Nelson Costa Jr » Nelson Costa

Não possuo a dádiva da escrita, da poesia, ou muito menos da teologia. Sou artista, e não um intelectual – acredito que o intelectual é o homem que reflete sobre os fatos, o artista, por sua vez, concebe coisas. Então diria que sou um artista que vive na escuridão. Utilizando do velho inspirador Belchior, resumiria dizendo que sou um rapaz latino- americano apaixonado por Johnny Cash , cerveja , Cristo, e que sabe muito bem que essa estória sobre Deus dizer que cristão nasceu para ter sucesso, e que foi separado da totalidade humana, é uma das maiores lorotas que o Cristianismo já inventou.

Isso. Seja bem-vindo a minha teologia da escuridão – Receio que minha apresentação mal possa satisfazer o excesso de expectativas despertadas pelo título; se é que houve alguma.

Mas enfim, deixe-me explicar minha posição:

Não acredito nessa conversa fiada de crente ser superior. Não acredito nessa velha história de crente ter sido predestinado para ter sucesso, ou ser separado da totalidade do Mundo – Acredito que os limites não são tanto entre etnias, religiões, nações, seitas, mas se situam mais entre concepções de mundo, posturas, razão e fanatismo, paciência e histeria, criatividade e desejo exterminador de poder.

Por quê?

Felizmente, graças ao bom Criador, a história, e as muitas narrativas bíblicas, científicas e filosóficas, podemos ver que, o que vivemos como evangelho hoje é uma farsa – Só que muitas vezes não queremos aceitar. Não afirmo ter a razão, pelo contrário, só digo que o bom amor, se acha em perigo mortal, perigo esse oprimido pela política, pela farsa ideológica, e pela nossa necessidade de manter as velhas mentiras.

Logo, o que fazer? Buscar algo que nos quebre! E aqui, gostaria de deixar algumas sugestões para reflexão. Deixar um tipo de oração e justificação natural, do porque que não acredito que o Cristianismo seja uma constelação especial, ou que possua uma teologia única e verdadeira . Então digo:

  • A história claramente relata que as forças do bem e do mal produzem catástrofes, mutações, falhas, tragédias, erros e impossíveis dilemas de serem resolvidos – A natureza, respira mais desordem do que ordem, mais multiplicidade do que uniformidade, além de coroar o final de suas causas com a morte. Seja para cristão, ou não cristão, por isso:

Oremos ao Senhor!

  • As Escrituras berram o sofrimento de cada personagem bíblico, além de nos mostrar um Cristo que padeceu – como muitos da humanidade – a injustiça dos poderes, para depois, antes de subir ao céu, gastar um tempinho no inferno. Por isso:

Oremos ao Senhor!



  • Em nosso tempo, a física quântica demonstra a falência da velha mecânica newtoniana – que tudo claramente possui causa e efeito. Se não acredita, sente e observe o contínuo processo de busca que os “sábios” de nossa era fazem, para encontrar novas regras, e novas lógicas para suas teorias. Por isso:

Oremos ao Senhor!

  • Verdade de hoje em dia? Basta analisar o trágico sentido da vida – já disse Unamuno. Fé inclui razão, mas é uma categoria maior do que conhecimento. Vida possui organização, porém, é caracterizada pela desorganização – Renovação e perda, morte e ressurreição, caos e cura ao mesmo tempo; a vida é uma colisão de opostos. Por isso:

Oremos ao Senhor!

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Por trás.

postado em: Nelson Costa, Teologia

Por trás de um sorriso constante. Por trás de quem sempre tem resposta para tudo. Por trás de quem nega suas dúvidas. Por trás de quem conhece como Deus funciona. Sempre há uma neurose mascarada.

No início de 2012, meu amigo Jim postou um tópico muito interessante em seu blog ao qual, até ontem, ainda discutíamos no botequim. Claro, um puxão de orelha que incomodaria qualquer um que entende perfeitamente Deus. Já para quem tem teologia como febre, e não remédio, só mais uma situação a ser discutida.

Confesso que pouco sei sobre o assunto, mas digo com clareza que tenho uma certa afinidade com o desejo do bom Jim. Para os que gostam de pensar e que, odeiam anestesia em teologia, ai estão:

Dez coisas que gostaria que a Igreja soubesse sobre homossexualismo.

1 – Você não está sendo perseguido quando previne a perseguição dos outros.

