Nelson Costa Jr » Teologia

Os Doze Princípios da Espiritualidade da Criação

1. O Universo, e tudo dentro dele, é fundamentalmente uma benção. Nossa relação com o Universo preenche-nos de admiração.

2. Na Criação, Deus é tanto imanente quanto transcendente. Isso é panenteísmo, que não é teísmo (Deus lá fora) nem ateísmo (nenhum Deus em lugar nenhum). Em nossa experiência, o Divino está em todas as coisas e todas as coisas estão no Divino.

3. Deus é Mãe, Filho, e Pai; é Deus em mistério e o Deus na história; está além de todas as palavras e imagens, e em todas as formas e seres. Estamos libertos da necessidade de apegarmo-nos a Deus em uma forma ou um nome literal.

4. Em nossas vidas, é através da obra da prática espiritual que encontramos nosso verdadeiro e mais profundo eu. Através das artes de meditação e silêncio, cultivamos a clareza da mente e nos movemos além do medo rumo à compaixão e comunidade.

5. Nossa obra interior pode ser compreendida como uma jornada quádrupla que envolve:

  • admiração, deleite, surpresa (conhecidos como Via Positiva)
  • incerteza, escuridão, sofrimento, abandono (Via Negativa)
  • parto, criatividade, paixão (Via Creativa)
  • justiça, cura, celebração (Via Transformativa)

Tecemos através dessas sendas como uma espiral dançada, e não como uma escada subida.

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- Sobre o valor dos argumentos ontológicos –

Um argumento ontológico é aquele que usa somente a razão e a intuição para chegar a uma conclusão, muitas vezes a conclusão de que Deus existe. Parece-me que qualquer tentativa de produzir conhecimento confiável sobre o mundo exterior unicamente pela combinação de palavras em algum idioma é ilegítima. É claro, o mesmo se aplica a qualquer linguagem — até mesmo a linguagem utilizada na matemática. Os fisicos reconhecem que mesmo a mais elegante das teorias elaborada em termos matemáticos deve em última instância ser testada e validada por observações empíricas. Eles projetam, a um custo assombroso, experimentos como o Grande Colisor de Hádrons (LHC, na sigla em inglês) com o obejtivo de descobrir os segredos do universo. Os teólogos, contudo, parecem estar livres de tais constragimentos; eles simplesmente encadeiam palavras em algum idioma para atingir o mesmo objetivo. Seria esta abordagem válida?

Demonstrarei que todas as tentativas de gerar conhecimento devem ser fundamentadas em observações empíricas. Os argumentos ontológicos pressupõem implicitamente que palavras, aliadas à gramática e à sintaxe (ou seja, a linguagem) pode ser utilizada para a obtenção acurada de conhecimentos sobre a realidade sem a inconveniência de examinar o mundo real. Mas , de onde a linguagem vem? Ela evoluiu ao longo de milhares de anos, e reflete os pensamentos e experiências de todos os seres humanos que a utilizaram. Inegavelmente, a linguagem reflete a realidade em alguns aspectos. A palavra inglesa ‘aardvark’ é refletida por um insetívoro africano existente, e a palavra ‘zebra’ é refletida por herbívoro africano existente. Mas existem algumas palavras que não refletem a realidade; ‘unicórnio’ e ‘hobbit’ vem-me à mente. Mais seriamente, a física moderna tem mostrado que palavras como “tempo”, “partícula” e “causa”, para citar somente algumas, são problemáticas. Os significados comuns destes termos estão em desacordo com a realidade subjacente à nosso universo. A física revela que existe uma série de razões para acreditar que a linguagem distorce nossa percepção da realidade.

Considere o que os defensores dos argumentos ontológicos supõem. Usando somente a linguagem, e sem referências a uma única observação empírica que seja, eles esperam derivar uma compreensão do mais profundos níveis da realidade. Como se poderia esperar que a mera manipulação de símbolos tipográficos, isolada de qualquer observação, produza conhecimento? Ainda que isso seja o que William Lane Craig quer nos fazer crer. Este é o argumento ontológico formulado por Alvin Plantinga e defendido por Craig:

Agora, em sua versão do argumento, Plantinga concebe Deus como um ser que é ‘maximamente excelente” em todos os mundos possíveis. Plantinga considera a excelência máxima abraangendo propriedades como a onisciência, onipotência e a perfeição moral. Um ser que possua excelência máxima em todos os mundos possíveis teria o que Plantinga chama de “grandeza máxima”. Assim sendo, Plantinga argumenta:

1. É possível que um ser maximamente grande exista.

