Nelson Costa Jr » Teologia

Então Deus vos será santuário; mas servirá de pedra de tropeço e de rocha de escândalo – Isaías 8.14

Não se iluda, o privilégio da razão é nada além do mais original e poderoso etnocentrismo. No fundo, todos nós negamos nossas dúvidas.

Se há uma coisa que se destaca em nosso panorama de mais de mil anos de debates entre os filósofos e teólogos no mundo é que nenhum sistema de filosofia ou teologia já se revelou completo, independente, ou perfeito. Filósofos e santos engenheiros sociais, já prometeram diversas utopias sem margem de erros, mas de acordo com as Escrituras – que está cheia de erros, fracassos, anedotas sobre a vida, destino, pecado e graça – sempre erraram, e irão errar. Não existe nenhuma conclusão filosófica ou teológica perfeitamente verdadeira – uma hermenêutica única para todos. O Pentateuco – cinco primeiros livros da Bíblia – é uma amálgama de pelo menos quatro diferentes fontes teológicas – Eloísta, Javista, Sacerdotal e Deuteronomista – que dão suporte para tal teoria. Temos também, quatro conflitantes versões sobre a vida de Jesus em Mateus, Marcos, Lucas, e João que arrebentam com tudo – Meu Deus! Sem levar em conta as epístolas paulinas. Está claro que não há uma hermenêutica teológica clara sobre Deus, Cristo, ou de toda a história apresentada nas Escrituras – apesar de nossa tentativa de fingir que não exista.

O único padrão e concordância consistente que podemos encontrar nas Escrituras é que, em todos os livros da Bíblia, de alguma forma, Deus está conosco e nós não estamos sozinhos. Que nossas interpretações nada mais são do que constantes renovações de interpretações mau negociadas da imagem do todo-poderoso.

O bom de tudo isso, é que a tragédia que envolve a hermenêutica, não é totalmente trágica, pelo menos numa visão ampla. Isso tudo nos mostra – quando ligamos o passado ao futuro – que o presente nos prepara para fracassarmos ideologicamente, para termos um melhor resultado no futuro, ao qual hoje felizmente não entendemos – A vida sempre está à frente da teoria. No final, “hermenêuticamente falando”, estamos somente tentando juntar o grande desfile da evolução humana – ao qual anda à frente de nós – e explicar seu futuro como bons idólatras adivinhadores.

A teologia precisa fracassar, sua hermenêutica necessita morrer, para que Deus seja glorificado – Como no Velho Testamento, precisamos do bom incenso para cobrir e esconder o pecado de nossas epistemologias. O sentido trágico da hermenêutica não é a descrença, o pessimismo, fatalismo, ou cinismo. É apenas a humilhação do último realismo, que por algum motivo, nos ensina e exige que aprendamos a perdoar. Que nos mostra que a fé é simplesmente confiar e agir no real, e que Deus se faz presente nele. E por fim, com o auxílio de nossas pedras de tropeço, a realidade nos da um coração humano e contrito, para algo mais da parte de Deus do que nossas pequenas e absurdas hermenêuticas.

Não possuo a dádiva da escrita, da poesia, ou muito menos da teologia. Sou artista, e não um intelectual – acredito que o intelectual é o homem que reflete sobre os fatos, o artista, por sua vez, concebe coisas. Então diria que sou um artista que vive na escuridão. Utilizando do velho inspirador Belchior, resumiria dizendo que sou um rapaz latino- americano apaixonado por Johnny Cash , cerveja , Cristo, e que sabe muito bem que essa estória sobre Deus dizer que cristão nasceu para ter sucesso, e que foi separado da totalidade humana, é uma das maiores lorotas que o Cristianismo já inventou.

Isso. Seja bem-vindo a minha teologia da escuridão – Receio que minha apresentação mal possa satisfazer o excesso de expectativas despertadas pelo título; se é que houve alguma.

Mas enfim, deixe-me explicar minha posição:

Não acredito nessa conversa fiada de crente ser superior. Não acredito nessa velha história de crente ter sido predestinado para ter sucesso, ou ser separado da totalidade do Mundo – Acredito que os limites não são tanto entre etnias, religiões, nações, seitas, mas se situam mais entre concepções de mundo, posturas, razão e fanatismo, paciência e histeria, criatividade e desejo exterminador de poder.

Por quê?