2 – Se Jesus não mencionou um assunto em seus ensinos, não tem como ser parte dos seus mandamentos.

3 – A verdade não é como o vinho; fica melhor com a idade. Verdade assemelha-se ao maná: Você deve reconhecê-la independentemente aonde, e com quem esteja.

4 – Não é possível considerar – “privilégios especiais” – um direito que você já tem , mas impede os outros de ter.

5 – Se você prejudica alguém, sua visão religiosa não é pessoal.

6 – O casamento é uma cerimônia civil; significa um direito civil.

7 – Se colocar lenha na fogueira se tornou sua bússola moral diante de um assunto, o único que está perdido é você.

8 – Para condenar o homossexualismo com o auxílio das Escrituras, é necessário utilizar-se de toda Bíblia. Ninguém ficaria livre da prisão se obedecesse inteiramente o livro de Levíticos.

9 – Se não fizermos o melhor em nossos dias, nossos netos irão nos ver como uma vergonha. Como parte de uma geração racista.

10 – Quando Jesus Cristo proibiu julgar os outros, ele também pensava na Igreja.

Experiência da semana: Apreciando os Manuscritos do Mar Morto. Fica o registro e o meu agradecimento à Doutora Risa Levitt Kohn.


“Quem seria Platão se não tivesse existido o conflito entre a dialética de Heráclito e os paradoxos de Zeno?”

Pretende-se demonstrar no presente  texto que, quando uma teologia é tencionada para um lado do elástico epistemológico, sem considerar o outro, ela se torna excessiva.

Por teologia tencionada, entende-se o conflito da dialética – conflito entre tese e antítese em prol de uma nova síntese  – Por um instante, refutar uma teologia se torna fácil, mas ser sincero diante da ignorância de tal refutação, não. A teologia excessiva por outro lado, é uma exegese ilusória, que procura demonstrar que existe uma teologia correta, e outra errada.

Sem o anseio de advogar por qualquer tratado teológico, mas, por um emergentismo teológico, posso dizer que a teologia se vulgarizou nas dimensões do simbólico, levantando-se acima da causa primeira. O “vamos fingir que as teologias funcionam”, oculta o fato de que as instituições eclesiásticas cristãs contemporâneas estão perdendo espaço, e que, de fato, a maioria das pessoas já não mais acreditam nelas. Os fatos catastróficos que um dia comprometeram a teologia ortodoxa, estão à tona mais uma vez, aniquilando o que sobrou dela; o fato da ortodoxia tentar sobressair o processo evolutivo acaba comprometendo sua imagem. Existe um conto britânico muito interessante que de alguma forma, explica essa soberba teológica comprometedora de hoje:

Dois conterrâneos não se viam há mais de anos devido a tragédia da segunda guerra mundial que sucedeu-se na vida de um deles. O prejudicado pela guerra, depois de algum tempo, voltou à sua terra natal para rever a região e o velho amigo. Quando chegou na terra que um dia morou, a primeira coisa que fez foi visitar o saudoso companheiro de infância. Chegando na casa do camarada se abraçaram e, rapidamente, aquele que “aparentemente” havia-se dado bem por não ter ido à guerra, foi mostrar ao colega sua propriedade; alguns terrenos protegidos por duas diferentes cercas.

Depois de horas mostrando tudo que havia construído, e tentando sobressair-se sobre o veterano que, em silêncio pensava sobre a lógica de tudo, de forma irônica o sujeito iludido perguntou:

- E você, que fez da vida depois da guerra? O que construiu?

Sem jeito, o amigo visitante comentou de suas lutas e disse que, por sorte, adquiriu uma fazenda ao qual, se dirigisse com seu carro durante duas horas ao Norte da região que se encontravam e voltasse, possivelmente não chegaria ao final das terras que ganhara.

O amigo, agora com uma certa inveja, retrucou:

- Ah, sei como é que é, eu tive um carro desses!

