Archive for the Filosofia Category

Diálogo sobre o paradoxo da pedra.

Posted in Filosofia on March 15, 2010 by Nelson Costa

B: A onipotência é contraditória, pois uma das tarefas possíveis que um ser onipotente pode realizar, criar uma pedra que não pode ser movida, implica uma limitação da sua onipotência.

A: Estamos de acordo que x é onipotente se e somente se para todo y, se y é uma tarefa possível, então x pode fazer y?

B: Sim, onipotência é isso.

A: Se uma tarefa y é possível, então há um mundo possivel em que y é feito, certo?

B: Certo.

A: Se esse é um mundo possível, então não há nada nele que seja contraditório, seja uma contradição interna, seja uma contradição entre duas coisas, certo? Caso contrário, será um mundo contraditório e, por isso, impossível.

B: Sim, isso mesmo.

A: Mas um mundo em que houvese uma pedra que não pode ser movida e um ser onipotente não seria um mundo contraditório e, portanto, impossível?

B: Sim, mas o que afirmo ser possível é um ser criar uma pedra que não pode ser movida, ponto. Por que fazer referência ao ser onipotente na investigação sobre se isso é possível?

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Questionando o hoje – Slavoj Zizek.

Posted in Filosofia on March 12, 2010 by Nelson Costa

PÓS E ATUALIDADE

A questão dos pós algum conceito, para Zizek, possui um diferencial. Para ele, denominar taxativamente um conceito como pós é errado, uma vez que a sociedade atual vive o hoje e as análises que – no caso, ele faz – são calcadas no presente. Definir a sociedade contemporânea como pós-moderna, por exemplo, seria se colocar a frente dela olhando para trás, o que não é verdade. Dessa forma, o pensador deve se colocar como agente do presente e pensar o hoje agora.

Isso, no entanto, não exclui o uso da terminologia e, pelo contrário, incita mais ainda a crítica. Como exemplo de tal contexto, e dentro do pensamento do filósofo esloveno, podese observar a questão da pós-política. Nela, diz Zizek, não se explicita as ideologias, apenas há espaço para elas e o que aparentam ser rasgos de pluralidade. As ideologias tênues e convergentes são em realidade distintos estilos de vida sujeitos ao império das modas, pelos ciclos ditados pelo mercado. Esquematismos dos procedimentos aplicados, também, ao esvaziamento político e ideológico, de modo que, assim, conseguem facilmente transformar em “produtos” ou “modismos” (com seus vastos recursos ligados à tecnocracia midiática), até mesmo aqueles movimentos que a princípio podem trazer, em si, traços e posturas de “negação” ao sistema. O que a sociologia caracteriza por behaviorismo prático.

Esse tipo de influência faz com que a ideologia não induza mais comportamentos, modelos e mecanismos que se oponham aos meios de controle. Agora, na verdade, prevalecem as coerções econômicas, como instrumentos de inclusão/exclusão, de pertencer ao correto, ao mercado de trabalho ou, por outro lado, “de não pertencer” e do temor de cair na desgraça do desemprego e da inatividade (ou da incapacidade) econômica.

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Certos espíritos ateístas estão profundamente enraizados em Cristo.

Posted in Filosofia, Nelson Costa on March 9, 2010 by Nelson Costa

Quando Nietzsche anuncia a morte de Deus, ele fala do Deus que tem que morrer mesmo, porque é o Deus das nossas cabeças, o Deus inventado, o Deus da metafísica, o Deus que não é vivo. Ele fez uma oração que traduzi, sem chegar a transmitir todo o seu teor poético. O titulo é:  A Oração ao Deus Desconhecido.

Antes de prosseguir em meu caminho e lançar o meu olhar para a frente uma vez mais, elevo, só, minhas mãos a Ti na direção de quem eu fujo.

A Ti, das profundezas de meu coração, tenho dedicado altares festivos para que, em cada momento, Tua voz me pudesse chamar.

Sobre esses altares estão gravadas em fogo estas palavras: “Ao Deus desconhecido”.

Sei, sou eu, embora até o presente tenha me associado aos sacrílegos.

Sei, sou eu, não obstante os laços que me puxam para o abismo. Mesmo querendo fugir, sinto-me forçado a servi-Lo.

Eu quero Te conhecer, desconhecido.

Tu, que me penetras a alma e, qual turbilhão, invades a

minha vida.

Tu, o incompreensível, mas meu semelhante, quero Te

conhecer, quero servir só a Ti.