2. Se é possível que um ser maximamente grande exista, então um ser maximamente grande existe em algum mundo possível.

3. Se um ser maximamente existe em algum mundo possível, então ele existe em todos os mundos possíveis.

4. Se um ser maximamente grande existe em todos os mundos possíveis, então ele existe no mundo real.

5. Se um ser maximamente grande existe no mundo real, então um ser maximamente grande existe.

6. Portanto, um ser maximamente grande existe.

Não é minha intenção expor a falácia lógica contida neste argumento. Em vez disso, meu objetivo é argumentar que simplesmente porque expressão “ser maximamente grande” pode ser formulada em alguma língua, não se segue que podemos derivar conhecimento a respeito da realidade exterior manipulando estas palavras. São apenas palavras, sem maior pretensão de representar a realidade do que “unicórnio rosa invisível” ou “hobbit”. A palavra “zebra” é conhecida por representar um animal real porque o avistamos,  fotografamos, dissecamos e assim por diante. Mas “ser maximamente grande” foi conjurado pela imaginação de Plantinga, assim como “hobbit” foi conjurada pela imaginação de Tolkien. As três palavras de Plantinga não podem revelar nada sobre a natureza da realidade, porque não são derivadas de qualquer observação da realidade.

Examinemos os outros quatro argumentos de Craig, apresentados no mesmo artigo em seu website. O Argumento Cosmológico da Contingência padece do mesmo defeito do argumento ontológico:

O argumento cosmológico aparece numa variedade de formas. Aqui está uma versão simples do famoso argumento da contingência:

1. Tudo o que existe possui uma explicação para sua existência, seja na necessidade de sua própria natureza ou numa causa externa.

2. Se o universo possui uma explicação para sua existência, essa explicação é Deus.

3. O universo existe.

4. Portanto, o universo possui uma explicação para sua existência (a partir de 1, 3).

5. Portanto, a explicação para a existência do Universo é Deus (a partir de 2, 4).

Mais uma vez, não há uma única observação da realidade — simplesmente palavras. Especificamente, “a necessidade de sua própria natureza” parece dizer alguma coisa, mas o que? Como teriam os seres humanos alguma vez observado tal fenômeno? Como aplicaríamos tal expressão a uma entidade que sabemos ser real? O que, por exemplo, seria a necessidade da natureza de um aardvark, ou do universo em questão? Se não podemos definir e explicar esta expressão em relação a um animal real, como esperaríamos defini-la em relação a alguma entidade hipotética e nunca observada?

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“Viver com a sensação da perda: talvez essa seja hoje a condição moral em que podemos permanecer fiéis ao nosso tempo.”

Imre Kertész.

“Para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma.”

Fernando Pessoa.

É evidente que exista momentos de clareza em nossa vida aos quais Sigmund Freud ligaria a uma experiência traumática. Assim, só para deixar claro, quando falo de clareza, falo de alguma coisa real que adquire uma aparência sobrenatural; a erupção repentina, quase violenta, de um pensamento que amadurece lentamente em mim, alguma coisa expressa pelo grito antigo: “Achei”. Mas o que achei?

Essa semana, tive mais uma daquelas experiências extraordinárias que nos traz um equilíbrio apaziguador não fundamentado em dualismos ou respostas claras.

Certo homem, forte, alto, e com aquela aparência intelectual que parece buscar na história um predicado que controle os deuses, entrou numa dessas reuniões que costumo fazer com amigos para exagerar e puxar a teologia de cada dia – Isso, para nos tornarmos bons heréticos.

Com uma compostura estranha, ele bradou: “Sim, encontrei a resposta!”

Como não costumo tirar conclusões precipitadas, simplesmente dei um sorriso, lhe fiz algumas perguntas e lhe dei espaço novamente. Então ele disse:

- Fazia um bom tempo que estava procurando por uma Igreja como essa. Que bom, encontrei um suspiro!