Como num jogo mimético, a teologia excessiva sai procurando por um culpado, e acaba se auto condenando. Ela segue isolando cada vez mais o homem de seu território, do cenário do seu destino, de sua queda ou elevação, e sua indústria fica sobrevivendo do desejo de evitar que, o cristão, por si só, descubra sobre sua certeza comercializável. Um fato muito interessante para descrever tal situação, é o problema entre os franceses em interpretar a natureza do fenômeno social religioso de Èmile Durkheim: Crentes, no âmbito francês, tendem a ver em Durkheim um ateu que reduziu a religião ao social, enquanto os anglo-saxônicos, curiosamente, o consideram uma espécie de místico que reduziu a sociedade ao religioso. Como se não bastasse, a revista norte americana Time, no início de Março desse ano, lançou uma matéria mostrando que desde 1990, o número de pessoas sem afiliação religiosa nos Estados Unidos dobraram, colocando a Igreja num momento sociológico muito delicado diante de um ano eleitoral. Em última análise, percebe-se que, não existe mais “Teologia” – que leva em consideração os aspectos importantes que permanecem dentro de nossa existência -, mas sim, a teologia em que minha tribo considera.

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De onde vens? Como penetras,

no interior da minha cela,

fechada de todos os lados?

Com efeito, isto é estranho,

ultrapassa a palavra e o pensamento.

Mas o facto de vires até mim,

subitamente todo inteiro, e de brilhares,

o facto de Te deixares ver sob uma forma luminosa,

como a Lua na sua plena luz,

deixa-me incapaz de pensar

e sem voz, meu Deus!

Sei bem que és

Aquele que veio para iluminar

os que estão nas trevas (Lc 1,79),

e fico estupefacto,

fico privado de senso e de palavras

ao ver tão estranha maravilha

que ultrapassa toda a criação,

toda a natureza e todas as palavras. [...]

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Dualismo

Não és bom, nem és mau: és triste e humano…
Vives ansiando, em maldições e preces,
Como se, a arder, no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano.

Pobre, no bem como no mal, padeces;
E, rolando num vórtice vesano,
Oscilas entre a crença e o desengano,
Entre esperanças e desinteresses.

Capaz de horrores e de ações sublimes,
Não ficas das virtudes satisfeito,
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes:

E, no perpétuo ideal que te devora,
Residem juntamente no teu peito
Um demônio que ruge e um deus que chora.

Olavo Bilac

É muito fácil assumirmos que nós estamos do “Lado de Deus”, e outros não. Que estamos seguindo o melhor papel da narrativa que está sendo contada. Que estamos do lado certo do rio. Devido a isso, criamos outras narrativas sobre a fé, o amor, a política, e usamos o tal “Deus” para reforçar nossas suposições, sem nunca permitir que o Deus que vai além do “nosso Deus”, desafie nossas ações, narrativas e crenças. Criamos uma “verdade eterna”, pressuposta num subconsciente que denominamos por “sadio”. Nos esquecemos que conflito é sinônimo de verdade, e que a verdade  não é a solução que nos mostra a luz no fim do túnel, ou  uma entidade que descobre e desvenda os mistérios da vida. Confundimos a verdade em dualismos e determinamos que ela é parte de uma construção de fatos – Verdade de forma alguma está em conformidade com nossa realidade interior “o aqui”, ou com nossa realidade exterior ” o lá fora”. A verdade simplesmente é!

O fato é que, neste início de século tudo se desvelou, ao menos uma vez tudo mostrou a verdadeira face, tudo se tornou mais real. O cristão se converteu em juiz por vocação, a fé individual, em crime, o pregador se aparelhou com fornalhas teológicas para queimar o espírito humano, numa Igreja, o jogo sujo da lei, na prisão dos fiéis, a necessidade da fé se tornar um ato masturbatório. O ser em si, livre em Deus, ainda depende da crença do anunciador das “boas novas” – A partir das armadilhas das exceções, esse costuma ainda dividir a racionalidade e irracionalidade, como se as duas fossem forças naturais contrárias. Assim, o Deus que pregamos, a religião que defendemos, ou melhor, que dizemos ser a correta, não possui fundamentos nas necessidades reais, mais no incompreensível mundo interior de cada indivíduo; em respostas que a metafísica nem se quer se aventura em responder.

Sem que eu queira, paralelos epistemológicos vêm-me à mente:

  • Criacionismo  X  Evolucionismo.
  • Justificação pela fé   X  Justificação pela prática.
  • Iconoclastia reformada  X   Iluminismo.
  • Corpo  X  Espírito.
  • Poderes dominantes  X   Não-violência.
  • Liderança  X  Comunidade.
  • O problema do homossexualismo

Não sei. Sou teólogo, conto com poucas informações, e as que tenho também me parecem excessivas. Não sei se essa visão protestante de Deus é real ou apenas uma impressão do meu ouvido tradicional. Porém, o momento nos propõe, indiscutivelmente, questionar  nossas estimulações filosóficas brancas, ou escuras, levando em consideração o que Carl Jung um dia perguntou : Muito bem, mas que espécie de mito vivemos nos dias de hoje?

