Pedras estão fora do tempo. O tempo lhes é uma realidade exterior: o vento que sopra, a água que corre… São imutáveis, sempre as mesmas, porque estão mortas. Para a pedra tudo é igual. Indiferentes ao mundo que as cerca. São sempre as mesmas. Porque estão mortas. As plantas estão vivas. Porque estão vivas, as plantas estão sempre se transformando numa outra coisa, diferente do que são. A vida não suporta a mesmice. Nascer, crescer, envelhecer, reproduzir. Nenhuma planta é igual a si mesma num momento subsequente de tempo. As pedras nem nascem, nem crescem, nem envelhecem, nem se reproduzem. São eternas. São sempre as mesmas. Mortas.
Rubem Alves.
Os grandes conflitos da vida podem pôr em risco a experiência de Deus, porque a experiência de Deus é uma caminhada nunca assegurada. Toda tradição fala dos três caminhos. O primeiro é positivo, vai pela luz, pela bondade. O segundo, negativo, é a negação dos sentidos e da mente. No fim, a transfiguração, a exaltação, onde se capta Deus para além dessas contradições.
No processo de experiência de Deus, colocam-se em crise as imagens de Deus. Há muitas pessoas com uma experiência trágica na vida, de morte, assassinato, violência. Como Deus pode ser Pai se permite isso?, perguntam-se, e entram em crise. Na verdade, o que entra em crise é a nossa projeção de Deus como Pai, o nosso conceito de Deus como Pai.
O grande grito de Cristo na cruz: “Pai, Pai, por que me abandonaste?” destruiu a imagem de Deus como Pai de infinita bondade, que iria intervir, salvar o Messias em risco no momento em que o Reino seria instaurado…Deu-se conta, então, de que o Reino não vinha assim, como se imaginava empiricamente.
Jesus continua a crer. Grita contra Deus: “ Por que me abandonaste ?” mas continua a chamá-lo Pai. Só que agora o Pai é o outro Pai. Deus-Pai é luz e bondade. Só que outra luz e bondade. A crise vai destruindo imagens de Deus e reconstruindo outras.