Rapidamente respondi:

- Ótimo! Mas acho que você está enganado ao nosso respeito. Não estamos procurando por respostas aqui. Isso aqui não é uma Igreja. Não vemos as Escrituras como um punhado de idéias aonde somente alguns possuem as conclusões corretas.

Então, já desempolgado, perguntou:

- Já fui vítima de uma ilusão de ótica em que a ótica, na realidade, chama-se manipulação de idéias, afinal de contas, o que é isso aqui?

Então respondi:

Diz a lenda que certa vez um ministro cristão brasileiro se perdeu na floresta Amazônica. Por três meses esse pastor procurou, procurou por um caminho que o tirasse da selva, mas não obteve sucesso. Finalmente, um dia em sua procura, encontrou um grupo de sua Igreja que também estava perdido na floresta. Entusiasmadamente, o grupo bradou: “Pastor, como é maravilhoso tê-lo conosco! Você pode nos levar para fora dessa selva para um lugar seguro”. “Me desculpe, eu não posso ajudar vocês – respondeu o pastor de cabes baixa -, estou tão perdido quanto qualquer um aqui”. O que posso fazer é, porque tenho mais experiência em se perder, dizer como não se perder mais ainda nessa selva. Com está pobre afirmação do pastor, o grupo, agora sem distinções, decidiu procurar por outra solução – Obviamente, conformados com um possível fracasso.

Em suma, o rapaz que veio nos visitar decidiu ficar. Com um belo sorriso no rosto, agora sem modéstia, me disse: Morri mais uma vez, quando isso acontece, vejo novas oportunidades de sobreviver.

Fica a dica: Muita explicação nos separa das surpresas. Necessitamos transformar pessoas, e não oferecer respostas.

Numa conhecidíssima passagem de Resistência e Submissão, Bonhoeffer descreve de modo extremamente incisivo a superação da religião no momento histórico atual:

“O tempo em que se podia dizer tudo com palavras teológicas ou pias passou, assim como passou o tempo da interioridade e da consciência, isto é, o tempo da religião em geral. Vamos ao encontro de uma época completamente não religiosa; os homens, assim como são, não podem mais ser religiosos. Mesmo aqueles que se definem sinceramente ‘religiosos’ não o praticam absolutamente; por ‘religioso’ eles entendem provavelmente algo de completamente diferente. Toda a nossa predicação e teologia cristã do século vinte é construída no a priori religioso do homem. O ‘cristianismo’ foi sempre uma forma (talvez a verdadeira forma) da ‘religião’. Mas quando um dia será evidente que esse ‘a priori’ não existe de fato, mas que foi uma forma expressiva do homem, historicamente determinada e transitória, quando, isto é, os homens se tornarão realmente não religiosos de maneira radical – e eu acho que já, mais ou menos, é o nosso caso – o que significará então isso para o cristianismo? É subtraído o terreno sobre o qual se apoiava até agora todo o nosso ‘cristianismo’”.

Portanto o teólogo e o pastor de almas que querem continuar a ação do Cristo e querem levar a sua Nova de salvação aos homens do nosso tempo devem procurar propor tal Nova e a própria figura do Cristo nas categorias não religiosas e atéias na cultura pós-moderna.

Não plante uma “ Tulip” num jardim reformado.

Richard A. Muller.

A tradução não repete simplesmente o passado, mas desenvolve-o. Os intérpretes cristãos, acima de tudo, deveriam ser pessoas que têm esperança na recriação.

Vincent B. Leitch.

Devo começar com uma confissão, talvez estranha, mas sincera. Acredito que tenha vivido durante muito tempo sob ditaduras, num meio intelectual hostil e desesperadoramente estranho, para que pudesse desenvolver uma certa consciência crítica sobre sistemas. Por que não sou Calvinista? Como que alguém que viveu as convicções do poder judiciário em família, não possa aceitar tal  ideologia ? Seja como for, tal experiência me colocou frontalmente numa realidade única: Sou existencialista; deixo o milagre para quando Deus quiser – mas nem isso afirmo. Em vista disso, fui assaltado por dúvidas e comecei a passar o tempo se observando. Como teria certeza sobre a vontade de Deus, se sempre, em minhas conclusões, me deparava com o conflito do meu Jonas interior?  (Aqui, me refiro a experiência do profeta neotestamentário com Deus). Portanto, porque não sou um calvinista? A resposta é óbvia: Porque não acredito em mim mesmo – Ao menos, posso dizer que cheguei a essa posição sem rodeios.

