Nelson Costa Jr » Filosofia

Se em todas as outras religiões, Deus pede a seus seguidores que lhe permaneçam fiéis, só Cristo lhe pediu que o traíssem para cumprir sua missão. Na sua frase “Pai, porque me abandonaste?”, o próprio Cristo comete aquilo que é o pecado supremo para o cristão: ser abalado na sua fé. Na história aterradora da Paixão está claramente indicado que o autor de todas as coisas conheceu não só o sofrimento extremo como a própria dúvida. No cristianismo, Deus morre não para os homens, mas para Si mesmo. Quando Cristo morre, o que morre com ele é a esperança secreta discernível na frase: “Pai, porque me abandonaste?” O ponto principal do cristianismo é antes o ataque ao núcleo religioso duro que sobrevive mesmo no humanismo, até no stalinismo. Só é possível redimir esse núcleo do cristianismo pelo gesto que consiste em abandonar o escudo da sua organização institucional: ou abandonamos ou conservamos a forma religiosa, mas perdemos a essência. Para poder salvar o seu tesouro, tem de se sacrificar a si mesmo, como Cristo teve de morrer para que o cristianismo pudesse emergir.

Enquanto o olhar do budista está voltado com uma intensidade peculiar para o Interior (a imersão na Verdade): o cristão contempla o Exterior (o encontro traumático com a Verdade) com uma intensidade fulgurante. A rápida industrialização e militarização do Japão nos últimos cento e cinquenta anos, por exemplo, com a sua ética da disciplina e do sacrifício, foi apoiada pela grande maioria dos pensadores zen e hoje se assiste ao fenômeno corrente do zenindustrial entre os dirigentes japoneses. A atitude de imersão completa no ‘agora’ da Iluminação imediata – onde o ‘eu’ não existe e toda a distância reflexiva abole-se. No entanto, eu ‘sou o que faço’, desde que isso resulte de uma disciplina absoluta que coincida com uma espontaneidade total, o que legitima perfeitamente a subordinação à máquina social militarista. Verifica-se uma oposição, onde se situa o discurso zen, entre a atitude reflexiva que temos na vida cotidiana (desejamos a vida e tememos a morte, lutamos por prazeres em vez de agirmos diretamente) e a posição daquele que recebeu a iluminação (ao mostrar que a diferença entre a vida e a morte deixou de ter importância). Deste modo, é exatamente nesta oposição que nos redescobrimos na unidade original em que o ‘eu’ não existe e que somos diretamente o nosso ‘ato’. Os mestres militares interpretam a mensagem zen fundamental (a libertação está na perda do ‘eu’, na união imediata com o Vazio primordial) idêntica à fidelidade total dos soldados, com sua obediência mecânica às ordens, na medida em que realizam o seu dever sem consideração pelo ‘eu’ e por seus interesses. Os soldados são levados a marchar de modo a levá-los a uma espécie de subordinação cega e a fazê-los obedecer como marionetes.

Não há reencarnação, há apenas esta vida que é diretamente idêntica à morte, assim o guerreiro já não age como uma pessoa, ele está totalmente dessubjetivado, ou conforme D. T. Suzuki: “no caso do homem que ergueu o sabre por obrigação, não é ele que mata, mas o próprio sabre”. É o próprio sabre que realiza o ato de matar, é o próprio inimigo que se apresenta e se transforma em vítima – eu nada posso fazer a esse respeito, estou reduzido a observador passivo dos meus próprios atos. Qual a diferença entre a legitimação da violência do ‘guerreiro zen’ e a longa tradição ocidental, que vai de Cristo a Che Guevara, apregoa também o recurso à violência, mas como ‘obra do amor’? De um lado, em uma ‘guerra da compaixão’, o verdadeiro guerreiro mata por amor, assim o zen militarista se justifica de maneira contraditória: ‘a guerra é um mal necessário empreendido para engendrar um bem superior – qualquer batalha, seja qual for, deve ser travada para antecipar a paz’. De outro, “se alguém vier a mim, e não aborrecer seu pai e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo”, palavras de Cristo, às vezes escandalosas, transmitidas por Lucas.
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- Sobre o valor dos argumentos ontológicos –

Um argumento ontológico é aquele que usa somente a razão e a intuição para chegar a uma conclusão, muitas vezes a conclusão de que Deus existe. Parece-me que qualquer tentativa de produzir conhecimento confiável sobre o mundo exterior unicamente pela combinação de palavras em algum idioma é ilegítima. É claro, o mesmo se aplica a qualquer linguagem — até mesmo a linguagem utilizada na matemática. Os fisicos reconhecem que mesmo a mais elegante das teorias elaborada em termos matemáticos deve em última instância ser testada e validada por observações empíricas. Eles projetam, a um custo assombroso, experimentos como o Grande Colisor de Hádrons (LHC, na sigla em inglês) com o obejtivo de descobrir os segredos do universo. Os teólogos, contudo, parecem estar livres de tais constragimentos; eles simplesmente encadeiam palavras em algum idioma para atingir o mesmo objetivo. Seria esta abordagem válida?

