Nelson Costa Jr » Filosofia

Por apofatismo da essência entende-se a capacidade noética individual como veículo para chegar ao conhecimento dos existentes. Assim, eu conheço os existentes enquanto entidades concretas, determinadas pelo lógos da sua ousía, isto é, tais como eu os concebo racionalmente. Quando se trata de uma ousía incriada, transcendental e sobrenatural, admito compreender a existência de uma tal ousía, mas não conheço a sua realidade. Partindo de Dionísio, o pensamento filosófico-teológico ocidental estabeleceu três vias de possibilidade analógica do conhecimento de Deus: a via affirmationis, a via negationis e a via eminentiae.

O apofatismo da pessoa, ao contrário, parte da constatação de que “minha existência” e “meu conhecimento” são fatos consequentes às “relações pessoais”. Enquanto tal, a relação não se esgota com uma fórmula noética, mas pressupõe um envolvimento existencial total, do qual participam as mais diversas capacidades humanas, não somente intelectivas. O primeiro impacto dessa relação é a individuação do modo de existência do “outro”. Disto deriva que a definição racional da ousía do outro é consequente e não antecedente à individuação da diversidade do existente “outro”, por mim conhecida através da relação. Nenhuma definição noética ou linguística pode esgotar a imediaticidade e totalidade da relação pessoal imediata.

Em consequência, se Deus é existente, Ele é por mim conhecido como hipóstase na imediaticidade da relação, e não como ousía através da sua definição racional. Ora, visto que nenhum discurso pode esgotar o conhecimento imediato pessoal consequente à relação entre mim e Deus, esta relação pessoal é impossível de ser expressa ou definida. A fé, que é a primeira experiência pessoal da relação entre mim e Deus, ao instaurar-se por vontade e iniciativa de Deus e com o consenso do homem, permanece incomunicável no sentido mais estrito do termo, pois não pode esgotar-se através de discurso algum.

Read the rest of this entry »

“ Prefiro duvidar um pouco de quase tudo, para continuar crendo no que é absolutamente essencial ”.

Francismo Meirinho.

Considerado a mais alta expressão da poesia de seu  tempo, o poeta religioso persa Jalal-Udin Rumi (1207-1273) considerava a razão um guia bastante precário nos labirintos da vida. Em seu ceticismo em relação às soluções do racionalismo, Rumi identificava a intuição e o percebimento imediato como “a divindade”. Certa vez escreveu:

“A razão é como um oficial quando o rei aparece: perde seu poder e se apaga completamente. A razão é a sombra lançada pela divindade, e a divindade é o sol”.

Nos enigmas sutis que propunha em seus escritos, o poeta não perdia tempo com futilidades, de modo que nem mesmo uma palavra sua era desperdiçada, nos poemas que produzia lentamente. Rumi fundou a ordem dos dervixes e no que fez e escreveu teve  sempre em vista o transcendental – tão desconhecido em seu tempo quanto hoje.

“Venda sua inteligência” – recomendava ele aos moços – “e compre perplexidade. A inteligência é apenas opinião, a perplexidade é intuição”. O espanto diante das coisas, o “não saber” eram apontados como caminhos naturais da percepção para a realidade. A palavra perplexidade tem uma sintonia  exata com o fenômeno da absorção do “fato sem acréscimos, sem interpretações”. O observador que está vazio, num sentido especial, está perplexo. Esse estado – segundo Rumi e tantos outros, situados diferentemente no tempo e no espaço – ideal para descobrir, se é que se quer descobrir. E para ele o  homem deve estar descobrindo  permanentemente, ou estará morto por dentro sem saber. Não há nada intelectualizado a explicar que valha a pena o sacrifício, acredita Ruma. Quando estamos preparados para ver e ouvir, basta um leve toque para que  vejamos e ouçamos. O poeta pode dar esse toque, ou  não. Tudo depende da qualidade do poeta, do conceito que ele tem do papel da poesia.