Felizmente, graças ao bom Criador, a história, e as muitas narrativas bíblicas, científicas e filosóficas, podemos ver que, o que vivemos como evangelho hoje é uma farsa – Só que muitas vezes não queremos aceitar. Não afirmo ter a razão, pelo contrário, só digo que o bom amor, se acha em perigo mortal, perigo esse oprimido pela política, pela farsa ideológica, e pela nossa necessidade de manter as velhas mentiras.

Logo, o que fazer? Buscar algo que nos quebre! E aqui, gostaria de deixar algumas sugestões para reflexão. Deixar um tipo de oração e justificação natural, do porque que não acredito que o Cristianismo seja uma constelação especial, ou que possua uma teologia única e verdadeira . Então digo:

  • A história claramente relata que as forças do bem e do mal produzem catástrofes, mutações, falhas, tragédias, erros e impossíveis dilemas de serem resolvidos – A natureza, respira mais desordem do que ordem, mais multiplicidade do que uniformidade, além de coroar o final de suas causas com a morte. Seja para cristão, ou não cristão, por isso:

Oremos ao Senhor!

  • As Escrituras berram o sofrimento de cada personagem bíblico, além de nos mostrar um Cristo que padeceu – como muitos da humanidade – a injustiça dos poderes, para depois, antes de subir ao céu, gastar um tempinho no inferno. Por isso:

Oremos ao Senhor!



  • Em nosso tempo, a física quântica demonstra a falência da velha mecânica newtoniana – que tudo claramente possui causa e efeito. Se não acredita, sente e observe o contínuo processo de busca que os “sábios” de nossa era fazem, para encontrar novas regras, e novas lógicas para suas teorias. Por isso:

Oremos ao Senhor!

  • Verdade de hoje em dia? Basta analisar o trágico sentido da vida – já disse Unamuno. Fé inclui razão, mas é uma categoria maior do que conhecimento. Vida possui organização, porém, é caracterizada pela desorganização – Renovação e perda, morte e ressurreição, caos e cura ao mesmo tempo; a vida é uma colisão de opostos. Por isso:

Oremos ao Senhor!

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Por trás.

postado em: Nelson Costa, Teologia

Por trás de um sorriso constante. Por trás de quem sempre tem resposta para tudo. Por trás de quem nega suas dúvidas. Por trás de quem conhece como Deus funciona. Sempre há uma neurose mascarada.

A verdade acerca dos absolutos divinos é um milagre que nem o dinheiro ou a epistemologia compram – É um mistério que, com o auxílio da dúvida e da fé, não só permite um entendimento evolutivo, mas com freqüência nos providência alcançá-lo em partes. Qualquer coisa além disso é tirania.

Claro, buscar o conhecimento é digno mas, por que precisamos sempre de pontes para alcançar o simbólico? De qualquer forma, o teologicamente correto é o novo coreto e, diante disso, o Cristianismo vai tomando bomba de graça sem precisão.

Está claro que a esperança não é lógica – mas uma participação que o indivíduo tem no próprio mistério de Deus. Felizmente ou não, mesmo diante de divinos mistérios, alguns arriscam-se em provar como funcionam os desígnios do Altíssimo. Ai o problema começa! Não foi à toa que Willian Lane Craig tomou mais uma de Dan Dannet – Um cientista cognitivo que,  particularmente, vivo tentando contestá-lo.

O pessoal da rebeldia metafísica capturou o discurso do cientista filósofo, e disponibilizou para seus leitores. Li, gostei, e decidi disponibilizar aqui no blog – Mesmo discordando de algumas idéias do Dennet, prefiro dizer que está mais lúcido que  Willian Lane Craig.

Para quem deseja uma boa leitura, eis ai o discurso do Dennet:

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Teologia do Capeta.

postado em: Teologia

“O diabo pode citar as Escrituras quando isso lhe convém”.

William Shakespeare

A ironia no desenvolvimento de um pensamento teológico é quando alguém defende seu ponto de vista – insistindo ser bíblico -, citando autores humanos e raciocínios desenvolvidos no decorrer dos anos. Isso é um tiro no próprio pé.

Por quê?

Não apenas porque os detentores de tais raciocínios eram seres humanos, mas também, porque nós somos homens interpretando outros homens como se de alguma forma estivéssemos lendo Deus – Fechando todas as possibilidades de alguém discordar.

O perigo de tal pressuposto?