Mas chega de nove horas e vamos a teologia. Afinal de contas, não é isso que trata esse blog ? Além do mais, afirmar que exista algum motivo de crer, ou não crer, num descritivo correto sobre algo devido a uma experiência familiar, não seria uma forma de absolutismo epistemológico?

Não sou Calvinista porque acredito que nenhum homem entende as Escrituras perfeitamente, a menos que tenha sido crucificado. Antes de qualquer coisa, deixem-me esclarecer uma objeção. Em primeiro lugar, será que minha abordagem é a de um fundamentalista que anseia por uma certeza subjetiva e incentiva os indivíduos a participarem de uma interpretação teológica carnavalesca? Não exatamente. Ao contrário, abracei um não-realismo crítico que não tende a retirar seu entendimento da verdade apenas de cânones do empirismo científico. Que não se aproxima de Deus somente através de uma interpretação precisa ao seu respeito.Em segundo lugar, será que minha abordagem pressupõe que a verdade da Bíblia está relacionada a sua correspondência com a liberdade de? Não necessariamente. Argumento que os cristãos confrontam a realidade de maneiras diferentes, apesar de muitos não entenderem que são como crianças da era científica ( De maneira irônica, o calvinista foi aprisionado por uma imagem enganadora, e moderna, de significado e verdade). Logo, meus motivos não estão baseados em meus esquemas interpretativos da tradição reformada, não seria tal relativismo auto-refutador ou, no mínimo, incoerente? Mas sim, na virtude teológica reformadora que pressupõe que todas as interpretações são provisórias (semper reformata pressupõe a corrigibilidade de nossas interpretações), e na clareza das Escrituras que prova não possuir nenhum valor absoluto nem uma propriedade abstrata, mas uma função específica relativa a seu objetivo particular: ser testemunha do Cristo.

É verdade que o calvinismo oferece uma maneira de terminar as divagações que com tanta freqüência  caracterizam o processo de interpretação bíblica. No entanto, o caminho para dentro não leva para a Terra Prometida, mas de volta para o Egito; a certeza teológica que eles desejam só pode ser alcançada recorrendo-se a algum tipo de autoridade discursiva, intencionalmente incompleta e praticável: As Escrituras nos ensinam, que somos livres para usar, e criticar os sistemas de pensamento e os modelos descritivos – O “ Midrash” também nos ensina isso.

Acredito que os calvinistas estejam certos em sua preocupação de preservar um realismo de significado, e em seu desejo de deixar a Bíblia falar por si própria. No entanto, o realismo deles é um tanto ingênuo por tender a equacionar o significado do texto através de  uma epistemologia objetivista. Infelizmente eles esquecem que o conhecimento cristão não é simplesmente uma questão de possuir as descrições certas, mas de ter as disposições certas. As interpretações bíblicas não são verdadeiras, corretas ou justificadas meramente porque alguma tradição acredita que elas sejam assim; precisamos ir atrás de descobertas incomensuráveis, e não de invenções etnocêntricas. Precisamos não simplesmente aprovar, mas continuar a provar nossas interpretações, no sentido de colocá-las à prova. De maneira específica, testamos nossas interpretações, primeiro, submetendo-as a uma epistemologia crística e, depois, entrando em uma conversação mais ampla com outros intérpretes a respeito do texto. Os calvinistas tipicamente abstêm-se do segundo teste, na verdade ignorando completamente o problema hermenêutico. Às vezes, eles dão a impressão de que a principal dificuldade interpretativa é vir a “aceitar” a Bíblia, e não determinar o que ela diz e buscar como aplicar isso. Com relação ao espectro da moralidade do conhecimento hermenêutico, os calvinistas tendem a escorregar em direção ao dogmatismo.

