais, longe de serem um esqueleto no armário do leitor, são os elementos que conectam a pessoa ao passado. Dessa forma o “ Senhor da audição” não opera nem no texto nem é uma mera projeção feita pelo leitor. Mas opera na interação entre os dois – O Espírito respeita a era. Como diz  Hans Robert Jauss, co-fundador da Escola de Constança de Teoria da Recepção e ex-aluno de Gadamer, a relevância histórica de uma obra é determinada não por suas qualidades intrínsecas, ou pelo gênio de seu autor, mas por sua recepção de geração a geração através da história. As leituras/significados do passado são entendidos como a pré-história das leituras/significados atuais. A situação mostrada em Neemias ( Atos 2 também),é exatamente o exemplo de um fenômeno universal, ou seja, do entendimento por meio da participação numa família ou comunidade.

De certa forma, sem querer reduzir uma experiência teológica a um nível simplista de descrição, podemos concluir que o entendimento é sempre “tradicionalizado”; isto é, os leitores nunca vão ao texto como ele é em si mesmo, apenas ao texto na forma que é recebido por uma comunidade específica. O intérprete é sempre parte da história dos efeitos do texto. Enfim, “ O Senhor da audição” respeita a história, e possui um senhorio tradicional vivo e renovado, que une os horizontes e envolve o cultivar de diferentes respostas nas diferentes comunidades.