Criarmos hierarquias de pensamento ao qual, como reis e rainhas, nos da licença para determinarmos qualquer diabo que seja – Velha história: Não é uma questão de quem está certo ou errado, é uma questão de quem tem os melhores argumentos e a melhor política. Não é uma questão de buscar a multiface do amor, mas de buscar o que interpreto por amor.

Sério? O Criador do Universo está envolvido nisso?

Com certeza muitos possuem um argumento para dizer que sim.

Constantino, Hitler e muitos outros, achavam que estavam fazendo o trabalho de Deus em suas épocas. Que a interpretação que faziam era suficientemente lógica para agirem como agiram. Não me admira o crescimento do número de ateus hoje em dia. Não estamos vendendo salvação novamente? Não estamos vendendo sucesso, dinheiro, e a mente de Deus de alguma forma?

Como resolver então os impasses teológicos da era?

Voltando-se ao amor, e a necessidade de comunhão entre os homens. Buscar uma abordagem bíblica fundamentada no simples fato que, debaixo de nossa pele somos todos iguais. A Bíblia não foi escrita por reis e rainhas ou para reis e rainhas, mas, para pessoas comuns como eu e você; que não necessita de anos de treinamento para interpretar algum versículo, mas só de aprender como praticar o amor. Enfim, ajudar a sociedade a descobrir a divindade que está disponível em cada ser humano.

Páscoa: para mim, a Paixão Segundo João. Para ser franco, nem tanto pela “Páscoa”, mas pelo o exemplo de Cristo, pois, na verdade, o que comemoramos em nossos santos feriados?

Os cristãos costumam falar sobre o mistério pascal  – O processo de perca e renovação personificado na morte e ressurreição de Jesus. Podemos afirmar que, acreditamos no mistério da Sexta-feira Santa e na magia do Sábado de Aleluia.

No entanto, como na cruz do Calvário, se não perdermos nossa fundação em tal mistério – nosso solo tão seguro e recheado de confiança e inspiração – não poderemos ter a experiência da Páscoa que nos humilha, mata, e depois ressuscita.

O mistério pascal é baseado numa doutrina que nós cristãos cremos, mas de alguma maneira  perdeu-se no meio da santa intelectualidade. Sim, parece que em nosso tempo tal mistério  transformou-se em sinônimo de necessidade ideológica. Nos esquecemos que é preciso haver penúria, dúvida, sede insuportável, para que – embora tal mistério nasça como um toque de mágica em nossos corações – o cordeiro aflore em nossas vidas.

De qualquer forma, é necessário buscar o conhecimento, mas entender que a pedra angular não se encontra nas mãos dos construtores de sistemas – Aliás, ela foi rejeitada por eles. O mistério pascal se encontra na vida,  no encontro,  no mistério e na redenção que oferecemos uns aos outros. Em outras palavras, ele vive no cotidiano. Ele vive nos limites aos quais, através dos conselhos de Carl Jung, eu descreveria da seguinte maneira:

[…] ainda são poucos os que se perguntaram se não serviriam melhor à sociedade se iniciassem a mudança da ordem atual consigo mesmos, se pela primeira e única vez experimentassem em si próprios as leis e as vitórias que pregam em todas as esquinas…

Todo homem carece de uma transformação e de uma páscoa radical, sem impô-la aos semelhantes sob a roupagem do amor cristão ao próximo, num semblante de sentimento de responsabilidade social ou outras belas palavras que brotam do reino do inconsciente de cada um. Somente uma introversão na direção da própria alma, o resgate dos fundamentos das capacidades individuais e sociais, pode dar início à cura da cegueira que impera na Igreja de hoje.

“Quem seria Platão se não tivesse existido o conflito entre a dialética de Heráclito e os paradoxos de Zeno?”

Pretende-se demonstrar no presente  texto que, quando uma teologia é tencionada para um lado do elástico epistemológico, sem considerar o outro, ela se torna excessiva.

Por teologia tencionada, entende-se o conflito da dialética – conflito entre tese e antítese em prol de uma nova síntese  – Por um instante, refutar uma teologia se torna fácil, mas ser sincero diante da ignorância de tal refutação, não. A teologia excessiva por outro lado, é uma exegese ilusória, que procura demonstrar que existe uma teologia correta, e outra errada.