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O Senhor da Audição.

postado em: Teologia

“ O progresso epistêmico é possível apenas se alguém primeiro se predispuser a admitir que está errado”  - Paul Noble

O Espírito, diz Karl Barth, é o “ Senhor da audição”. Para que os leitores se apropriem do texto bíblico, é necessário mais do que puro esforço exegético, é necessário a dúvida. Quando lutamos para alcançar o entendimento, não estamos lutando contra o sangue e a carne e sim contra os principados e potestades deterministas. Ler é uma luta com o texto contra aqueles poderes que estabelecem o entendimento. Também estamos lutando contra nós mesmos, contra nossa ânsia por poder, contra a tendência a totalizar e a nos tornamos senhores absolutos em relação aos outros. Enfim, se o Espírito é o Senhor da audição, e esse senhorio não gera novas descobertas e  significados, esse espírito na verdade é um tipo de suplemento hermenêutico classificatório que, coloca a filosofia acima do coração aquebrantado – É qualquer coisa menos o Espírito.

Se existe na verdade algum “Espírito” na leitura bíblica, esse Espírito com certeza troca qualquer imperativo  hermenêutico por uma comunidade sincera. Observe as Escrituras por exemplo:

Neemias 8 apresenta um provocante estudo de caso do tipo “Senhor da audição”. Ele mostra Esdras em uma plataforma de madeira elevada para a finalidade específica de ler a lei de Moisés aos exilados que acabavam de retornar a Jerusalém. Quando Esdras abriu as Escrituras, as pessoas, abaixo dele, ficaram literalmente “ posicionadas sob” o texto. A subsequente resposta que deram à leitura mostrou que elas utilizaram mais o texto do que entenderam – O Templo estava destruído, logo, a apropriação do significado lido teria que ser muito mais do que mera regras hermenêuticas a serem seguidas.

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O Deus mentiroso.

postado em: Filosofia, Teologia

Os filósofos esticam o significado de palavras até que essas mal conservam algo do seu sentido original; chamam alguma abstração borrada que criaram de “Deus” e posam para o mundo inteiro como deístas, crentes que conheceram um conceito mais puro de Deus, embora seu Deus seja apenas uma sombra sem substância, e não mais a personalidade poderosa da doutrina religiosa.

FREUD, Sigmund. Die Zukunft einer Illusion. Leipzig: Internationaler Psychoanalytischer Verlag, 1927.

O jeito moderno de representar as histórias bíblicas do nascimento de Jesus normalmente as transforma em tocantes contos para crianças, mas é bastante possível que os primeiros cristãos as lessem como manifestos políticos, além de espirituais. Essa é a tese do livro  ” The First Christmas “  do  americano Marcus Borg, da Universidade do Oregon (EUA), e o irlandês John Dominic Crossan, da Universidade DePaul (também nos Estados Unidos).

O livro “ The First Christmas – What the Gospels Really Teach about Jesus Birth” deixa em segundo plano as questões sobre os detalhes históricos da vinda de Cristo ao mundo. A intenção dos pesquisadores é descobrir o que os evangelistas Mateus e Lucas, autores das duas narrativas sobre a natividade (o nascimento de Jesus) que foram preservadas na Bíblia cristã, queriam expressar com seus textos. Para eles, o tema comum por trás das narrativas é a rejeição do projeto imperial de Roma, que dominava um quarto da população do planeta na época, em favor de um projeto alternativo para a humanidade, representado por Jesus e seu evangelho.

“As histórias do primeiro Natal são, em geral, anti-imperiais. Em nosso contexto, isso significa afirmar, seguindo as histórias da natividade, que Jesus é o Filho de Deus (e o imperador não é), que Jesus é o Salvador do mundo (e o imperador não é), que Jesus é o Senhor (e o imperador não é), que Jesus é o caminho para a paz (e o imperador não é)”, escrevem os autores.
Em resumo, dizem Borg e Crossan, as histórias da natividade provavelmente foram escritas para ser lidas como “histórias subversivas”, ou seja, cuja intenção era subverter as visões sobre a fé e a política que eram dominantes no mundo romano no século I d.C., mas que os cristãos queriam transformar. Com esse objetivo, os evangelistas parecem ter voltado o vocabulário e a retórica de seus opressores contra eles.

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A interpretação…

“ Parece bom para nós agora” – Mitologia Branca.

Podemos ter conhecimento sem determinados pontos de partida ou posições sagradas vantajosas?

Humanos não são nem anjos (sentido figurado), que sabem as coisas imediatamente, nem brutos estúpidos, incapazes de resolver suas diferenças, exceto pela força bruta. Não possuímos conhecimento absoluto – principalmente sobre Deus, que não é objeto de conhecimento -, apenas conhecimento humano.

