Nelson Costa Jr » Filosofia

“Ora, o Senhor é Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade. Mas todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor .”  2 Coríntios 3.17,18.


Ver o “outro lado” das questões é qualquer coisa como escrever na superfície da água. Temos uma visão completa do problema, e logo ela já não  pode ser usada pela memória para  algum fim prático. Apesar disso, podemos cultivar essa virtude,  único modo de ter acesso ao  amor num meio que nos empurra  para  longe dele todo o tempo,  pelos motivos que todos  sabem e pelos outros, que raramente percebemos. Os espíritos  emparedados na certeza racionalista pensam que o  conhecimento é um fechamento sucessivo de questões, um  encerramento  de inquéritos sobre a vida,  uma seqüência de  portas que se cerram para sempre.

Clive Bell fala, como outros também falaram, do contrário,  de um conhecimento que não encerra o assunto, exatamente  porque formar  um juízo rígido é  uma forma de ignorar o  movimento permanente de todas as coisas, passando de um  instante a outro e sofrendo modificações infinitas. Essas idéias  assustam a maioria das pessoas, que vêem nisso “um  relativismo sem convicções”. Essa é talvez a aparência.

A colocação de todos esses termos numa ordem  simétrica, procurando para eles um sentido claríssimo (leia-se  familiar), desencadeia o  caos ou fabrica uma espécie  de  rotina mental,  que  compreendemos, mas  não  entendemos.  Ter  certeza é necessário, as mais das vezes. Formar cadeias  de certezas que acabam  prevendo as situações e  enquadrando a realidade é organizar uma grande mentira. Um  computador é capaz de montar uma realidade  “paralela”, lógica  e real,  mas  na verdade absurda  e  fantasiosa. O conhecimento acumulativo -  necessário  em determinadas  circunstâncias – pode ser reproduzido por máquinas feitas  pelo  homem, e se parece  muito  com  certas habilidades  humanas. O  que  a memória  e seus circuitos (humanos  ou cibernéticos) não  pode fazer  é a percepção do “outro lado”, da alma das coisas, da empatia, do todo referente a certo assunto, sem o parti pris e a descriminação da consciência.

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“Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim [...], porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”. Mt 11:29-30

“Procuraste a carga mais pesada – diz Nietzche no Zaratustra – e encontraste a ti mesmo”.

No grande  mosaico em que cada  pedra   é   um dia, uma dor, um sofrimento, uma experiência, pouca coisa parece formar tão bem um  desenho coerente quanto a opera magna da descoberta do mundo pela  revelação do descobridor. Não se trata de um calembur  intelectual ou de um enigma para pessoas cultas, mas da  constatação de um sentido para esse  conjunto de coisas que jamais deixamos de acreditar que obedecem a uma coerência.

A clareza que exigimos para examinar o que a esfinge da vida  propõe todo o tempo é mais do que simples objetividade é  resposta. A intuição pura de Nietzche percebe que a carga só é pesada porque não nos encontramos momento a momento,  preferindo esperar um instante de redenção, após o qual nada  será como antes. A  descoberta fundamental, no entanto, não  é uma culminância, é um processo.

Em carta de 1930, Hermann Hesse encaminha o assunto de maneira mais inspirada. “As sabedorias e possibilidades de salvação não estão ai para serem ensinadas e também não para assunto de conversa, senão para aqueles a quem a água já chegou ao pescoço”. Não é um tema para ser meditado na Semana Santa, mas uma realidade a ser percebida quando o  homem se dá conta do que significa perceber,  e das implicações que isso certamente tem em sua vida. A palavra  salvação está suficientemente comprometida com um dilúvio  de afirmações desencontradas,  para merecer algum crédito.