Demonstrarei que todas as tentativas de gerar conhecimento devem ser fundamentadas em observações empíricas. Os argumentos ontológicos pressupõem implicitamente que palavras, aliadas à gramática e à sintaxe (ou seja, a linguagem) pode ser utilizada para a obtenção acurada de conhecimentos sobre a realidade sem a inconveniência de examinar o mundo real. Mas , de onde a linguagem vem? Ela evoluiu ao longo de milhares de anos, e reflete os pensamentos e experiências de todos os seres humanos que a utilizaram. Inegavelmente, a linguagem reflete a realidade em alguns aspectos. A palavra inglesa ‘aardvark’ é refletida por um insetívoro africano existente, e a palavra ‘zebra’ é refletida por herbívoro africano existente. Mas existem algumas palavras que não refletem a realidade; ‘unicórnio’ e ‘hobbit’ vem-me à mente. Mais seriamente, a física moderna tem mostrado que palavras como “tempo”, “partícula” e “causa”, para citar somente algumas, são problemáticas. Os significados comuns destes termos estão em desacordo com a realidade subjacente à nosso universo. A física revela que existe uma série de razões para acreditar que a linguagem distorce nossa percepção da realidade.

Considere o que os defensores dos argumentos ontológicos supõem. Usando somente a linguagem, e sem referências a uma única observação empírica que seja, eles esperam derivar uma compreensão do mais profundos níveis da realidade. Como se poderia esperar que a mera manipulação de símbolos tipográficos, isolada de qualquer observação, produza conhecimento? Ainda que isso seja o que William Lane Craig quer nos fazer crer. Este é o argumento ontológico formulado por Alvin Plantinga e defendido por Craig:

Agora, em sua versão do argumento, Plantinga concebe Deus como um ser que é ‘maximamente excelente” em todos os mundos possíveis. Plantinga considera a excelência máxima abraangendo propriedades como a onisciência, onipotência e a perfeição moral. Um ser que possua excelência máxima em todos os mundos possíveis teria o que Plantinga chama de “grandeza máxima”. Assim sendo, Plantinga argumenta:

1. É possível que um ser maximamente grande exista.

2. Se é possível que um ser maximamente grande exista, então um ser maximamente grande existe em algum mundo possível.

3. Se um ser maximamente existe em algum mundo possível, então ele existe em todos os mundos possíveis.

4. Se um ser maximamente grande existe em todos os mundos possíveis, então ele existe no mundo real.

5. Se um ser maximamente grande existe no mundo real, então um ser maximamente grande existe.

6. Portanto, um ser maximamente grande existe.

Não é minha intenção expor a falácia lógica contida neste argumento. Em vez disso, meu objetivo é argumentar que simplesmente porque expressão “ser maximamente grande” pode ser formulada em alguma língua, não se segue que podemos derivar conhecimento a respeito da realidade exterior manipulando estas palavras. São apenas palavras, sem maior pretensão de representar a realidade do que “unicórnio rosa invisível” ou “hobbit”. A palavra “zebra” é conhecida por representar um animal real porque o avistamos,  fotografamos, dissecamos e assim por diante. Mas “ser maximamente grande” foi conjurado pela imaginação de Plantinga, assim como “hobbit” foi conjurada pela imaginação de Tolkien. As três palavras de Plantinga não podem revelar nada sobre a natureza da realidade, porque não são derivadas de qualquer observação da realidade.

Examinemos os outros quatro argumentos de Craig, apresentados no mesmo artigo em seu website. O Argumento Cosmológico da Contingência padece do mesmo defeito do argumento ontológico:

O argumento cosmológico aparece numa variedade de formas. Aqui está uma versão simples do famoso argumento da contingência:

1. Tudo o que existe possui uma explicação para sua existência, seja na necessidade de sua própria natureza ou numa causa externa.