Sem o anseio de advogar por qualquer tratado teológico, mas, por um emergentismo teológico, posso dizer que a teologia se vulgarizou nas dimensões do simbólico, levantando-se acima da causa primeira. O “vamos fingir que as teologias funcionam”, oculta o fato de que as instituições eclesiásticas cristãs contemporâneas estão perdendo espaço, e que, de fato, a maioria das pessoas já não mais acreditam nelas. Os fatos catastróficos que um dia comprometeram a teologia ortodoxa, estão à tona mais uma vez, aniquilando o que sobrou dela; o fato da ortodoxia tentar sobressair o processo evolutivo acaba comprometendo sua imagem. Existe um conto britânico muito interessante que de alguma forma, explica essa soberba teológica comprometedora de hoje:

Dois conterrâneos não se viam há mais de anos devido a tragédia da segunda guerra mundial que sucedeu-se na vida de um deles. O prejudicado pela guerra, depois de algum tempo, voltou à sua terra natal para rever a região e o velho amigo. Quando chegou na terra que um dia morou, a primeira coisa que fez foi visitar o saudoso companheiro de infância. Chegando na casa do camarada se abraçaram e, rapidamente, aquele que “aparentemente” havia-se dado bem por não ter ido à guerra, foi mostrar ao colega sua propriedade; alguns terrenos protegidos por duas diferentes cercas.

Depois de horas mostrando tudo que havia construído, e tentando sobressair-se sobre o veterano que, em silêncio pensava sobre a lógica de tudo, de forma irônica o sujeito iludido perguntou:

- E você, que fez da vida depois da guerra? O que construiu?

Sem jeito, o amigo visitante comentou de suas lutas e disse que, por sorte, adquiriu uma fazenda ao qual, se dirigisse com seu carro durante duas horas ao Norte da região que se encontravam e voltasse, possivelmente não chegaria ao final das terras que ganhara.

O amigo, agora com uma certa inveja, retrucou:

- Ah, sei como é que é, eu tive um carro desses!

Como num jogo mimético, a teologia excessiva sai procurando por um culpado, e acaba se auto condenando. Ela segue isolando cada vez mais o homem de seu território, do cenário do seu destino, de sua queda ou elevação, e sua indústria fica sobrevivendo do desejo de evitar que, o cristão, por si só, descubra sobre sua certeza comercializável. Um fato muito interessante para descrever tal situação, é o problema entre os franceses em interpretar a natureza do fenômeno social religioso de Èmile Durkheim: Crentes, no âmbito francês, tendem a ver em Durkheim um ateu que reduziu a religião ao social, enquanto os anglo-saxônicos, curiosamente, o consideram uma espécie de místico que reduziu a sociedade ao religioso. Como se não bastasse, a revista norte americana Time, no início de Março desse ano, lançou uma matéria mostrando que desde 1990, o número de pessoas sem afiliação religiosa nos Estados Unidos dobraram, colocando a Igreja num momento sociológico muito delicado diante de um ano eleitoral. Em última análise, percebe-se que, não existe mais “Teologia” – que leva em consideração os aspectos importantes que permanecem dentro de nossa existência -, mas sim, a teologia em que minha tribo considera.

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Se em todas as outras religiões, Deus pede a seus seguidores que lhe permaneçam fiéis, só Cristo lhe pediu que o traíssem para cumprir sua missão. Na sua frase “Pai, porque me abandonaste?”, o próprio Cristo comete aquilo que é o pecado supremo para o cristão: ser abalado na sua fé. Na história aterradora da Paixão está claramente indicado que o autor de todas as coisas conheceu não só o sofrimento extremo como a própria dúvida. No cristianismo, Deus morre não para os homens, mas para Si mesmo. Quando Cristo morre, o que morre com ele é a esperança secreta discernível na frase: “Pai, porque me abandonaste?” O ponto principal do cristianismo é antes o ataque ao núcleo religioso duro que sobrevive mesmo no humanismo, até no stalinismo. Só é possível redimir esse núcleo do cristianismo pelo gesto que consiste em abandonar o escudo da sua organização institucional: ou abandonamos ou conservamos a forma religiosa, mas perdemos a essência. Para poder salvar o seu tesouro, tem de se sacrificar a si mesmo, como Cristo teve de morrer para que o cristianismo pudesse emergir.