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O livro “O Fantoche e o Anão” de Slavoj Zizek é denso, maluco, maciçamente erudito, tautológico, brilhante e desconcertante. Slavoj Zizek tem sido chamado de “uma estrela do rock acadêmico”, o “homem selvagem da teoria e dos por quês”. Sua escrita se mistura com referências culturais e com teorias de grandes homens – Principalmente Freud e Lacan. Nesse livro, Zizek relê o Cristianismo à luz da psicanálise lacaniana fundamental, e encontra o seu significado num tipo de “teologia materialista” – Como um bom leninista, ele vê a comunidade paulina de primeiros cristãos como a primeira versão de uma revolução coletiva por exemplo.

O Cristianismo afirma e reafirma o “Grande Outro”, mas, como nos diz Lacan : Nós pervertemos tudo e precisamos de “Deus” para isso. Mas afinal, se “Deus” está morto, então nada é permitido. Portanto, o perverso exige a proibição de “Deus” ou impõe um “Deus” – Sua perversão é dependente dele. O cristão em si mesmo é um pervertido lembra Zizek.

Zizek comenta em várias ocasiões ao longo do texto que, na cruz, no momento da sua maior necessidade de fé, a grande fé de Jesus radicalmente se transforma em dúvida : “Por que tu me abandonaste?”. Assim, Zizek explica que um cristão verdadeiro necessita identificar-se com a dúvida radical, com a crença da possível não-existência de Deus se realmente deseja buscá-lo – O elemento da dúvida é um elemento da própria fé.

Ao contrário do judaísmo de Levinas – até mesmo de Derrida -, o cristianismo é uma religião imanente, de certa forma uma mesmice. Deus através de Jesus torna-se homem e não define ou sustenta sua alteração. Essa semelhança de Deus com o homem é a chave – Deus não se torna homem como uma queda, mas como o seu oposto diz Zizek : “E se o que aparece para nós, os mortais finitos, como a descida de Deus para conosco, não seria do ponto de vista do próprio Deus uma subida?”

Como Schelling disse: “A eternidade é inferior a temporalidade. E se a eternidade… é estéril, sem vida, impotente”. O tempo não é uma prisão, mas sim,  um espaço, uma clareira em que podemos nos definir e viver. Como viver bem nesse espaço então?

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A partir do momento em que os homens inventaram deus, criaram um problema de que não mais se libertaram. Muitos se devem ter indignar com esta afirmação. Os ateus, por se julgarem libertos do problema; os crentes, por sentirem que isso não é problema. Para os primeiros, deus não existe, foram os homens que o inventaram, logo, estão fora do assunto, já saltaram dele. Os crentes, por seu lado, nem sequer entram no problema assim formulado. Se não foram os homens que inventaram Deus, mas Deus que criou os homens e tudo o resto, Deus não é problema mas aquilo que, no fundo, resolve todos os problemas.

Mas, embora por razões diferentes, é uma situação em aberto para todos nós. Porque se Deus me é transcendente, a sua compreensão ultrapassa-me. Só a fé me pode convencer dessa realidade que, justamente porque me transcende e ultrapassa, não posso alcançar por outro processo. Quando a fé falha, o problema surge ou agudiza-se. Se estou dependente de Deus pela fé, estou dependente de forças imanentes, que eu próprio crio e alimento ou enfraqueço. E que são valiosas para mim, mas que não consigo transmitir aos outros. Sendo vivências pessoais, só eu as posso sentir e reconhecer como verdade, só eu posso captá-las na sua essência. Há certamente comunidades de crentes, mas resultam de processos inter-subjectivos, que não vão ao essencial. Estando portanto assente na fé de cada um, Deus é sempre um problema pessoal em aberto. Como todos sabem, a fé não liberta ninguém dos problemas que a existência de Deus coloca, de vez em quando, mas dá-lhe uma saída na esperança. Veja-se Santo Agostinho, para não irmos mais longe.

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O ego pessimista.

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Manuscrito de Schopenhauer: clique na imagem: e veja o Ego.

Roubei a história do Blog Freud Explica.

