Nelson Costa Jr » Vida & Realidade

“O que aconteceria se o Coiote capturasse o Papa-léguas? Quais são as opções que o Coiote tem?”

Tivemos um bom bate-papo hoje sobre o futuro da fé  na sociedade. Conseguimos ver a luz, ou conseguimos ver o que a luz ilumina? O que permite  vermos?

Peter Rollins dirigiu uma excelente palestra sobre a Quaresma. Mais uma excelente noite entre amigos !

Kokoro.

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Quando voltei ao Brasil, depois de residir doze anos no Japão, me incumbi da difícil missão de transmitir o que mais me impressionou do povo Japonês:

Kokoro.

Kokoro ou Shin significa coração-mente-essência.

Como educar pessoas a ter sensibilidade suficiente para sair de si mesmas, de suas necessidades pessoais e se colocar à serviço e disposição do grupo, das outras pessoas, da natureza ilimitada?

Outra palavra é gaman: aguentar, suportar. Educação para ser capaz de suportar dificuldades e superá-las.

Assim, os eventos de 11 de março, no Nordeste japonês, surpreenderam o mundo de duas maneiras.

A primeira pela violência do tsunami e dos vários terremotos, bem como dos perigos de radiação das usinas nucleares de Fukushima.

A segunda pela disciplina, ordem, dignidade, paciência, honra e respeito de todas as vítimas.

Filas de pessoas passando baldes cheios e vazios, de uma piscina para os banheiros.

Nos abrigos, a surpresa das repórteres norte americanas: ninguém queria tirar vantagem sobre ninguém. Compartilhavam cobertas, alimentos, dores, saudades, preocupações, massagens. Cada qual se mantinha em sua área. As crianças não faziam algazarra, não corriam e gritavam, mas se mantinham no espaço que a família havia reservado.

Não furaram as filas para assistência médica – quantas pessoas necessitando de remédios perdidos-mas esperaram sua vez também para receber água, usar o telefone, receber atenção médica, alimentos, roupas e escalda pés singelos, com pouquíssima água.

Compartilharam também do resfriado, da falta de água para higiene pessoal e coletiva, da fome, da tristeza, da dor, das perdas de verduras, leite, da morte.

Nos supermercados lotados e esvaziados de alimentos, não houve saques. Houve a resignação da tragédia e o agradecimento pelo pouco que recebiam. Ensinamento de Buda, hoje enraizado na cultura e chamado de kansha no kokoro: coração de gratidão.

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“Se as estruturas da mente humana permanecerem inalteradas, acabaremos sempre recriando fundamentalmente o mesmo mundo, os mesmos males, os mesmos defeitos. Ignorando uma realidade que mais cedo ou mais tarde os filhos de nossos filhos confrontarão”.


Após a morte, um ateu se depara com a muda onisciência divina e pergunta, simplesmente pergunta:

Você mandou seu filho para redimir seus pecados, não o dos homens. Não o mandou para salvar seu povo, mas sim sua reputação. Você mandou Jesus com algumas boas palavras sobre você, alguns truques de mágica para provar que era seu filho e o espírito de mártir com o qual os humanos viviam antes do Salvador descer à Terra. Eu morri antes de ler o antigo testamento inteiro, mas o pouco que li já foi suficiente para conhecer o déspota assassino que você sempre foi. Quantos milhões de pessoas você já matou? Quantas pessoas habitavam a terra antes do dilúvio? Quantos morreram pelas suas mãos ou pelo seu nome? Até hoje é assim. Você ainda mata diretamente as pessoas? Não há muitos indícios disso depois de Cristo. Você não quer manchar de novo a reputação que adquiriu vindo à Terra e sangrando um pouco, não é? O sangue… Você só consegue agir através de carnificina? Há alguma magia antiga no plasma sanguíneo que O faça ser mais poderoso através da morte, do sacrifício e do sofrimento? Ou é só o Seu gosto por carne fresca que faz dela a moeda de troca pela sua dádiva? “Sem derramamento de sangue não há remissão”?

