Nelson Costa Jr » Parábola

Um dia , a Verdade andava visitando os homens sem roupas e sem adornos, tão nua como o seu nome. E todos que a viam viravam-lhe as costas de vergonhaou de medo e ninguém lhe dava as boas vindas. Assim, a Verdade percorria os confins da Terra, rejeitada e  desprezada.

Uma tarde, muito desconsolada e triste, encontrou a Parábola, que passeava  alegremente, num traje belo e muito colorido.
- Verdade, por que estás tão abatida? – perguntou a Parábola.
- Porque devo ser muito feia já que os homens me evitam tanto!
- Que disparate! – riu a Parábola – não é por isso que os homens te evitam.
Toma, veste algumas das minhas roupas e vê o que acontece.

Então a Verdade pôs algumas das lindas vestes da Parábola e, de repente,
por  toda à parte onde passava era bem-vinda.
- Pois os homens não gostam de encarar a Verdade nua;  eles a preferem disfarçada.

(Conto Judaico)



“Tudo isso inquiri com sabedoria e disse: Sabedoria adquirirei; mas ela ainda estava longe de mim.”

Eclesiastes 7.23

Pois será como um velho sábio que, ausentando-se de seu monastério chamou alguns de seus discípulos e entregou-lhes o seu conhecimento, dizendo:

- Eis aqui algumas ferramentas do pensamento, escolham uma, e mostrem-me o que podem fazer.

Um optou pela dialética, o outro pelo relativismo, e o outro pelo fundamentalismo; livremente cada um escolheu. Então o mestre partiu.

Após alguns dias que o mestre se foi, o que recebeu a dialética se deslocou para à acrópole de sua cidade para dialogar, e lá aprendeu o inimaginável e se maravilhou com os novos mistérios que aprendera com os outros. Do mesmo modo, o que optou pelo relativismo descobriu a realidade, mas não aprendeu sobre as boas novas do mistério. Mas o que escolherá o fundamentalismo, escondeu todas as possíveis e inigualáveis probabilidades de crescimento, no buraco de suas certezas.

Muito tempo depois veio o mestre daqueles pensadores e ajustou contas com eles. Foi de encontro ao mestre, o discípulo que havia pego a dialética, e contou a ele o que havia aprendido com alegria e temor – sobre as profundezas do Universo, dos mistérios do Criador e de sua criação. O sábio então disse: Bem está aluno bom e fiel. Ganhastes muito do pouco que tentou. Entra no gozo do inimaginável do seu Criador e aprenda sobre o além dos mistérios .

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Das parábolas Zen contadas no botequim:

“Boatos espalharam-se por toda a região acerca do sábio Homem Santo que vivia em uma pequena casa sobre a montanha. Um homem da vila decidiu fazer a longa e difícil jornada para visitá-lo. Quando chegou na casa, ele viu um simples velho dentro que o recebeu, abrindo a porta.

‘Eu gostaria de ver o sábio Homem Santo,’ disse ele ao outro. O velho sorriu e permitiu-o entrar.

Enquanto eles caminhavam ao longo da casa, o homem da vila olhava ansiosamente em torno, antecipando seu encontro místico e divino com um homem considerado um verdadeiro Santo. Mas antes que pudesse dar pela coisa, ele já havia percorrido a extensão da casa e levado para fora. Ele parou e voltou-se para o velho:

‘Mas eu quero ver o Homem Santo!’

‘Já o fizeste. ‘ disse o velho. ‘Todos que encontras em tua vida, mesmo aqueles que pareçam simples e insignificantes… Veja cada um deles como um sábio Homem Santo. Se fizeres deste modo, então quaisquer que sejam os problemas que trouxeste aqui hoje, serão resolvidos. ‘

E fechou a porta.”

Escutemos a história de um homem que ouvia vozes de todos os seres e com eles conversava.

Um dia, o vento enfurecia. E esse homem lhe falou: “Cala-te, não vês que danificas a vida? Arrancas as árvores, matas os animais, ameaças as pessoas. modera a tua corrida! Ninguém te impede de andar e, com um pouco de calma, chegarás da mesma forma ao teu objetivo, sem causar danos. Na Terra, não existis somente tu e os demais elementos. Há, também, a vida das plantas, dos animais, dos homens. Há lugar para todos, tanto para ti como para eles, porque todos devem viver”.

Ah! o vento não podia ouvir a voz nem compreender os conceitos, não sabia responder. Entretanto, o vento não é coisa morta. É energia, movimento, tem um corpo físico, embora gasoso, é vida. Há, na profundeza de todas as coisas, um oculto pensamento que elas ignoram e que lhes guia a existência. Até nas formas mais simples das combinações químicas e movimentos atômicos. À medida que o ser sobe na escala da evolução, vai tomando pouco a pouco consciência desse pensamento.