Um grupo de cientistas colocou cinco macacos numa jaula, em cujo centro puseram uma escada e, sobre ela, um cacho de bananas. Quando um macaco subia a escada para apanhar as bananas, os cientistas lançavam um jato de água fria nos que estavam no chão.
Depois de certo tempo, quando um macaco ia subir a escada, os outros enchiam-no de porradas.
Passado mais algum tempo, nenhum macaco subia mais a escada, apesar da tentação das bananas. Então, os cientistas substituíram um dos cinco macacos. A primeira coisa que ele fez foi subir a escada, dela sendo rapidamente retirado pelos outros, que o encheram de porradas.
Depois de algumas surras, o novo integrante do grupo não mais subia a escada. Um segundo foi substituído, e o mesmo ocorreu, tendo o primeiro substituto participado, com entusiasmo, da surra ao novato.
Um terceiro foi trocado, e repetiu-se o fato. Um quarto e, finalmente, o último dos veteranos foi substituído.
Os cientistas ficaram, então, com um grupo de cinco macacos que, mesmo nunca tendo tomado um banho frio, continuavam batendo naquele que tentasse chegar às bananas.
Se fosse possível perguntar a algum deles porque batiam em quem tentasse subir a escada, com certeza a resposta seria: “Não sei, as coisas sempre foram assim por aqui…”

“Procuro o Teu rosto, Senhor, redobradamente o procuro. Portanto, agora, Senhor meu, ensina meu coração sobre onde e como te procure, onde e como te encontre. Se não estás aqui, Senhor, onde Te procurarei estando ausente? Mas se estás por toda a parte, por que não me apercebo da Tua presença? Sem dúvida habitas numa luz inacessível. E onde está essa luz inacessível? Ou como terei acesso à luz inacessível?”

Por certo, Anselmo não julga que é necessário pensar sobre essências, porque essências podem ser tidas como crenças, mas o fato de que as questões sobre crenças são colocadas de um modo radical por Anselmo o permite, de modo como não o fez Santo Agostinho, enfrentar tal questão filosófica. Para Anselmo a existência de uma essência está longe de ser matéria de crença, mas, e para aqueles que não crêem, como fazer que percebam essa verdade fundamental? Para aqueles que não conseguem entender a verdade fundamental é preciso fazer com que creiam; ora, não se pode exigir, dos que não sentem a evidência, que seja capazes de entender antes de crer. Não que a essência seja matéria de crença, mas para que seja entendida, uma crença é necessária. E para isso nos diz Anselmo, frase que pode ser tida como inaugural da reflexão filosófica sobre crenças, inclusive para a percepção cética:

“Não procuro Senhor, penetrar a Tua profundidade, porque de maneira nenhuma lhe comparo a minha inteligência, mas desejo entender, de certa forma, a tua verdade que o meu coração crê e ama. Nem procuro entender para crer, mas creio para entender. Pois, até isto eu creio: que se não acreditar, não entenderei.”

