Nelson Costa Jr » Psicologia

O que é requerido para alguém poder evocar alguma coisa de memória? A linguagem é requerida? Levando em conta que macacos-rhesus são capazes de evocar algo de memória, e tudo indica que eles não têm linguagem, segue que a linguagem não é requerida.

Uma coisa é ser capaz de reconhecer alguma coisa que já foi percebida no passado, e está sendo percebida no presente. Outra coisa, bem diferente, é ser capaz de evocar livremente alguma coisa que foi percebida no passado. Nós humanos somos capazes de fazer isso, talvez porque sejamos capazes de formar uma evocação pelo uso da linguagem. Essas duas capacidades, o reconhecimento e a evocação livre, são duas modalidades de memória. Há evidências abundantes de que diversos animais que parecem não ter linguagem são capazes de reconhecer. Mas não havia evidências de que tais seres são capazes de evocar. Até agora.

Benjamin M. Basile e Robert R. Hampton, psicólogos da Universidade Emory, de Atlanta, nos Estados Unidos, demonstraram que macacos-rhesus são capazes de evocar memórias, apesar de, ao que tudo indica, não serem dotados de linguagem. Basile e Hampton montaram um experimento no qual se pede a indivíduos da espécie rhesus que reproduzam em uma tela uma configuração de cores que foi percebida no passado, mas não está sendo percebida no presente. Os indivíduos foram capazes de realizar a tarefa, o que demonstra que são dotados de memória evocativa.

Read the rest of this entry »

O espanhol Miguel de Molinos conhecia profundamente os efeitos do silêncio consentido – hoje diríamos assumido – sobre a mente do homem. Para o quietista que converteu Fenelon e Mme. Guénon, “há o silêncio da boca, o silêncio da mente e o silêncio da vontade”.  Malbaratamos energia,  seriedade, sinceridade, nos volteios da conversa frívola, nos exercícios da memória e da imaginação, nos caprichos aparentemente inexplicáveis da vontade. Na “Idade do Ruído”, achamos natural ouvir seletivamente – maneira de não  enlouquecer, ou de não embrutecer completamente os reflexos. O ouvido seletivo é esse que escuta o que quer e fica surdo para o que teme. Preferimos ouvir o que já conhecemos e testamos devidamente a abrir nossos sentidos para um fato que vai  abalar velhas convicções, estruturas enrijecidas pelo temor de estar errado. Não é por outra razão que nos tornamos tão agressivos quando nos propõe revisões desagradáveis de  conceitos que desejamos solidificados para sempre.

Os que “encontraram a resposta” acabam treinando um discurso bastante eficiente,  com toda a argumentação favorável de que dispõe o arsenal da racionalização. Ideólogos, teólogos, apologistas, gurus, apóstolos são identificados não pela proposta que fazem de discutir algum tema, mas pela água que procuram trazer ao seu moinho, à sua convicção previamente escolhida e protegida da lógica num nicho seguro de  argumentos  mais  verbais  que  racionais.  Ouvir seletivamente é uma escandalosa desonestidade, mas esse é um pecado que muitos perdoam com facilidade atualmente, porque quase todos o cometem. Entre as artes perditae de nosso tempo está seguramente a de escutar – muito mais do que ouvir, sem dúvida. Ela consiste apenas em não interferir, em permanecer tranqüilo e receptivo, o que é dificílimo.

“Os grandes acontecimentos do mundo têm lugar no cérebro.”

Oscar Wilde.

Imagine que eu lhe peça para desempenhar um papel muito simples em um jogo. Diante de você estão quatro maços de cartas – dois deles de cartas vermelhas e dois de azuis. Cada carta desses quatro maços lhe rende algum dinheiro ou lhe custa algum, e sua tarefa é virar cartas de qualquer dos maços, uma de cada vez, de forma a maximizar seus ganhos. Porém, o que você não sabe no início é que os maços vermelhos são um campo minado. Os prêmios são elevados, mas quando você perde com as cartas vermelhas, perde muito. Na verdade, você só poderá ganhar pegando cartas dos maços azuis, as quais oferecem uma boa seleção de prêmios de US$50 e penalidades modestas. A pergunta é: Quanto tempo você levará para descobrir isso?