Entre  titãs do Cristo e cavaleiros da dúvida, seguidores e pioneiros, poucos tem tido a coragem de sair do conforto de acreditar no que o pregador diz. De sair da prática sistemática que espera primeiro os heréticos descobrirem algo, para depois reformularem suas teorias, deixando assim de mergulhar no Espírito da narrativa que sempre tem algo melhor para oferecer. Atolados em sofismas filosóficos, em distorções escolásticas, em dogmas frios, muitos ainda abraçam certos traços religiosos que, em meio ao mau cheiro do dualismo, vestem a máscara da cópia absurda teatral, para assolarem uma platéia simples que não consegue observar o Deus que está fora de toda  parafernália.

Tudo se torna uma pornografia santa, recheada de admiradores secretos que, se masturbam hoje, e pedem perdão amanhã, claro, tudo às escondidas.

Que tipo de brincadeira é essa? Os horizontes da nossa vida cotidiana são limitados por esses argumentos, argumentos esses que falam – no final – do bem e do mal, e os sons desses sussurros intermináveis acerca do bem e do mal movem nosso mundo. Eles geram prazer em nossa narrativa e ocupam a mente e o coração daqueles que gostam de definir Deus. Por isso que, ainda as palavras do grande artista russo Tchekhov  ecoam em meus ouvidos: “ Não sei, juro pela minha alma, pela minha honra, não sei”.

Precisamos desfazer as dualidades que existem em nós, e ao mesmo tempo unificá-las para descobrir as diferentes razões do ser, em busca de servir aquilo que Deus mais ama, o homem. Querendo ou não, a fumaça da pós-modernidade já retirou o firmamento disfarçado das lógicas que impedem tal atitude misericordiosa, e mostrou o escândalo do Caim moderno. Hoje, como na antiga Roma,  muitos denunciam os bárbaros, se esquecendo que, quando Roma foi invadida, ela já havia se tornado bárbara por si mesma. Ou seja, os detentores da “verdade”, denunciam os de espírito livre, os relativistas, sem levar em conta que eles, os próprios santos, foram os progenitores daqueles que hoje condenam a fé. Enfim, ninguém quer acabar com a brincadeira!

Já classificou São Tomas de Aquino a masturbação como um pecado contra a natureza. Já disse Hegel que, os que exageram o argumento, prejudicam a causa. Oscar Wilde já constatou que, se quisermos dizer a verdade às pessoas, devemos fazê-las rir; do contrário, elas nos matarão. Enfim, meu grande amigo Peter Rollins, em diversos momentos, sempre fala de um conto Irlandês que acredito que caia bem para essa situação:

Diz a história que certo jovem tinha um bar em Dublin que sempre aconchegava militares da região. Como parte da diversão desses militares, eles sempre faziam tal jovem ficar bêbado – o jovem gostava pois, lhe rendia uns bons trocados e uma cervejinha na faixa. Numa certa hora da noite, alguém do grupo dos militares colocava uma nota de cem euros na mesa, e uma moeda notável que não possuía valor algum. Pediam para o inexperiente menino escolher uma das duas. O jovem, já alcoolizado, escolhia sempre a moeda, invés da nota de cem euros – Todos riam no final devido tal atitude do garoto. Um belo dia, alguém de fora viu e, perguntou ao jovem se ele tinha algum problema, pois ele nunca pegava a nota que representava o maior valor. Então, o jovem respondeu ao questionador: “Eu sei que o papel vale mais do que a moeda, mas se eu pegá-lo, a brincadeira acaba, e eles nunca mais retornam ao meu bar”

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Com o Padre Richard Rohr. Um amigo que tenho como alma gémea. Um exemplo vivo e prático de toda teologia que tenho ensinado. Conversamos muito sobre as duas partes da vida que podemos escolher:

Primeira –  ( Imaturidade, dualismo, certeza, e a dança do sobreviver).

Segunda –  ( Dúvida, mistério, contemplação, encarnação e a dança sagrada).

Enfim, nosso jogo precisa nos desapontar! Deixar a perfeição e os dualismos em busca pela união! Como bem dito em seu último livro: Caindo para cima –  ”Espiritualidade para as duas metades da vida”.