Enquanto o olhar do budista está voltado com uma intensidade peculiar para o Interior (a imersão na Verdade): o cristão contempla o Exterior (o encontro traumático com a Verdade) com uma intensidade fulgurante. A rápida industrialização e militarização do Japão nos últimos cento e cinquenta anos, por exemplo, com a sua ética da disciplina e do sacrifício, foi apoiada pela grande maioria dos pensadores zen e hoje se assiste ao fenômeno corrente do zenindustrial entre os dirigentes japoneses. A atitude de imersão completa no ‘agora’ da Iluminação imediata – onde o ‘eu’ não existe e toda a distância reflexiva abole-se. No entanto, eu ‘sou o que faço’, desde que isso resulte de uma disciplina absoluta que coincida com uma espontaneidade total, o que legitima perfeitamente a subordinação à máquina social militarista. Verifica-se uma oposição, onde se situa o discurso zen, entre a atitude reflexiva que temos na vida cotidiana (desejamos a vida e tememos a morte, lutamos por prazeres em vez de agirmos diretamente) e a posição daquele que recebeu a iluminação (ao mostrar que a diferença entre a vida e a morte deixou de ter importância). Deste modo, é exatamente nesta oposição que nos redescobrimos na unidade original em que o ‘eu’ não existe e que somos diretamente o nosso ‘ato’. Os mestres militares interpretam a mensagem zen fundamental (a libertação está na perda do ‘eu’, na união imediata com o Vazio primordial) idêntica à fidelidade total dos soldados, com sua obediência mecânica às ordens, na medida em que realizam o seu dever sem consideração pelo ‘eu’ e por seus interesses. Os soldados são levados a marchar de modo a levá-los a uma espécie de subordinação cega e a fazê-los obedecer como marionetes.

Não há reencarnação, há apenas esta vida que é diretamente idêntica à morte, assim o guerreiro já não age como uma pessoa, ele está totalmente dessubjetivado, ou conforme D. T. Suzuki: “no caso do homem que ergueu o sabre por obrigação, não é ele que mata, mas o próprio sabre”. É o próprio sabre que realiza o ato de matar, é o próprio inimigo que se apresenta e se transforma em vítima – eu nada posso fazer a esse respeito, estou reduzido a observador passivo dos meus próprios atos. Qual a diferença entre a legitimação da violência do ‘guerreiro zen’ e a longa tradição ocidental, que vai de Cristo a Che Guevara, apregoa também o recurso à violência, mas como ‘obra do amor’? De um lado, em uma ‘guerra da compaixão’, o verdadeiro guerreiro mata por amor, assim o zen militarista se justifica de maneira contraditória: ‘a guerra é um mal necessário empreendido para engendrar um bem superior – qualquer batalha, seja qual for, deve ser travada para antecipar a paz’. De outro, “se alguém vier a mim, e não aborrecer seu pai e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo”, palavras de Cristo, às vezes escandalosas, transmitidas por Lucas.
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Gosto muito de imaginar que a Bíblia foi inteiramente redigida por uma espécie de Alexandre Dumas ou Eugène Sue da época. Que ela não passa de um folhetim estritamente popular, redigida para fazer uma grana e para distrair um público muito amplo, um folhetim passivelmente aberrante cujo autor inventava as peripécias entre dois litros de vinho, morrendo de rir a cada novo episódio.


SERNBERG, Jacques. Dictionnaire du mépris. Paris: Calmann-Lévy, 1973.

É óbvio que tal aforismo seria plausível se o amor de Deus fosse condicionado como muitos “líderes” religiosos costumam dizer pelas esquinas. Se Deus não ama pessoas imperfeitas, Deus não tem ninguém para amar; eles  esquecem disso.  Sim, o amor é incondicional, porém, tais líderes ficam vendendo água na beira de rios. O amor incondicional não divide, mas unifica, porque a universalidade da cruz se ilumina, ou seja, quem poderia questionar o que é possível para Deus?

Até Deus tem um inferno: é o seu amor pelos homens – Nietzsche.

O amor condicional de Deus é a grande novidade do século, a experiência horrenda que destruiu… o que mesmo? Tudo, em particular uma imagem graciosa, perfeita, concebida para o homem da parte de Deus sobre Deus. Até que ponto um comentarista bíblico deveria se preocupar em fornecer uma paráfrase sistematizada sobre amor incondicional? Até onde a limitação do teólogo sobre o amor incondicional deveria ir?  O objetivo de muitos teólogos é reproduzir toda a dimensão do amor em um sistema conceitual coerente. A teologia aspira à absoluta clareza do conceito; o amor tem que ser condicionado, caso contrário não é amor – Uma castração patética de uma figura paternal humana que nada tem com o divino. Como diz meu velho Pai: Faça uma análise dos Pais de quem prega o Evangelho para saber qual deus está falando. Repito: Qualquer amor condicionado não tem valor. Não absorve a dor da alma ou corrigi os incoerentes súbitos da vida. Não dá uma segunda chance, porque, como os “santos” homens dizem : Se houvesse outra chance, você de forma alguma aceitaria o amor de Deus – Talvez o próprio Cristo diria: Não posso salvar-te, você está condicionado ao amor condicional. Será?