Àquele homem sabia ouvir interiormente a voz desse pensamento, que, através do vento, como se ele falasse, lhe respondeu:

- É fatal que eu assim aja, porque fui feito assim e porque fatal é a força que me impele e arrasta. Sou a expressão que veste essa força e outra coisa não faço, senão exprimi-la porque ela é todo o meu eu. Quando ela quer e diminui o impulso, também eu paro, tornando-me carinhosa aragem para as plantas, os animais, os homens, para tudo o que chamas vida e que desconheço. Sou surdo e cego no plano com que falas. Não sei o que seja sentir. Para mim somente o movimento é vida. Quando me falas das experiências desses  seres, não sei o que estás dizendo. Não compreendo o mal que tu lamentas que eu faça, como seja arrancar e matar.

O homem replicou:

- “Mas, por que não compreender?”

E a voz da vida respondeu:

- “O fato de não compreender é alguma coisa de que tens conhecimento para que fales dela, mas de que eu não tenho, pelo menos para as coisas que dizes. Só conheço o que diz respeito à minha existência; somente a ela e não às outras. E como aparentas compreender mais que eu, não entendes que não posso conhecer mais que a mim mesmo? Também tu, conquanto mais adiantado do que eu, não podes conhecer mais do que a ti mesmo.

“Vê bem: só tenho uma alma elementar, mecânica, sem direito de  escolha, sem responsabilidade e sem outras coisas a que dás nomes que ignoro. Sou apenas um cálculo de forças uma fórmula dinâmica, uma férrea com atenação de causa e efeito, como dirias. Cabe a ti, que tens o que não tenho – a inteligência – como a denominas, estudar a minha realidade, que podes penetrar em sua estrutura e significado, coisas minhas que certamente existem e das quais eu nada sei, mas a que obedeço naturalmente. Ignoro quem o saiba por mim. Apenas obedeço. À ti cabe estudar e compreender-me, porque te sou inferior, não me cabendo penetrar-te, porque me és superior. E para evitar o que chamas de males, ignoro o que dizes que eu faço, para salvar deles os seres de que me falas, compete a ti e a eles, que me sois superiores, aprenderdes adefender-vos, não só porque sabeis mais que eu, senão também porque interessaà vossa existência e não à minha usar os meios necessários de cautela. Cada um deve aprender a sua lição, vivendo. Eu, a minha; vós, a vossa. E já que tendes a disposição mais recursos do que eu, deveis aprender coisas mais complexas e difíceis. Pareço estar na ociosidade? Se me agito sempre, é porque também tenho o meu trabalho a fazer e as forças, que são a minha alma, devem resolver problemas e aprender soluções, transformações e equilíbrios que ignorais e quetêm a sua função na harmonia do Todo em que estais e de que tenho necessidade.Tenho a minha função, que cumpro, na ordem das coisas. Não me podeis pedir mais”. Em seguida, o vento retomou a sua corrida, que era a sua expressão devida, e, sibilando, se elevou aos espaços.

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Na selva da vida habitavam uma serpente e uma águia.
A primeira, desejosa de alcançar o cume daquela floresta, começou a escalar a árvore mais alta e corpulenta. E, penosamente, palmo a palmo, foi ganhando altura.
Sanguinária e cruel, a serpente foi ascendendo à custa de muitos animais indefesos que habitavam os galhos e ocos da árvore. Se alguns deles, em legítima defesa de seu território ou de suas crias, ousava fazer-lhe frente, o ofídio acabava ou por envenená-lo ou por lançá-la no vazio.
Assim, valendo-se da força ou da traição, a serpente alcançou, por fim, o alto da árvore. E a luz do triunfo cegou-a.
Nesse instante, a águia da infelicidade abateu-se sobre ela, devorando-a.

(Parábola extraída do excelente livro “A Outra Margem” – do jornalista, pesquisador e escritor espanhol J. J. Benitez – Editora Mercuryo.)

São inumeráveis as histórias dos deuses na cultura hindu. Elas são facilmente correspondentes a mitologia grega em alcance, e significado psicológico. Essa abaixo, sobre Lal Shabaz Qalander, é uma delas que me impressionou em especial:

Um belo dia, Lal Shabaz Qalander estava vagando no deserto com seus amigos Sheikh Baha ud-Din, e Zacarias. Era inverno, estava muito frio, e como a noite se aproximava, decidiram fazer uma fogueira para se aquecerem no acampamento que montaram. Juntaram um pouco de madeira e construíram uma pira, mas depois perceberam que não tinha como acendê-la. Então, Baha ud-Din sugeriu que Lal Shabaz se transformase num falcão, e voasse baixo até o inferno para trazer algum fogo de lá.

Assim ele voou, e horas se passaram. Eventualmente, o deus-pássaro retornou ao acampamento, reunindo-se com Baha ud-Din, mas infelizmente de mãos vazias – sem fogo algum. Friamente e confuso, Baha ud-Din perguntou-lhe porque não tinha trazido fogo do inferno com ele. “Não há fogo do inferno”, relatou Lal Shabaz, voltando-se para sua forma usual. “Todo aquele que vai para lá deste mundo, leva consigo seu próprio fogo”.