Kalal-Udin Rumi conta história nos seus versos. Imagina a mãe que amamenta  o filho, e se pergunta se a criança alguma vez exige provas de que o leite é bom ou fica em dúvida sobre como tomá-lo. Assim acontece com o ser humano em suas especulações sobre Deus e o amor, que só ocorrem porque não O conhece e porque não sabe amar. O homem desnaturado – na acepção mais antiga da palavra – não sabe senão se interrogar sobre questões que não conhece, e a cujo respeito não pode obter respostas. As perguntas preenchem um vácuo que quer ser ocupado, e ao qual nem todas as respostas satisfazem. Tal como a criança simplesmente mama, num impulso sem pensamentos, o homem devia apenas viver, sem antepor idéias à ação, teorias à pratica, intelecto à sabedoria.

Para isso era preciso que ele vendesse sua inteligência e comprasse perplexidade. A razão pode ser importante como um oficial aos olhos de camponeses, no dizer de Rumi. Mas quando o rei se aproxima, quem antes parecia importante desaparece na penumbra. A razão apaga-se, com seu inseparável discurso, diante do conhecimento imanente – embora este tenha sua razão de ser, como os oficiais. O racionalismo exerce um papel talvez insubstituível  no mundo.  O que não deve é aspirar à exclusividade, à totalidade e à dominação. A matemática, a experimentação,  a lógica propõe soluções e resolvem problemas de ordem prática no mundo  em que  inevitavelmente vivemos.  Apesar de toda técnica e da maravilha das ciências positivas, continuamos tão ignorantes em relação às principais questões do Universo quanto o homem das cavernas. Essas questões dizem respeito a origem, sentido, fim de tudo isso que vemos e percebemos. Esse mesmo que vê e percebe – quem é? No tempo de Jalal-Udin Rumi essas dificuldades já eram muito antigas, e as perguntas que cortavam o ar eram as mesmas.

Read the rest of this entry »

O poeta místico persa Djalal-udin-Rumi, fundador da ordem dos dervixes, gostava de dizer que  o homem de bem “é filho  do tempo  presente e da tarefa perfeita”. Em todas as épocas, onde quer que a violência e o egoísmo tenham cedido lugar à lucidez tranqüila, o trabalho gozou sempre de uma dignidade  excepcional. Não o trabalho que se faz vorazmente  para esquecer o  mundo, ou  a tarefa que  se cumpre de má vontade para prover as necessidades, mas a ocupação que se exerce com amor e atenção, descobrindo que  os grandes deleites são inseparáveis  da simplicidade. “A vida existe no agora”, – dizia o  poeta – “como tudo mais no único instante  que existe de fato, fora da  memória e da  esperança”. Toda ação  ocorrendo   no momento em que se dá, placidamente, sem a  pressa de  quem só deseja terminar, nem a contemporização de quem não deseja que termine.

Não basta ao trabalho ser honrado, porque ele precisa ser também uma bênção. Nunca pelos frutos, mas pelo que existe nele próprio, ou  na ação de  quem  executa. A tarefa simples de  cada dia – e toda tarefa é simples, mesmo quando toda complexidade  do  mundo parece presente na sua formulação verbal –não  é  somente  aquela que garante o  sustento, mas as  pequenas  e infinitas coisas que fazemos a toda hora, e que geralmente desprezamos como  acessórias e dispensáveis. Grande parte do descontentamento que amarga  nossa vida resulta do fato de não gostarmos do que julgamos  ser nossa obrigação fazer. Isso  ocorre  porque as tarefas que nos cometem parecem tediosas,  porque criamos conflito entre vontade e ação, porque não aprendemos a ver que há beleza no trabalho humilde, isto é, aquele feito  com desinteresse, simplicidade e dedicação.

Há muito  orgulho  em jogo no nosso relacionamento com as  tarefas  que executamos. Aprendemos a  dividir o trabalho em categorias, atribuindo a algumas importância e brilho, e  a outras uma espécie  de  aviltamento que nada  explica direito.