2. Se o universo possui uma explicação para sua existência, essa explicação é Deus.

3. O universo existe.

4. Portanto, o universo possui uma explicação para sua existência (a partir de 1, 3).

5. Portanto, a explicação para a existência do Universo é Deus (a partir de 2, 4).

Mais uma vez, não há uma única observação da realidade — simplesmente palavras. Especificamente, “a necessidade de sua própria natureza” parece dizer alguma coisa, mas o que? Como teriam os seres humanos alguma vez observado tal fenômeno? Como aplicaríamos tal expressão a uma entidade que sabemos ser real? O que, por exemplo, seria a necessidade da natureza de um aardvark, ou do universo em questão? Se não podemos definir e explicar esta expressão em relação a um animal real, como esperaríamos defini-la em relação a alguma entidade hipotética e nunca observada?

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Se você investigar o histórico escolar dos jovens matriculados nos cursos mais concorridos das melhores universidades, descobrirá que a maioria esmagadora deles jamais gastou um segundo sequer de suas vidas memorizando falácias lógicas. Já os que recorrem a faculdades particulares de quinta categoria parecem dispender uma quantidade significativa de seu tempo fazendo isso.

Em geral, quanto mais inteligente um organismo, menor é a quantidade de regras que você precisa ensina-lo – você dá-lhe objetivos e um vocabulário argumentativo. Se, por outro lado, você adestra uma horda de idiotas indefesos contra as ameaças mais risíveis, você precisa abastecê-los com um verdadeiro arsenal de regras e truques -  é um comportamento compensatório.

Imagine que Fred olhe pela janela e diga: “O solo lá fora está úmido. Deve ter chovido.” Ele está dando um argumento. O que deveríamos pensar disso? Poderíamos dizer:

Oh, querido, como o pobre Fred é medíocre! Ele obviamente está afirmando o seguinte: se chove, o solo fica úmido; o solo está úmido, portanto choveu. Se ele alguma vez tivesse frequentado um curso de lógica e erística ele saberia que ele acabou de cometer a falácia da afirmação do consequente!

Sim, poderíamos dizer isso, mas (parafraseando Haldeman parafraseando Nixon) isso seria um erro. É simplesmente desarrazoado e, na verdade, injusto, acusar Fred de cometer uma falácia assim tão flagrante quando uma interpretação alternativa deste argumento está prontamente disponível. Pois, embora Fred pudesse estar raciocinando dedutivamente e cometendo a falácia em questão, o mais provável é que ele estivesse raciocinando indutivamente, mais ou menos da seguinte maneira:

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O Deus mentiroso.

postado em: Filosofia, Teologia

Os filósofos esticam o significado de palavras até que essas mal conservam algo do seu sentido original; chamam alguma abstração borrada que criaram de “Deus” e posam para o mundo inteiro como deístas, crentes que conheceram um conceito mais puro de Deus, embora seu Deus seja apenas uma sombra sem substância, e não mais a personalidade poderosa da doutrina religiosa.

FREUD, Sigmund. Die Zukunft einer Illusion. Leipzig: Internationaler Psychoanalytischer Verlag, 1927.

Se supusermos que a Bíblia é um livro com um significado determinado e autorizado por um autor, vamos lê-la encerrada em uma instituição acadêmica que autoriza um paradigma interpretativo restrito.

Francis Watson.

É legítimo interpretar os textos metaforicamente, como se eles fossem metáforas? Tanto Ricoeur quanto Derrida concordam que aquilo que vale para a metáfora também se aplica aos textos. Existem pelo menos três maneiras pelas quais os textos se parecem com metáforas: (1 Assim como a metáfora, o texto desvia-se de seu sentido literal em virtude de ser escrito e, portanto, liberto de seu autor e de sua situação original. Em outras palavras, assim como a metáfora, o texto é “transferido” para um novo domínio semântico. Portanto, o texto é livre para entrar em associação criativa com novos contextos e abordá-los. (2) Graças a essa transferência, a referência textual torna-se indeterminada. O que os textos são torna-se uma função de como os leitores os entendem em novos contextos. Dessa forma, assim como a metáfora, o texto tem múltiplos significados.(3) Da mesma maneira que não se pode substituir uma metáfora por uma paráfrase literal, não se pode simplesmente substituir o texto por uma interpretação (e.g., a obra dos conceitos). Existe um excedente de significado em ambos que resiste à tentativa do intérprete de reduzi-los a um significado literal ou unívoco.