É incrível o que você fez com a mente das pessoas, fazendo com que acreditem que aquele sacrifício foi o maior ato de paixão pela humanidade que já existiu. AQUILO NEM FOI UM SACRIFÍCIO! Foi você mesmo que se fez carne e se deixou matar. Ao menos quando um homem pula em frente ao tiro que mataria sua mulher, ele permanece morto. ISSO é sacrifício. E não me venha dizer que sacrificou seu corpo físico, porque você é Deus! Você criou o universo inteiro! O que é um corpo físico pra você? Você poderia ter criado um exército de corpos físicos e destruído Roma se quisesse. Sacrifício… tchi… Se você viesse pra mim e dissesse: “Se você for espancado, chicoteado, torturado, enforcado e morto, garanto acabar com a pobreza no mundo amanhã.” Eu teria aceitado. Eu o faria. Se houvesse certeza absoluta que esse seria o resultado, eu faria. Eu seria lembrado para sempre como o homem que acabou com a pobreza. Mas se você viesse dizendo: “Ah, só um detalhe: você não só será chicoteado e torturado até a morte, mas também o ressuscitarei em menos de uma semana e você será um Deus.” Isso NÃO é um sacrifício.

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” Amar um ser é simplesmente reconhecer que ele existe tal como vós”.

Simone Weil.

“Se Deus é amor e não amamos, que Deus temos?”

Nelson Costa Jr.

Não há na língua outra palavra  que tenha sido mais usada, da qual se tenha abusado tanto quanto amor – Talvez o termo Deus também. Nas últimas décadas ela foi de tal modo “enriquecida”, que pode ser dito que hoje não significa mais nada. Isso acontece com todos os símbolos que utilizamos em demasia – Olha a Igreja por exemplo.

Com o amor, ocorreu esse fenômeno por razões muito especiais, que vale a pena conhecer – ou sobre as quais é proveitoso meditar um pouco. Há amor que sentimos pelos nossos filhos, pelos nossos pais, por Deus, pelos amigos mais queridos, e há amor que une um homem e uma mulher. É fato que existe um denominador comum em todos esses sentimentos, mas tudo isso costuma ser um tanto obscuro para nós – principalmente para aqueles que julgam amar com intensidade. Fala-se do amor dependência, do amor possessão, do amor piedade, do amor religioso, e tudo se confunde numa imensa nuvem de incertezas.

É possível que a abordagem da questão possa ser feita apenas individualmente, se uma atenção especial incidir sobre os aspectos do tema e se o vocabulário especializado e os conhecimentos livrescos foram deixados – ainda que provisoríamente – de lado. Se olharmos com tranqüilidade, sem opinião prévia, o problema do amor ( seu significado, sua essência), perceberemos que isso tem de ser resolvido pessoa a pessoa. Temos de ver   como opera em nós isso a que chamamos amor, e conseqüentemente seremos levados   à compreensão do fenômeno muito lentamente, sem emoção ou preconceito de qualquer tipo. A maneira de facilitar a apreensão do assunto é um relax mental-espiritual, sem perda do interesse. Se estamos nesse estado de espírito, podemos tomar peça por peça, do quebra-cabeça, observando-a atentamente, sem contração ou esforço, com fascínio mas sem a intenção de tirar disso um resultado. Diante do amor – ou das suas manifestações em nós – temos simplesmente que olhar e ver.

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Ser Mais.

postado em: Política, Vida & Realidade

“O camponês, que é um dependente, começa a ter ânimo para superar sua dependência quando se dá conta de sua dependência. Antes disto, segue o patrão e diz quase sempre: ‘que posso fazer, se sou um camponês?’” – Palavras de um camponês à Paulo Freire.

No momento, porém, em que se comece a autêntica luta para criar a situação que nascerá da superação da velha, já se está lutando pelo Ser Mais. E, se a situação opressora gera uma totalidade desumanizada e desumanizante, que atinge aos que oprimem e aos oprimidos, não vai ceder, aos primeiros, que se encontram desumanizados pelo só motivo de oprimir, mas aos segundos, gerar de seu ser menos a busca do ser mais de todos.

Os oprimidos, contudo, acomodados e adaptados, “imersos” na própria engrenagem da estrutura dominadora, temem a liberdade, enquanto não se sentem capazes de correr o risco de assumi-la. E a temem, também, na medida em que, lutar por ela, significa uma ameaça, não só aos que a usam para oprimir, como seus “proprietários” exclusivos, mas aos companheiros oprimidos, que se assustam com maiores repressões.