“Quando um  homem é teimoso e tende a repetir somente o que lhe ensinaram”, – diz ainda Djalaludin-Rumi – “há pó nos olhos do seu discernimento e seu espelho está encoberto por várias camadas de poeira”. Para  o poeta, que em  delicados poemas feitos no século XII  falava para o  futuro,  a superficialidade  comum  à  maioria das pessoas é que torna a vida tediosa, difícil e aparentemente sempre igual. Não existe um momento igual ao  outro, lembrava. Toda ação, toda paisagem, todo som, perfume ou forma, são   completamente novos a cada fração de  tempo, desde que haja em nós discernimento e tenha sido  abandonada  a tendência  para julgar  tudo semelhante e repetitivo. A única coisa monótona é essa pobreza que faz ver assim.  O  resto, como  caleidoscópio, é um eterno “tornar-se” que não se repete jamais.

Read the rest of this entry »

Por Marcos Bulcão – Meu amigo do Penso, Logo Hesito.

O que é a realidade?  Podemos conhecer esse mundo que nos cerca?

Que critérios utilizamos, que fatores nos influenciam para criarmos, mantermos ou mudarmos nossas crenças, teorias, opiniões?

Aceitamos uma crença, uma teoria porque ou quando ela funciona, isto é, porque ou quando ela nos satisfaz = nos ajuda a conseguir o que (achamos que) queremos.Nossas teorias, nossas crenças são, assim, espécies de guias para o futuro.

Como criamos nossas estratégias de ação, nossas estratégias de satisfação?

A partir da experiência passada, construímos uma teoria ou uma estratégia de ação, esperando com isso poder antecipar a experiência futura para obter o que queremos.

As experiências passadas bem sucedidas nos ensinam o que repetir. As experiências passadas mal sucedidas nos ensinam o que evitar.

No dia a dia, freqüentemente não podemos satisfazer diretamente nossos desejos sem levar em conta as regras e valores sociais.

Isto é, temos de encontrar uma espécie de “solução de compromisso”, uma espécie de meio-termo, entre o que desejamos e o que nos permite a sociedade.

Encontrar o balanço “perfeito” entre o que intimamente desejamos e o que a sociedade  “espera” de nós é, assim, o grande desafio que todos nós temos de enfrentar.


IMPORTANTE: “crença” aqui será tomado no sentido de qualquer coisa em que acreditamos, desde as coisas mais básicas, o que chamamos de “fatos” (creio que estou vivo, sou brasileiro) até as mais abstratas (creio que existe vida em outros planetas) ou imaginárias (creio que existem duendes ou um ser supremo).

Nossas crenças comportam, assim, graus de confiança (ou confiabilidade). Isto é, podemos classificar algumas de nossas crenças como mais prováveis (ou até mesmo certas) ou menos prováveis.

A crença de que estou vivo tem um grau de confiança máximo (isto é, não consigo pensar que possa ser falsa). Já a crença na existência de vida em outros planetas tem um grau bem menor de confiança, já que, até hoje, não temos nenhum indício concreto para afirmar isso.

* Se gostar, leia a versão completa (5 pgs): O que é a realidade.

“Ao pensar que sabia, errava cada vez mais.”
Fernando Lapolli

Os gregos antigos não tinham uma palavra para “verdade”. Quando queriam designar alguma coisa manifesta, evidente,  perceptível,  usavam a palavra  alethes.  Sua percepção penetrante da realidade ensinava-lhes algumas lições surpreendentes, inclusive essa da verdade não ser estática, algo permanece no tempo, mas sim uma descoberta que pode ser feita momento a momento. Toda idéia de permanência é utilitária, e por trás dela alguém está tentando fazer um uso utilitário de alguma coisa.  Esse esforço desencadeia o oposto de alethes, a ilusão, o mito. O mundo em que vivemos é há muito tempo – e na era das comunicações tornou-se muito mais – embalados nos mitos criados pela ignorância e pelo medo. As grandes mentiras modernas têm muito mais força que as lendas e superstições antigas, porque se revestem da falsa autoridade de nebulosos conceitos espirituais, e de hipotéticas constatações teológicas. Como a maioria das pessoas do mundo vive num plano de desinformação quase completo, recebendo dados sobre inutilidades, mas desconhecendo o essencial, não admira que esses mitos religiosos tenham tanta força e conquistem clientela tão vasta. Comportamento, costumes,  decisões,  posicionamento político e conversão religiosa obedecem às marés dessas novas crendices.