(Friedrich Nietzsche)

Slavoj Žižek – Sobre Religião

Posted in Filosofia on February 26, 2010 by Nelson Costa

Um possível Deus Imanente?

Posted in Filosofia, Teologia. on February 25, 2010 by Nelson Costa

Vivemos nossas vidas inescrutavelmente incluídos na fluente vida do Universo.

Martin Buber, I and You

Para algumas pessoas, a idéia de um Deus transcendente que cria e provavelmente controla o Universo a partir de um local privilegiado fora das leis da física, além do espaço e do tempo, continuará sempre convidativa. Não há nada que os impeça de imaginar que esse Deus precedeu — e provavelmente criou — o Big-Bang. Esta é uma posição perfeitamente sustentável, embora nos deixe com um Deus que não sofre, Ele mesmo, nenhuma transformação criativa, que não está em diálogo com Seu mundo, e tudo isso deve continuar sendo inteiramente uma questão de fé.

Mas, se pensarmos em Deus como algo inserido nas leis da física, ou algo que as emprega, então o relacionamento entre o vácuo e o Universo existente sugere um Deus que poderá ser identificado com o sentido básico de direção na expansão do Universo — talvez até com uma consciência em evolução dentro do Universo. A existência de um tal “Deus imanente” não impede que também exista um Deus transcendente; no entanto, devido ao que conhecemos do Universo, o Deus imanente (ou o aspecto imanente de Deus) nos é mais acessível.

Esse Deus imanente estaria sempre empenhado num diálogo criativo com Seu mundo, conhecendo-Se a Si mesmo apenas na medida em que conhece Seu mundo. Este é o conceito de Deus proposto com grande força  por Teilhard de Chardin, e mais recentemente pela “teologia do processo”, e é um conceito em termos do qual torna-se razoável falar de seres humanos — com nossa física da consciência que espelha a física do vácuo coerente — concebidos à imagem de Deus, ou como parceiros da criação de Deus. Nas palavras de Teilhard:

Não estamos preocupados apenas com o pensamento como algo que participa da evolução como uma anomalia ou um epifenômeno; mas a evolução como algo tão reduzível ao pensamento, e tão identificável com um progresso em direção ao pensamento, que o movimento de nossas almas expressa e mede os exatos estágios da própria evolução. O homem descobre que ele não é senão a evolução que se tornou consciente de si mesma, para usar a expressão concisa de Julian Huxley.

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Balcãs, cinema e a multiculturalidade – Entrevista dada por Slavoj Zizek no Festival de Cinema de Sarajevo.

Posted in Filosofia on February 22, 2010 by Nelson Costa

Fanatismo por uma crença justificada – 3 Parte.

Posted in Filosofia on February 19, 2010 by Nelson Costa

[Sem Deus tudo é nada; e Deus? Nada supremo.]

De: “Le cirque de la solitude”, in: Syllogismes de l’amertume. Paris: Gallimard, 1980, p.79

Acho que algo muito mais radical que um declínio da fé religiosa ocorreu em nosso mundo. Para as pessoas cultas, o mundo se tornou desmistificado. Ou antes, para ser mais preciso, deixamos de tomar os mistérios que vemos no mundo como expressões de algo sobrenatural. Não mais consideramos os acontecimentos estranhos como exemplos da ação de Deus através da linguagem dos milagres. Os acontecimentos estranhos são apenas acontecimentos que não compreendemos. O resultado dessa desmistificação é que já estamos para lá do ateísmo, num ponto em que o assunto já não nos interessa à maneira em que interessava às prévias gerações. Para nós, se descobríssemos que Deus existe, isso seria um fato da natureza como qualquer outro. Às quatro forças básicas do universo – gravidade, eletromagnetismo, força nuclear forte e força nuclear fraca – adicionaríamos uma quinta, a força divina. Ou, mais provavelmente, veríamos as outras forças como formas da força divina. Se o mundo sobrenatural existisse, ele também seria natural.

Dois exemplos ilustram a mudança do nosso ponto de vista. Quando dei aula na universidade de Veneza, como professor visitante, eu costumava caminhar até uma encantadora igreja gótica, a Igreja da Madonna del Orto. Originalmente, haviam planejado batizá-la de igreja San Christoforo, mas, durante a construção, quando foi encontrada uma estátua da Madonna no pomar local, presumiu-se que ela tinha caído do céu. Uma estátua da Madonna caída do céu no pomar do próprio terreno da igreja era milagre suficiente para justificar a mudança do nome para Igreja da Madonna do Pomar. Eis o que interessa: se hoje uma estátua fosse achada ao lado de um canteiro de obras, ninguém diria que ela houvesse caído do céu. Mesmo se a estátua fosse achada nos jardins do Vaticano, as autoridades eclesiásticas não alegariam que caíra do céu. Pensar isso não seria possível porque, em certo sentido, sabemos demais.