Quando descobrem em si o anseio por libertar-se, percebem que este anseio somente se faz concretude na concretude de outros anseios. Enquanto tocados pelo medo da liberdade, se negam a apelar a outros e a escutar o apelo que se lhes faça ou que se tenham feito a si mesmos, preferindo a gregarização à convivência autêntica. Preferindo a adaptação em que sua não liberdade os mantém à comunhão criadora, a que a liberdade leva, até mesmo quando ainda somente buscada.

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Walter Brueggemann.

O povo diz: “O Senhor é meu Pastor e nada, nada me faltará…” Eu olho está faltando tudo!

Dom Hélder Câmara.

Desde que a guerra fria acabou, a Igreja moderna tem-se ocupado  com a Bíblia, a teologia, e a solidariedade, não como Cristo demonstrou, mas de acordo com as perspectivas políticas de um mundo capitalizado. De acordo com os dados históricos, pode-se observar o abuso das mitologias , das metáforas e dos altruísmos bíblicos. É fácil constatar uma demanda de sacrifício exagerado.

Quando Cristo dirige-se aos seu seguidores, Ele não impõem regras acima da natureza humana. Ele demonstra em atitudes, e parábolas, um amor incondicional, e não uma fé de qualidade mágica, que busca usufruir-se das intermináveis, e inacabáveis demandas, impostas pela política de mercado.

No meio da nuvem do não-saber, a Igreja vai situando Deus num mistério absurdo, que o enraíza nas confusões matemáticas. Suspendendo a história, ela vai mantendo o Cristo dos oprimidos, crucificado na necessidade do poder, e num mercado fundamentalista, que deixa claro que,  a batalha contra míngua nunca será vencida. Sabendo disso, os políticos usam e abusam do Cristianismo, para manterem-se em pé. Ou seja, o mercado “cristão” fundamentalista, não somente exclui a minoria, mas  coopera no papel central do sistema capitalista mundial : Mammon se torna Deus.

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A ESCRAVIDÃO ENTRE OS CELTAS: REFLEXÕES A PARTIR DAS CARTAS

DE SÃO PATRÍCIO.

Patrício  teve uma experiência direta com a escravidão mesmo quando vivia em um uicus de nome Banauem Taburniae, na Bretanha, com seus pais e era um nobre bretão romano. Neste período, ele era dono de escravos. Aos dezesseis anos, ele foi raptado e conduzido à Irlanda onde teve que ser um escravo pastor de ovelhas por mais de seis anos.

Suas cartas nos fornecem alguns indícios para refletirmos sobre o fenômeno da escravidão entre os celtas, pois ele viveu entre a Bretanha e a Irlanda celta do século V d.C. Não é freqüente encontrarmos no mundo antigo, um ex-escravo falando de sua escravidão. Assim sendo, Patrício é um dos poucos escritores antigos que nos deixaram relatos que mencionam, por alguém que teve uma experiência direta, este fenômeno (THOMPSON, 1986: 19).

Segundo Norberto Luiz Guarinello (2006: 228), no que convencionalmente chamamos de mundo antigo, havia uma situação relacional entre escravidão e liberdade. O Império Romano conheceu diversas formas de trabalho compulsório e a escravidão era somente uma dentre estas formas. No entanto, a temática da escravidão estava presente em todas as dimensões do que o autor chama de “tecido social” romano e não somente relacionada ao mundo da produção, do trabalho e dos afazeres domésticos, não exercendo, desta forma, nenhuma influência na esfera política e cultural. Guarinello afirma que a escravidão no mundo romano é um fenômeno de grande plasticidade e para compreendermos melhor a idéia do escravo como uma mercadoria, tendo em vista este contexto, ele introduz, a partir do livro Slavery and Social Death de O. Patterson, a noção de “trajetória”. Nestes termos, a escravidão pode ser compreendida como um processo de morte simbólica. O escravizado perde sua identidade original, sua pessoa, para tornar-se quem seu senhor determinar. No entanto, nesse processo, ele não se transforma numa coisa. Pelo contrário, o escravizado é ressocializado dentro da sociedade que o escravizou, seguindo trajetórias determinadas, tanto pelas necessidades do dono, como por sua própria individualidade (GUARINELLO, 2006: 232).

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