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Sobre o fanatismo.

postado em: Filosofia

Entende-se hoje por fanatismo uma loucura religiosa, sombria e cruel. É uma doença do espírito que se pega como a varíola. Os livros a comunicam bem menos que as assembleias e os discursos. Raramente alguém se excita ao ler, pois então pode ter o senso ponderado. Mas quando um homem ardente e de uma imaginação forte fala a imaginações fracas, seus olhos estão em fogo e esse fogo se comunica: seus tons, seus gestos abalam todos os nervos dos auditores. Ele grita: Deus te olha, sacrifica o que é apenas humano: combate os combates do senhor [lê-se na Bíblia: proeliare bella Domini (I. Reg. XVIII, 17)]: e vai-se combater.

O fanatismo está para a superstição como o delírio para a febre, como a fúria para a cólera. Aquele que tem êxtases e visões, e que toma os sonhos por realidades, e suas imaginações por profecias é um fanático noviço que dá grandes esperanças: poderá em breve matar pelo amor de Deus.

De: VOLTAIRE. “Fanatisme”. In: Dictionnaire de la pensée de Voltaire par lui même. Paris: Éditions complexe, 1994.

O professor de filosofia da Universidade de Londres A. C. Grayling lançou o livro The Good Book: A Secular Bible (O Livro Bom: Uma Bíblia Secular, ainda sem edição no Brasil), uma espécie de guia para ateus. Ao lado do cientista Richard Dawkins e do escritor Christopher Hitchens, Grayling, 62 anos, é um dos expoentes do chamado Novo Ateísmo, que milita pelo abandono de religiões e superstições. Assim como na bíblia cristã, a obra de Grayling começa no Gênesis e segue para Lamentações e Provérbios, tudo organizado em capítulos e versos. “A estrutura bíblica é convidativa e acessível. O leitor pode escolher trechos ou seções para ler separadamente”, diz o autor.

Porém, nas 608 páginas da obra de Grayling não há sequer uma menção à palavra “Deus” ou qualquer outra referência divina, mas sim citações e conceitos de grandes pensadores como Aristóteles, Isaac Newton e, não podia faltar, Charles Darwin. O autor acredita que há pensamentos profundos e sérios sobre o bem nas grandes tradições não-religiosas que seriam mais humanos e vivíveis — sem estar sob o comando de uma autoridade.

Antevendo críticas, Grayling já declara: “Quase tudo escrito em meu livro vem de grandes mentes do passado. Quem atacá-lo automaticamente atacará Cícero, Confúcio e por aí vai”. Para terror dos religiosos deterministas , Grayling chegou a elaborar os 10 mandamentos dos ateus, estes sim redigidos a partir de suas próprias ideias. “Só espero não me tornar um ‘deus’. Certamente eu não seria bom nisso.”

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“ Fiquei impressionado com partes da obra de Nietzsche, que de anticristo mesmo só tem — pelo menos até onde entendi —, um discurso contra a retórica que se fez depois da Cruz. Acho que ele mais entendeu o Cristo que muitos cristãos – nisso me incluo – , e se dizendo “espírito livre”— como também intitulou Jesus — se tornou um cristão dentro dos seus próprios conceitos. Quem não faz o mesmo ? ”

No seu íntimo o cristianismo possui várias sutilezas que pertencem ao Oriente. Em primeiro lugar, sabe que é de pouca relevância se uma coisa é verdadeira ou não, desde que se acredite que é verdadeira. Verdade e fé: aqui temos dois mundos de idéias inteiramente distintas, praticamente dois mundos diametralmente opostos – os seus caminhos distam milhas um do outro. Entender esse fato a fundo – isso é quase o suficiente, no Oriente, para fazer de alguém um sábio. Os brâmanes sabiam disso,Platão sabia disso, todo estudante de esoterismo sabe disso. Quando, por exemplo, um homem sente qualquer prazer através da idéia de que foi redimido do pecado, não é necessário que seja realmente pecador, mas que simplesmente sinta−se pecador. Mas quando a fé é exaltada acima de tudo, disso segue−se necessariamente o descrédito à razão, ao conhecimento e à investigação meticulosa: o caminho que leva à verdade torna−se proibido. – A esperança, em suas formas mais vigorosas, é um estimulante muito mais poderoso à vida que qualquer espécie de felicidade efetiva.

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Do Caçador de Replicantes: Brabo.

Certo diabo apaixonou-se por Deus sem nunca tê-lo visto. Depois de preparar-se por longo tempo, e com a ajuda de um informante, conseguiu infiltrar-se no complexo celeste e foi comprando com subornos, nível após nível, a vasta hierarquia de segurança que o separava da presença divina. Esse trajeto demorou muitos anos.

Naquela tarde o diabo molhou a mão do penúltimo intermediário e adentrou a ante-sala do trono por uma portinha lateral de serviço, junto da qual o esperava um anjo de cavanhaque e costas muito largas.