porque percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o tornais duas vezes mais filho do inferno do que vós – Mateus 23.15

Não sou capaz de formular melhor: “A fumaça do amor condicional, predeterminado por aqueles que podem responder tudo sobre a guerra, mas nunca viveram uma, projetou uma sombra longa e escura na Igreja, enquanto suas chamas marcam a fogo um sinal indisfarçável no ego dos capazes”. Bem disse Václav Havel: Sempre há algo errado no intelectual do lado vencedor.

Não é a idéia que se reflete no amor incondicional, mas o trabalho cheio de suor, sangrento, dificultoso, de Deus. Que sofre junto. Que se faz fraco para ser forte. Caso contrário, que relação teria com o amor condicionado, o banido, o estrangeiro, o marcado, de quem chicotes arrancaram  o direito humano, a confiança em Deus?

A tentativa de superação de um homem derrubado não se apóia em condições permutativas, a não ser se houver intenções políticas. Amor tem que gerar esperança; e sem a esperança de um amor incondicional, o amor se atrofia. Nenhuma paráfrase, nenhum comentário ou teologia sistemática pode jamais esgotar as riquezas do amor de Deus – Só o ego.  No final, só o amor desinteressado que não se preocupa com prêmios ou glórias, pode gerar luz ao espírito desacreditado. Pode demonstrar que Deus existe. Temos de visualizar com clareza essa esperança: O Carrasco não é o amor incondicional, mas um conceito nebuloso, a condição.

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Dualismo

Não és bom, nem és mau: és triste e humano…
Vives ansiando, em maldições e preces,
Como se, a arder, no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano.

Pobre, no bem como no mal, padeces;
E, rolando num vórtice vesano,
Oscilas entre a crença e o desengano,
Entre esperanças e desinteresses.

Capaz de horrores e de ações sublimes,
Não ficas das virtudes satisfeito,
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes:

E, no perpétuo ideal que te devora,
Residem juntamente no teu peito
Um demônio que ruge e um deus que chora.

Olavo Bilac

É muito fácil assumirmos que nós estamos do “Lado de Deus”, e outros não. Que estamos seguindo o melhor papel da narrativa que está sendo contada. Que estamos do lado certo do rio. Devido a isso, criamos outras narrativas sobre a fé, o amor, a política, e usamos o tal “Deus” para reforçar nossas suposições, sem nunca permitir que o Deus que vai além do “nosso Deus”, desafie nossas ações, narrativas e crenças. Criamos uma “verdade eterna”, pressuposta num subconsciente que denominamos por “sadio”. Nos esquecemos que conflito é sinônimo de verdade, e que a verdade  não é a solução que nos mostra a luz no fim do túnel, ou  uma entidade que descobre e desvenda os mistérios da vida. Confundimos a verdade em dualismos e determinamos que ela é parte de uma construção de fatos – Verdade de forma alguma está em conformidade com nossa realidade interior “o aqui”, ou com nossa realidade exterior ” o lá fora”. A verdade simplesmente é!

O fato é que, neste início de século tudo se desvelou, ao menos uma vez tudo mostrou a verdadeira face, tudo se tornou mais real. O cristão se converteu em juiz por vocação, a fé individual, em crime, o pregador se aparelhou com fornalhas teológicas para queimar o espírito humano, numa Igreja, o jogo sujo da lei, na prisão dos fiéis, a necessidade da fé se tornar um ato masturbatório. O ser em si, livre em Deus, ainda depende da crença do anunciador das “boas novas” – A partir das armadilhas das exceções, esse costuma ainda dividir a racionalidade e irracionalidade, como se as duas fossem forças naturais contrárias. Assim, o Deus que pregamos, a religião que defendemos, ou melhor, que dizemos ser a correta, não possui fundamentos nas necessidades reais, mais no incompreensível mundo interior de cada indivíduo; em respostas que a metafísica nem se quer se aventura em responder.