Quando a análise dos fatos é substituída pela repetição dogmática – fenômeno dominante, hoje – fica perfeitamente caracterizado um dos mitos mais importantes do nosso tempo, tema de estudo do historiador que amanhã quiser entender o século XX e sua crítica segunda metade.

Tudo o que temos a fazer é procurar o ta alethea, o que está diante de nós em sua simplicidade, sem designação ou conceito formado, sem conclusão definitiva ou rótulo. Isso é difícil porque somos educados – e continuamos sendo – para julgar e comparar todo o tempo. Às naturezas práticas tudo isso repugna um pouco, na medida em que não leva às metas que esses temperamentos e mentes consideram prioritárias, baseados não se sabe exatamente em quê. Quem não se conhece razoavelmente bem, não tem condições de traçar  prioridades no mundo. Limitando-se ao acaso e aos caprichos – inevitáveis no desconhecimento – chegam sempre onde sempre estiveram,  no mesmo lugar,  no mesmo ponto condicionado. Chamar alguma coisa de “verdade” equivale atribuir a essa coisa um rigor dogmático, uma rigidez que conduz à esclerose. Os velhos gregos sabiam o que estavam fazendo quando se referiam apenas ao manifesto, ao evidente, ao aberto, ao presente.

Read the rest of this entry »

Todos os que tiveram a infelicidade de conversar com gente à beira ou no meio da desordem mental sabem que a qualidade  mais sinistra  dessa gente é uma clareza enorme de detalhes; a conexão de uma coisa a outra num mapa mas elaborado que um labirinto – Particularmente considero a lógica bíblica, acrescento eu.

Se você discutir com um louco, é exatamente provável que leve a pior; pois sob muitos aspectos a mente dele se move muito mais rápido por não se atrapalhar com coisas que costumam acompanhar o bom juízo. Ele não é embaraçado pelo senso de humor ou pela caridade, ou pelas tolas certezas da experiência. Ele é muito mais lógico por perder certos afetos da sanidade. De fato, a explicação comum para a insanidade nesse respeito é enganadora.

O louco não é um homem que perdeu a razão. O louco é um homem que perdeu tudo exceto a razão.

A explicação oferecida por um louco é sempre exaustiva e muitas vezes, num sentido puramente racional, é satisfatória. Ou, para falar com mais rigor, a explicação insana, se não for conclusiva, é pelo menos incontestável. E o que se pode observar especialmente nos dois ou três tipos mais comuns de loucura. Se um homem disser, por exemplo,  que os homens estão conspirando contra ele, você não pode discutir esse ponto, a não ser dizendo que todos os homens negam que são conspiradores; o que é exatamente o que os conspiradores fariam. A explicação dele dá conta dos fatos tanto quanto a sua. Ou se um homem disser que ele é, de direito, o rei da Inglaterra, não é uma resposta completa dizer que as autoridades existentes o chamam de louco; pois, se ele fosse o rei da Inglaterra, essa poderia ser a maneira mais sábia de agir para as autoridades existentes. Ou se um homem disser que ele é Jesus Cristo, não é uma resposta dizer-lhe que o mundo nega a sua divindade; pois o mundo negou a de Cristo.

Read the rest of this entry »

Justifica-se uma crença, seja ela qual for, fazendo três coisas. Primeiro, mostra-se que há boas razões para aceitar tal crença. Segundo, mostra-se que há boas razões para rejeitar os melhores argumentos contra essa crença. E por último, mostra-se que, no cômputo geral, os argumentos a favor da crença são mais fortes do que os argumentos contra a crença. Uma das ilusões muito comuns é pensar que basta apresentar um qualquer argumento a favor do que pensamos que é verdade para termos uma boa justificação cognitiva para isso; isto é ridículo, pois há sempre argumentos a favor de seja o que for, desde que sejamos imaginativos. Haver apenas argumentos a favor de algo não conta para coisa alguma; é preciso que tais argumentos sejam bons, e que sejam melhores do que os melhores argumentos contra isso.