Em princípio, há um fim para o conflito sobre uma hermenêutica emergente; na prática, o próprio conflito pode ser a solução. O desafio para lidar com o conflito emergente é chegar a um modelo de racionalidade interpretativa que não pressupõe nem fundamentos absolutos nem um ponto de vista livre de valores, por um lado, nem leituras arbitrárias e carregadas de valor, por outro. Podemos concordar com o mestre Derrida nisso: “Os intérpretes não desfrutam de qualquer ponto de vista privilegiado, e não contextual, com base no qual podem recuperar o significado sem sua mediação por meio dos signos.  Se as coisas fossem simples, a notícia teria se espalhado”.

A interpretação teológica emergente pode ser comparada com a navegação. Da mesma forma que os leitores buscam se orientar em relação ao texto bíblico, os marinheiros também se orientam nos mares. Uma escuna tem determinada posição mesmo se não puder apontar essa posição com precisão absoluta. De maneira significativa, o capitão pode estabelecer sua posição sem ter de recorrer a algum fundamento. A localização espacial é relativa e pode ser determinada usando-se quaisquer objetos possíveis como pontos de referência ( sol, estrelas, faróis, terra, etc). Como bem dito pelo filósofo Renford Bambrough: “ Não existem objetos ou locais específicos que sejam os pontos ou linhas de referência básicos ou fundamentais para a localização de todos os outros objetos”. Podemos estabelecer a determinabilidade, num texto bíblico ou em alto-mar não porque nos orientamos por meio de pontos que são fixados uns em relação aos outros. O significado de uma palavra pode não ser imutável ou absoluto, mas isso não significa que ela não tenha significado determinado. Uma língua pode não ter um centro absoluto ou fundamento( nenhuma chave interpretativa), mas mesmo assim seus termos estão em uma relação determinada uns com os outros. Ou como disse meu amigo Elienai Jr. sobre a fé: “ Fé, , porque nada sabemos, além do que imaginamos de tudo o que ouvimos, antes de viver os poucos dias que nos cabem”

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Quer nesse Natal deixar os ismos religiosos um pouco de lado, e mergulhar nas teorias?  Em conjunto com Hélio Schwartsman,  fica minha dica:  “The Case for God – What Religion Really Means” (uma defesa de Deus –o que a religião realmente significa), de Karen Armstrong, a ex-freira convertida e estudiosa das religiões.

Com a erudição que lhe é peculiar, Armstrong traça um panorama das mais variadas manifestações de religiosidade desde o Paleolítico até nossos dias e identifica o ateísmo como um fenômeno relativamente recente, que só se tornou possível porque, com o advento da ciência e outras coisinhas mais, o significado de termos como “crença” e “fé” mudou radicalmente.

O ponto central da argumentação da autora é que a esmagadora maioria das culturas pré-modernas sempre operou com duas modalidades de pensamento, às quais os gregos chamavam de “mythos” e “lógos”. Ambas eram consideradas essenciais e complementares. O “lógos”, que podemos traduzir como “razão”, era o modo pragmático. Servia para cuidar dos afazeres cotidianos, construir ferramentas, controlar o ambiente, em suma, para garantir o pão nosso de cada dia. Mas, ele não dava conta de tudo. O “lógos” era incapaz, por exemplo, de nos consolar diante da perda de um ente querido ou mesmo de indicar um sentido último para a vida. Nessas horas de transcendência entravam os “mythoi” (mitos), com suas histórias fantásticas sobre heróis e deuses, dores e esperanças. Eles funcionavam, diz Armstrong, como uma forma primitiva de psicologia. Com sua linguagem cifrada e nem sempre coerente, tocavam aspectos da psique humana que não estavam acessíveis ao “lógos”.

Uma característica importante do “mythos” é que ele não serve a seus propósitos se for apenas comunicado como uma informação ordinária. Para cumprir seu papel a contento, esse modo de pensamento exige que o “paciente” se envolva em atividades práticas, que variam bastante conforme as características de cada religião e cultura. É só com o apoio dos rituais, dos cânticos, das danças ou mesmo de meditação e exercícios, como na ioga, que o “mythos” pode atingir sua plenitude.

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