“O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente”.
Mário Quintana.
“Segundo a minha experiência – afirma Hermann Hesse, numa de sua cartas - o elemento mais irritante e destruidor dos homens é aquele impulso baseado na preguiça de pensar e na necessidade de permanecer em paz, que leva para o coletivo, para a explicação racional, para a vulgaridade subordinada à dogmática rigorosa, seja ela política ou religiosa”. O hábito precisa ser entendido, em seu mecanismo implacável, para que seja possível vislumbrar um pouco além do cotidiano. As exposições racionais e metódicas valem para uma infinidade de circunstâncias e são de imensa importância na vida, mas nos casos em que o racionalismo e o método transformaram-se em biombos, escondendo a realidade em nome da busca dessa realidade, tudo muda de figura. A técnica, a cultura, o conhecimento acumulado são pouco ágeis e sutis para um empreendimento tão delicado quanto à abordagem do real, nesse “fio da navalha” que é o momento presente.
Não há retórica na conclusão de que essas descobertas só podem acontecer agora - não ontem, nem dentro em pouco. O fio do momento que passa (e que ainda não passou) existe entre duas vertentes e é o único pedaço do tempo que conhecemos de fato. O que as escolas e correntes dizem disso pode ser interessante, mas desvia atenção do assunto e “verbaliza” ainda mais o pensamento. Não há nada que a erudição possa fazer para ajudar, no caso, mesmo porque ela costuma ser prolixa, principalmente quando usada como alavanca nos truques de auto-afirmação. Essa é a carga mais pesada porque exige resistência e leveza, que freqüentemente se excluem. É preciso resistir ao peso dos hábitos mentais, do costume social, dos modismos de todo tipo, sendo ao mesmo tempo flexível como um florete, e penetrante como ele.