A própria noção de fé levanta um problema interessante, que talvez capte a ideia apresentada aqui. Imagine-se que amanhã aparecia uma prova largamente irrefutável da existência de Zeus: por exemplo, uma voz plena de beleza e sabedoria ouvia-se por todo o mundo, em cada país na sua língua, por exemplo, com mensagens plenas de sabedoria. Muitos filósofos, como Kierkegaard, diriam que nesse caso as pessoas não poderiam já ter fé em Zeus — precisamente porque passariam a ter boas justificações para crer na sua existência; tão boas, na verdade, que passariam a saber que Zeus existia, e não apenas a crer que Zeus existia. Por isso, Kierkegaard defendia que a verdadeira fé é sempre uma crença injustificada. Há algo de estranho na posição de Kierkegaard, que por isso não é aceite pela maior parte dos filósofos teístas da religião. Contudo, é realmente verdade que se tivermos boas justificações para ter fé, não podemos ter fé — temos apenas uma crença correctamente justificada, como a crença de que o nosso vizinho existe. Portanto, o dilema é este: ou há boas razões para ter fé, e nesse caso não é fé, é apenas crença justificada; ou não há boas razões para ter fé, e nesse caso é cognitivamente ilegítimo ter fé. Em qualquer dos casos, a fé parece pura e simplesmente indefensável.

Read the rest of this entry »

A facilidade com que adquirimos  certezas indica apenas  o quanto precisamos delas. Para Samuel Butler, “uma coisa é  na medida em que nos  dá menos  trabalho  para pensar que  é”. Além daquela medida  em que é necessário estar  convencido de determinadas coisas -  as pequenas coisas do  cotidiano e o que pode ser mensurado pelas ciências positivas -, toda obsessão para chegar a idéias definitivas conduz a uma  forma de paralisia do espírito que todos conhecemos bem,  porque é  um mal que aflige milhões  de pessoas  em  nossa  época. O mecanismo dessa necessidade de certeza é pouco  observado. Não porque seja altamente complexo e exija  conhecimentos especializados, além de penetração sutilíssima,  mas porque não conhecer é um modo de perpetuar  “uma  coisa que é”, ou parece ser.

Dizia Goethe  que o homem não nasceu para resolver os  problemas do universo, mas “para colocar seu dedo  sobre  cada  problema e permanecer depois dos limites  do  compreensível”. De algum modo o filósofo estava dizendo que  é impossível conhecer o universo sem antes conhecer aquele  que propõe conhecê-lo. Os limites do compreensível são  impostos pelas limitações de quem  compreende, claro. Um  espírito consegue  ser aberto a fatos que até então  ignora,  quando filtros internos não coam e interpretam o que vêem e  ouvem. As certezas  são  conclusões que  fecham as  portas  desse espírito, ou que  não as fecham completamente, mas  estabelecem aquele  processo  de filtragem que é basicamente condicionador de novas  certezas.  O  estado de “abertura” é uma  disponibilidade  da inteligência, onde reina o silêncio de  quem escuta com atenção  e  em que se descobre que a  resposta vem quase sempre  no mesmo corpo da pergunta.

Schopenhauer  escreveu um dia que “os homens tomam  os limites de sua visão como os limites do mundo”. É possível  que tenha acrescentado em algum lugar que esses limites  podem ser alargados quase infinitamente. Pensar que o horizonte encerra o  universo é tão egocêntrico quanto  imaginar que esse horizonte é o limite natural e possível de  cada homem.  O demônio das certezas não deve ser  confundido com o conhecimento  objetivo das coisas sabidas  e  adivinhadas. Sabemos que o chão não vai afundar à medida  que caminhamos, sabemos que depois da madrugada o dia vai  amanhecer, sabemos milhões de coisas e de certo modo temos  certeza em relação a elas. Diferente é adotar modelos,  dominar  fórmulas,  chaves para determinados padrões,  definições dentro das quais o mundo deve caber. Esse tipo de  certeza, dominante em nosso tempo, não é tão  difundido  como decorrência de algum capricho da natureza humana,  mas simplesmente porque  precisamos desesperadamente dele.