Um grupo de cientistas da Universidade de Iowa nos USA, fez esta experiência há alguns anos e o que eles descobriram foi que, depois de virar cerca de 50 cartas, a maioria das pessoas começa desenvolver um pressentimento a respeito do que está acontecendo. Não sabemos por que preferimos os maços de cartas azuis mas, a essa altura, estamos relativamente seguros de que é melhor apostar nelas. Depois de virar cerca de 80 cartas, quase toas as pessoas descobriram o jogo e podem explicar exatamente por que os dois primeiros maços não são uma boa idéia. Isso é claro. Temos algumas experiências e as analisamos. Desenvolvemos uma teoria. E finalmente somamos dois e dois. É assim que funciona o aprendizado.

Read the rest of this entry »

Para muitas pessoas religiosas, a questão popular “O que faria Jesus?”, é essencialmente o mesmo que, “O que eu faria?”. Diante disso, Nicholas Epley, da Universidade de Chicago nos USA, decidiu pesquisar essa idéia através de um intrigante e controverso experimento. Através da manipulação psicológica e cérebro-exploração, ele descobriu que quando os americanos religiosos tentam inferir a vontade de Deus, eles praticamente inferem suas próprias crenças pessoais.

Estudos psicológicos comprovam que, quando se trata sobre a questão da fé, as pessoas são egocêntricas. Elas usam suas próprias crenças como ponto de partida. Epley constatou que o mesmo processo ocorre quando as pessoas tentam adivinhar a mente de Deus. As opiniões e atitudes no final, são reflexos das crenças que cada indivíduo tem. “As mesmas partes do cérebro humano que definem as crenças, são as mesmas partes que definem a vontade de Deus”, disse Epley.

Read the rest of this entry »

Hoje, a freqüente emergência de movimentos religiosos, assim como o empenho aplicado ao fortalecimento das instituições que sobrevivem da veiculação do sagrado, nos demonstram até que ponto o território dos fundamentalismos tem se difundido. É possível, inclusive, que os vínculos que unem a civilização ao sagrado sejam mais fortes em nossa época do que o foram em outros momentos históricos. A zona limítrofe à qual a história da civilização nos trouxe causa tanta perplexidade que a retomada do culto ao Eterno não faz outra coisa senão ilustrar a tentativa de suportar o choque de uma realidade irremediavelmente fragmentada. A difusão do sagrado testemunha a súplica desesperada para que os estilhaços dessa realidade sejam reunidos, ainda que de modo bastante precário, a fim de restabelecer sua unidade imaginária.

Por essa razão, Lacan (2005) dirá que a religião está destinada a triunfar em nossa época. O triunfo da religião sobre a ciência e também sobre a psicanálise se justifica porque, na prática religiosa, Deus é a garantia de que há, ainda, uma verdade estável e permanente. O Onipotente confere estabilidade para aquilo que é, em si mesmo, pura contingência. Realizando um movimento contrário, a ciência e, mais precisamente, a psicanálise, nos informa que o estado real de nossa realidade é exatamente aquilo que podemos assistir a olho nu, e que as mídias, ao seu modo sensacional, não cessam de nos informar: jogo contínuo com o imprevisível, ausência de garantias ou controle.

Read the rest of this entry »

É indiscutível a capacidade intelectual de Slavoj Zizek, autor internacionalmente reconhecido de importantes livros, alguns dos quais já publicados em língua portuguesa. Devido, justamente, a esta capacidade é que fiquei espantado com a quantidade de erros grosseiros em seu artigo publicado no caderno Mais com o título “Luta de Classes na Psicanálise”, que trata da diferença entre Freud e Jung (?). Esta interrogação indica uma dúvida que tive ao ler o supracitado artigo: quem é o Jung de Zizek? Parece-me que este Jung é a leitura popularizada, domesticada e pasteurizada executada por Joseph Campbell, mais o “new age” insosso, repetitivo e apaziguador de James Redfield, mais a estranha interpretação “junguiana” de Takovski, somadas às opiniões que Freud e Lacan possuem de Jung, tão parciais e capengas quanto às de Jung em relação a Freud.

Nada disso, porém, é realmente novo. Uma das “coisas” que os críticos de Jung têm em comum é a ausência quase que total de parâmetros mínimos para um razoável trabalho crítico, ou seja, começar sempre pela leitura atenta e criteriosa do autor em julgamento. Isto não foi feito por Zizek. Não há indícios que apontem quais livros de Jung foram lidos, sem falar na fortuna crítica, que no caso junguiano é bastante rica. A única citação existente é do livro “Memórias, sonhos e reflexões”, onde Jung menciona a palavra rizoma que Zizek, apressadamente, identifica com o rizoma deleuziano. Este trecho, de qualquer maneira, encontra-se logo no início do livro, o que não deixa claro até onde ele prosseguiu na leitura direta de Jung.

Read the rest of this entry »