Sem que eu queira, paralelos epistemológicos vêm-me à mente:

  • Criacionismo  X  Evolucionismo.
  • Justificação pela fé   X  Justificação pela prática.
  • Iconoclastia reformada  X   Iluminismo.
  • Corpo  X  Espírito.
  • Poderes dominantes  X   Não-violência.
  • Liderança  X  Comunidade.
  • O problema do homossexualismo

Não sei. Sou teólogo, conto com poucas informações, e as que tenho também me parecem excessivas. Não sei se essa visão protestante de Deus é real ou apenas uma impressão do meu ouvido tradicional. Porém, o momento nos propõe, indiscutivelmente, questionar  nossas estimulações filosóficas brancas, ou escuras, levando em consideração o que Carl Jung um dia perguntou : Muito bem, mas que espécie de mito vivemos nos dias de hoje?

Entre  titãs do Cristo e cavaleiros da dúvida, seguidores e pioneiros, poucos tem tido a coragem de sair do conforto de acreditar no que o pregador diz. De sair da prática sistemática que espera primeiro os heréticos descobrirem algo, para depois reformularem suas teorias, deixando assim de mergulhar no Espírito da narrativa que sempre tem algo melhor para oferecer. Atolados em sofismas filosóficos, em distorções escolásticas, em dogmas frios, muitos ainda abraçam certos traços religiosos que, em meio ao mau cheiro do dualismo, vestem a máscara da cópia absurda teatral, para assolarem uma platéia simples que não consegue observar o Deus que está fora de toda  parafernália.

Tudo se torna uma pornografia santa, recheada de admiradores secretos que, se masturbam hoje, e pedem perdão amanhã, claro, tudo às escondidas.

Que tipo de brincadeira é essa? Os horizontes da nossa vida cotidiana são limitados por esses argumentos, argumentos esses que falam – no final – do bem e do mal, e os sons desses sussurros intermináveis acerca do bem e do mal movem nosso mundo. Eles geram prazer em nossa narrativa e ocupam a mente e o coração daqueles que gostam de definir Deus. Por isso que, ainda as palavras do grande artista russo Tchekhov  ecoam em meus ouvidos: “ Não sei, juro pela minha alma, pela minha honra, não sei”.

Precisamos desfazer as dualidades que existem em nós, e ao mesmo tempo unificá-las para descobrir as diferentes razões do ser, em busca de servir aquilo que Deus mais ama, o homem. Querendo ou não, a fumaça da pós-modernidade já retirou o firmamento disfarçado das lógicas que impedem tal atitude misericordiosa, e mostrou o escândalo do Caim moderno. Hoje, como na antiga Roma,  muitos denunciam os bárbaros, se esquecendo que, quando Roma foi invadida, ela já havia se tornado bárbara por si mesma. Ou seja, os detentores da “verdade”, denunciam os de espírito livre, os relativistas, sem levar em conta que eles, os próprios santos, foram os progenitores daqueles que hoje condenam a fé. Enfim, ninguém quer acabar com a brincadeira!

Já classificou São Tomas de Aquino a masturbação como um pecado contra a natureza. Já disse Hegel que, os que exageram o argumento, prejudicam a causa. Oscar Wilde já constatou que, se quisermos dizer a verdade às pessoas, devemos fazê-las rir; do contrário, elas nos matarão. Enfim, meu grande amigo Peter Rollins, em diversos momentos, sempre fala de um conto Irlandês que acredito que caia bem para essa situação:

Diz a história que certo jovem tinha um bar em Dublin que sempre aconchegava militares da região. Como parte da diversão desses militares, eles sempre faziam tal jovem ficar bêbado – o jovem gostava pois, lhe rendia uns bons trocados e uma cervejinha na faixa. Numa certa hora da noite, alguém do grupo dos militares colocava uma nota de cem euros na mesa, e uma moeda notável que não possuía valor algum. Pediam para o inexperiente menino escolher uma das duas. O jovem, já alcoolizado, escolhia sempre a moeda, invés da nota de cem euros – Todos riam no final devido tal atitude do garoto. Um belo dia, alguém de fora viu e, perguntou ao jovem se ele tinha algum problema, pois ele nunca pegava a nota que representava o maior valor. Então, o jovem respondeu ao questionador: “Eu sei que o papel vale mais do que a moeda, mas se eu pegá-lo, a brincadeira acaba, e eles nunca mais retornam ao meu bar”

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