Mas os insensatos não crêem, como eles podem entender? Para os insensatos um caminho muito incomum deve ser feito: produzir uma tal sorte de entendimento, de tal forma cristalina, que cheguem a crer, de modo que o entendimento, depois da crença, possa mostrar o abismo de insensatez onde se encontravam. Para eles, os insensatos, é preciso criar um argumento. Uma prova ontológica. Kant é quem, na Crítica da Razão Pura, inaugura a denominação do argumento de prova ontológica. Kant examina a estrutura o argumento de Anselmo e de Descartes para examinar a possibilidade de estabelecimento de tais tipos de provas. Porque se categorias são ferramentas a priori, ainda que existam essências, noumenon, não posso conhecê-las, por isso, não há que se falar de provas ontológicas. A prova ontológica, para Anselmo, é a demonstração para os insensatos – Kant não poderia ser tomado como um insensato, porque acredita em essências, apenas julga que não há como prová-las – do porquê não faz sentido deixar de crer. Trata-se de expor o insensato ao próprio absurdo de sua descrença. Essa possibilidade de manipulação da crença é que nos permite pensar que talvez a crença seja alguma coisa ainda mais relevante, para atestar a existência de essências, do que julgava Anselmo: crenças produzem essências. Para Anselmo a essência era um existente a despeito da crença, de modo que ainda que não cresse em Deus, poderia entendê-lo, o que imediatamente me catapultaria para a crença. Essa maleabilidade para produzir crenças, inclusive pelo entendimento, permite-nos entrever, será que não é a crença que produz tal assentimento ao entendimento? Anselmo, no Proslogion, julgará de tal forma intensa a capacidade do entendimento em produzir adesão que enuncia acerca de Deus: “… de tal maneira o entendo que, se não quisesse acreditar que Tu existes, não podia deixar de o entender ”. Não será o entendimento, para Anselmo, o que de maior pode fazer uma crença? Impedir qualquer juízo de não existência de essências.

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Quando o rito já não mais desempenha a sua função, surge a crise sacrificial que é muito bem representada pelo mito de Caim e Abel. Abel sacrifica os primogênitos de seu rebanho, portanto tem uma válvula de escape. Caim já não a possui, por isso não contém seus impulsos violentes e, movido pelo desejo mimético ou inveja pelo amor que Deus tem pelo seu irmão, mata Abel.

Rene Girard – Violência e o Sagrado.

 

O Brasil há mais de dez anos está envolvido numa espécie de discurso ético purgativo, segundo o qual acredita-se que com a punição dos corruptos tudo ficará bem. E isso está tão evidentemente relacionado com o rito sacrificial do bode expiatório que eu gostaria de sugerir que aproveitássemos a presença do Prof. Girard entre nós como uma oportunidade para meditarmos a onda moralizante brasileira à luz dos seus ensinamentos: não estaríamos procurando apenas mais um pretexto edificante para a violência e a perseguição?

Mas eu desejaria também colocar um outro problema, de ordem teórica, que me atormenta desde que li alguns dos livros do Prof. Girard. É o seguinte: evidentemente, existe nas religiões essa constante que ele assinalou desde o início das suas investigações, que é o elemento sacrificial, porém há também outras constantes. Uma delas é a presença da linguagem simbólica. Não houve nenhuma religião que viesse ao mundo inicialmente sob a forma de uma doutrina logicamente exposta, de um sistema lógico-doutrinal. Ao contrário, pode-se desenvolver um sistema lógico-doutrinal ao longo do tempo, mas a forma inicial de representação da religião é sempre uma narrativa ou um poema simbólico, seja composto de elementos fictícios ou de acontecimentos reais — como a vida de Nosso Senhor Jesus Cristo — fortemente carregados de simbolismo. O que caracteriza esse elemento simbólico é o fato de ele poder ser compreendido em diferentes níveis, que guardam entre si uma ligação analógica. Quando tomamos o conjunto das narrativas e símbolos de uma religião, podemos ver ali ou o esquema da ordem da sociedade ou o esquema da ordem da alma, do mundo interior do indivíduo humano. Nesta última hipótese, temos a perspectiva que se aproximaria mais da mística ou do “esoterismo”, e na primeira, temos uma perspectiva legalística, “exotérica”, da autoridade religiosa, das regras morais e da construção do Estado. Ora, conforme encaramos esse conjunto sob um aspecto ou sob o outro, obtemos, às vezes, sentidos inversos. Por exemplo, num aspecto místico, de busca de uma perfeição espiritual pelo indivíduo, aquilo que corresponde à ascese ou à alquimia interior, seria exatamente aquilo que no plano social, no plano coletivo, corresponderia justamente à matança, ao genocídio. Isto é muito nítido no Baghavad-Gitâ, ou na narrativa bíblica das guerras judaicas: o que, na ordem dos fatos exteriores, é violência e morticínio, na ordem interior é ascese, autodomínio espiritual, vitória sobre as paixões violentas. Na religião islâmica, há uma série de práticas interiores das ordens místicas, que têm pouco a ver com as obrigações legais e rituais da religião coletiva, mas se destinam a utilizar a substância das paixões mais inferiores, mais violentas, como matéria-prima que, queimada no forno, no altar da prática mística, se converterá em virtude, em conhecimento espiritual, naquele sentido em que é possível dizer, com Sto. Agostinho, que as virtudes são feitas da mesma matéria dos vícios: partindo dos vícios, tomando-os como matéria-prima e queimando-os no forno da meditação e da concentração, o pecado se substitui pela graça. Quando abandonamos esse nível interior e rebatemos isso para o plano da sociedade, aí entramos em plena matança dos inocentes, em plena perseguição do bode expiatório.