Read the rest of this entry »

“Ora, o Senhor é Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade. Mas todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor .”  2 Coríntios 3.17,18.


Ver o “outro lado” das questões é qualquer coisa como escrever na superfície da água. Temos uma visão completa do problema, e logo ela já não  pode ser usada pela memória para  algum fim prático. Apesar disso, podemos cultivar essa virtude,  único modo de ter acesso ao  amor num meio que nos empurra  para  longe dele todo o tempo,  pelos motivos que todos  sabem e pelos outros, que raramente percebemos. Os espíritos  emparedados na certeza racionalista pensam que o  conhecimento é um fechamento sucessivo de questões, um  encerramento  de inquéritos sobre a vida,  uma seqüência de  portas que se cerram para sempre.

Clive Bell fala, como outros também falaram, do contrário,  de um conhecimento que não encerra o assunto, exatamente  porque formar  um juízo rígido é  uma forma de ignorar o  movimento permanente de todas as coisas, passando de um  instante a outro e sofrendo modificações infinitas. Essas idéias  assustam a maioria das pessoas, que vêem nisso “um  relativismo sem convicções”. Essa é talvez a aparência.

A colocação de todos esses termos numa ordem  simétrica, procurando para eles um sentido claríssimo (leia-se  familiar), desencadeia o  caos ou fabrica uma espécie  de  rotina mental,  que  compreendemos, mas  não  entendemos.  Ter  certeza é necessário, as mais das vezes. Formar cadeias  de certezas que acabam  prevendo as situações e  enquadrando a realidade é organizar uma grande mentira. Um  computador é capaz de montar uma realidade  “paralela”, lógica  e real,  mas  na verdade absurda  e  fantasiosa. O conhecimento acumulativo -  necessário  em determinadas  circunstâncias – pode ser reproduzido por máquinas feitas  pelo  homem, e se parece  muito  com  certas habilidades  humanas. O  que  a memória  e seus circuitos (humanos  ou cibernéticos) não  pode fazer  é a percepção do “outro lado”, da alma das coisas, da empatia, do todo referente a certo assunto, sem o parti pris e a descriminação da consciência.

Read the rest of this entry »

“Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim [...], porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”. Mt 11:29-30

“Procuraste a carga mais pesada – diz Nietzche no Zaratustra – e encontraste a ti mesmo”.

No grande  mosaico em que cada  pedra   é   um dia, uma dor, um sofrimento, uma experiência, pouca coisa parece formar tão bem um  desenho coerente quanto a opera magna da descoberta do mundo pela  revelação do descobridor. Não se trata de um calembur  intelectual ou de um enigma para pessoas cultas, mas da  constatação de um sentido para esse  conjunto de coisas que jamais deixamos de acreditar que obedecem a uma coerência.

A clareza que exigimos para examinar o que a esfinge da vida  propõe todo o tempo é mais do que simples objetividade é  resposta. A intuição pura de Nietzche percebe que a carga só é pesada porque não nos encontramos momento a momento,  preferindo esperar um instante de redenção, após o qual nada  será como antes. A  descoberta fundamental, no entanto, não  é uma culminância, é um processo.

Em carta de 1930, Hermann Hesse encaminha o assunto de maneira mais inspirada. “As sabedorias e possibilidades de salvação não estão ai para serem ensinadas e também não para assunto de conversa, senão para aqueles a quem a água já chegou ao pescoço”. Não é um tema para ser meditado na Semana Santa, mas uma realidade a ser percebida quando o  homem se dá conta do que significa perceber,  e das implicações que isso certamente tem em sua vida. A palavra  salvação está suficientemente comprometida com um dilúvio  de afirmações desencontradas,  para merecer algum crédito.

Read the rest of this entry »