– Entre de uma vez – ordenou o anjo, e fechou a porta logo em seguida. A vinte passos deles, alto como uma montanha, dormia em sua cadeira o guardião da sala do trono.

Sem qualquer outro intercâmbio eles transpuseram o espaço até junto da porta da proposição, que está sempre fechada e cujas folhas esculpidas em madeira e revestidas de ouro têm cento e quarenta e quatro mil anos-luz de altura.

– Então – disse o anjo, quando estacaram diante da porta e avaliaram-se pela primeira e pela última vez – é você o diabo que apaixonou-se por Deus e vem procurando uma oportunidade de encontrar-se com ele.

– Apenas me poupe desse ar de superioridade moral – respondeu o diabo, ignorando a pergunta. – porque você sabe muito bem que somos muito parecidos. Nós no inferno odiamos tanto o pecado quanto vocês deste lado do abismo. Se estivesse prestando atenção, perceberia que são só os pecadores, os apóstatas e réprobos que nós atormentamos. Só os pecadores podem ser tentados, e só eles conhecerão a aflição da nossa miséria e do nosso desespero. Os santos, os valorosos e puros despertam apenas nossa admiração; nesses não ousaríamos tocar.

– Ou talvez seja nisso que você quer que eu acredite.

– Acredite no que quiser – pediu o diabo. – Apenas saiba, porque não tenho outra a pessoa a quem dizer, que foi justamente esse amor pela integridade e esse desprezo pela corrupção que fizeram com que eu me apaixonasse pela imagem divina.

O anjo deu de ombros e empurrou a porta, que era tão pesada e vasta que foram necessários mil anos para abrir uma fresta pela qual o diabo pudesse passar. A porta rangeu formidavelmente, mas o guardião em sua cadeira não se moveu nem despertou.

O diabo apertou nas mãos do anjo o valor que haviam ajustado, e fez menção de entrar na sala do trono pela estreita passagem. No último instante o anjo segurou-o pelo braço.

– Só preciso que você não ignore, porque quero ser honesto com você – disse o anjo, – que transposta esta porta a distância até o trono é vasta ao ponto do incalculável, e que quando finalmente chegar você estará velho, cansado e desorientado. Não só isso, mas encontrar-se com Deus terá para você um efeito inteiramente descaracterizador. Bastará contemplar pelo mais breve instante a divina presença para você ser imediatamente consumido por ela. Você não terá oportunidade de admirar a imagem de Deus ou de declarar o seu amor. Você terá gasto a sua vida inteira para chegar até Deus, e irá perdê-la para sempre no instante em que o encontrar. Se deixo você passar é porque sua entrada não representa risco para Deus; mas representa um horrendo risco pra você.

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“O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente”.

Mário Quintana.

“Segundo a minha experiência – afirma Hermann Hesse, numa de sua cartas -  o elemento mais irritante e destruidor dos homens é aquele impulso baseado na preguiça de pensar e na necessidade de permanecer em paz, que leva para o coletivo, para a explicação racional, para a vulgaridade subordinada à dogmática rigorosa,  seja ela política ou religiosa”. O hábito precisa ser entendido, em seu mecanismo implacável, para que seja possível vislumbrar um pouco além do cotidiano. As exposições racionais e metódicas valem para uma infinidade  de circunstâncias e são de imensa importância na vida, mas nos casos em que o racionalismo e o  método transformaram-se em biombos, escondendo a realidade  em nome da busca dessa realidade, tudo  muda de figura. A técnica, a cultura, o  conhecimento acumulado são pouco ágeis e sutis para um empreendimento tão delicado quanto à abordagem do real, nesse “fio da navalha” que é o momento presente.

Não há retórica na conclusão de que essas descobertas só podem acontecer  agora -  não ontem, nem dentro em pouco. O fio do momento que passa (e que ainda não passou) existe entre duas vertentes e é o único pedaço do tempo que conhecemos de fato. O que as escolas e correntes dizem disso pode ser interessante, mas desvia atenção  do assunto e “verbaliza” ainda mais o  pensamento. Não há nada  que  a erudição  possa fazer para ajudar, no caso, mesmo porque ela costuma ser prolixa, principalmente quando usada como alavanca nos  truques de auto-afirmação. Essa é a carga  mais pesada porque exige resistência e leveza, que freqüentemente se excluem. É preciso resistir ao   peso  dos  hábitos mentais, do costume social,  dos modismos de todo tipo, sendo ao mesmo tempo flexível como um florete, e penetrante como ele.

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