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“Obediência não é o suficiente. A não ser que uma pessoa esteja sofrendo, como você pode ter certeza de que ela está obedecendo à sua vontade e não à dela? O poder está em infringir dor e humilhação. O poder está em rasgar mentes humanas em pedaços e colocá-las juntas de volta em novas formas escolhidas por você mesmo. Você começa a enxergar agora o tipo de mundo que estamos criando? (…)

Do livro “Matrix” , da Editora madras.

 

Sempre procurei evitar o erro crasso de negar as realidades. Negar realidades é um procedimento relativamente comum, principalmente se observamos quão facilmente tendemos a interpretar o mundo sob o prisma de nossas próprias concepções. O que exatamente quero dizer com a idéia de “negar realidades”? Com isso desejo chamar a atenção para o processo de interpretação parcial – e portanto não-integrativa – do que está ocorrendo à nossa volta, das circunstâncias que nos cercam, das palavras que ouvimos e falamos, dos sentimentos que experimentamos, dos gestos, rostos, cores e formas que vemos. Quando vivemos estas sensações, estamos quase sempre vivendo a parte delas que corrobora nossas próprias interpretações – seja para o melhor ou pior. E quando vivemos desta maneira tão compartimentada, estamos automaticamente negando as outras realidades possíveis e perdendo a chance de superar os conflitos e viver bem melhor.

Notem bem, não afirmo que a parcialidade de nossa visão de mundo seja feita deliberadamente ou de forma capciosa por todos nós, todo o tempo. Ou que ela não tenha nenhuma utilidade – se feita com extrema dose de discernimento – como organizadora de nossas atitudes. Apenas percebo que tal atitude é constante no comportamento humano usual, fazendo parte de uma característica essencialmente frustrante e insalubre de nossa natureza, pois ao negar realidades estamos abrindo um amplo campo para situações críticas, preconceituosas, angustiantes, odiosas, confusas e repressoras em nós mesmos e em todos à nossa volta.

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Na escala do cosmos só o fantástico tem condição de ser verdadeiro.

Teilhard de Chardin.

“Em alguns aspectos, a ciência superou em muito a capacidade da religião de criar uma admiração reverente. Por que será que nenhuma das grandes religiões examinou a ciência e concluiu: ‘Isto é melhor do que pensávamos! O Universo é muito maior do que diziam os nossos profetas, mais grandioso, mais sutil, mais elegante. Deus deve ser ainda maior do que imaginávamos!’? Em vez disso, dizem: ‘Não, não, não! Meu deus é um deus pequeno e quero que ele continue assim’. Uma religião, antiga ou nova, que acentuasse a magnificência do Universo revelada pela ciência moderna poderia atrair reservas de reverência e admiração ainda não canalizadas pelos credos convencionais. Mais cedo ou mais tarde, essa religião vai aparecer.”

(Sagan, Carl. Pálido ponto azul. Uma visão do futuro da humanidade no espaço. Trad. Rosaura Eichemberg. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 80.)