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Razão, Ciência e Fé.

Posted in Filosofia on February 11, 2010 by Nelson Costa

Um debate que a Igreja necessita entender hoje.

Continuação Aqui.

Fanatismo por uma crença justificada – 2 Parte.

Posted in Filosofia on February 4, 2010 by Nelson Costa

Em si mesma, toda idéia é neutra ou deveria sê-lo; mas o homem a anima, projeta nela suas chamas e suas demências; impura, transformada em crença, insere-se no tempo, toma a forma de acontecimento: a passagem da lógica à epilepsia está consumada… Assim nascem as ideologias, as doutrinas e as farsas sangrentas.

Idólatras por instinto, convertemos em incondicionados os objetos de nossos sonhos e de nossos interesses. A história não passa de um desfile de falsos Absolutos, uma sucessão de templos elevados a pretextos, um aviltamento do espírito ante o Improvável. Mesmo quando se afasta da religião o homem permanece submetido a ela; esgotando-se em forjar simulacros de deuses, adota-os depois febrilmente: sua necessidade de ficção, de mitologia, triunfa sobre a evidência e o ridículo. Sua capacidade de adorar é responsável por todos os seus crimes: o que ama indevidamente um deus obriga os outros a amá-lo, na espera de exterminá-los se se recusam. Não há intolerância, intransigência ideológica ou proselitismo que não revelem o fundo bestial do entusiasmo. Que perca o homem sua faculdade de indiferença: torna-se um assassino virtual; que transforme sua idéia em deus: as conseqüências são incalculáveis. Só se mata em nome de um deus ou de seus sucedâneos: os excessos suscitados pela deusa Razão, pela idéia de nação, de classe ou de raça são parentes dos da Inquisição ou da Reforma. As épocas de fervor se distinguem pelas façanhas sanguinárias. Santa Teresa só podia ser contemporânea dos autos-de-fé e Lutero do massacre dos camponeses. Nas crises místicas, os gemidos das vítimas são paralelos aos gemidos do êxtase… patíbulos, calabouços e masmorras só prosperam à sombra de uma fé — dessa necessidade de crer que infestou o espírito para sempre. O diabo empalidece comparado a quem dispõe de urna verdade, de sua verdade. Somos injustos com os Neros ou com os Tibérios: eles não inventaram o conceito de herético: foram apenas sonhadores degenerados que se divertiam com os massacres. Os verdadeiros criminosos são os que estabelecem uma ortodoxia no plano religioso ou político, os que distinguem entre o fiel e o cismático.

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Seja agulha no palheiro, e não palha.

Posted in Filosofia on December 14, 2009 by Nelson Costa

Nada espero.
Nada temo.
Sou livre.

Inscrição no túmulo
de Kazantzakis

Somos uma ficção que se refaz e se constrói o tempo todo. Chame isso, se quizer, de processo de individuação (Como dizia Carl Jung). Prefiro ir com o grande Riobaldo de Grande Sertão: Veredas.

O senhor… Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas — mas que elas vão sempre mudando. (Guimarães Rosa, pág. 20).

Riobaldo ainda acrescenta: “Viver é muito perigoso!”.

A repetição é o estado neurótico por excelência. Uma postura unilateral que impede que a diferença do outro apareça. Isto vale também para o indivíduo quanto para a cultura. Por isso a atitude democrática é fundamental ao verdadeiro desenvolvimento cristão . Como poderei escrever algo da grandeza de “A Última Tentação de Cristo” se não tiver condições internas e externas para me expressar.

Para Jacques Derrida a literatura, nas condições de hoje, é a “estranha instituição que permite dizer tudo ou quase tudo”. Este tudo habita tanto o registro da totalidade quanto o da permissão, ou seja, dizer qualquer coisa. Por isso, condições democráticas são fundamentais. Chame, se quiser, o processo de ampliação da consciência de democracia do sujeito (agulha do palheiro). Uma democracia, como também afirma Derrida, que está sempre por vir, nunca estará pronta, pois sempre algo novo surgirá para ser recebido com hospitalidade.

“Assim caminha a humanidade”, já dizia Lulu Santos, “com passos de formiga e sem vontade”. A inércia do ego, as forças conservadoras e os desejos individualistas o tempo todo ameaçam o processo de emergência .

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