Um possível Deus Imanente?
Posted in Filosofia, Teologia. on February 25, 2010 by Nelson CostaVivemos nossas vidas inescrutavelmente incluídos na fluente vida do Universo.
Martin Buber, I and You
Para algumas pessoas, a idéia de um Deus transcendente que cria e provavelmente controla o Universo a partir de um local privilegiado fora das leis da física, além do espaço e do tempo, continuará sempre convidativa. Não há nada que os impeça de imaginar que esse Deus precedeu — e provavelmente criou — o Big-Bang. Esta é uma posição perfeitamente sustentável, embora nos deixe com um Deus que não sofre, Ele mesmo, nenhuma transformação criativa, que não está em diálogo com Seu mundo, e tudo isso deve continuar sendo inteiramente uma questão de fé.
Mas, se pensarmos em Deus como algo inserido nas leis da física, ou algo que as emprega, então o relacionamento entre o vácuo e o Universo existente sugere um Deus que poderá ser identificado com o sentido básico de direção na expansão do Universo — talvez até com uma consciência em evolução dentro do Universo. A existência de um tal “Deus imanente” não impede que também exista um Deus transcendente; no entanto, devido ao que conhecemos do Universo, o Deus imanente (ou o aspecto imanente de Deus) nos é mais acessível.
Esse Deus imanente estaria sempre empenhado num diálogo criativo com Seu mundo, conhecendo-Se a Si mesmo apenas na medida em que conhece Seu mundo. Este é o conceito de Deus proposto com grande força por Teilhard de Chardin, e mais recentemente pela “teologia do processo”, e é um conceito em termos do qual torna-se razoável falar de seres humanos — com nossa física da consciência que espelha a física do vácuo coerente — concebidos à imagem de Deus, ou como parceiros da criação de Deus. Nas palavras de Teilhard:
Não estamos preocupados apenas com o pensamento como algo que participa da evolução como uma anomalia ou um epifenômeno; mas a evolução como algo tão reduzível ao pensamento, e tão identificável com um progresso em direção ao pensamento, que o movimento de nossas almas expressa e mede os exatos estágios da própria evolução. O homem descobre que ele não é senão a evolução que se tornou consciente de si mesma, para usar a expressão concisa de Julian Huxley.
Teologia na Pós-modernidade – 2 Parte.
Posted in Nelson Costa, Teologia. on February 23, 2010 by Nelson CostaCoragem de ser.
Um outro mundo é possível agora, e está disponível para todos os que crêem.
Brian Mclaren.
A pós-modernidade, o niilismo, a vida sem sentido, o “tempo do desespero”, a morte de Deus, o perecimento das Igrejas, o fim das ideologias; tudo isto permeia e ameaça o ser humano (e a religião atual). “A terra tinha sido expulsa do centro do mundo”: com Copérnico, o homem deixou de estar no centro do Universo; com Darwin, o homem deixou de ser o centro do reino animal; com Marx, o homem deixou de ser o centro da história e, com Freud, o homem deixou de ser o centro de si mesmo, notou Eduardo Prado Coelho. André Comte-Sponville inicia seu livro O tratado do desespero e da beatitude com estas temáticas da situação humana atual. “O homem do século XX perdeu um mundo significante e um eu”, nota Paul Tillich, que não viveu a pós-modernidade, mas de uma certa forma a previu pela “perda de Deus do século XIX”, com Feuerbach e Nietzsche, e, sobretudo, pelo existencialismo (que é o problema e a resposta atual). O ser humano na pós-modernidade perdeu seu mundo (desespero), suas referências de ser (insignificante) e todas as “garantias” dos esquemas explicativos (como a ciência e a religião). Só lhe restam a ansiedade, o insignificante, o medo e o desespero diante das
coisas da vida, como nota André Comte-Sponville. Este é o cenário para reflexão da pós-modernidade. “A ansiedade que determina nosso período”, diz Paul Tillich, “é a ansiedade da dúvida e do sem valor”: perdeu-se a significação da própria existência. Na perda do significado da existência, o ser humano, frente ao seu vazio interior, busca sentido para a vida.
Balcãs, cinema e a multiculturalidade – Entrevista dada por Slavoj Zizek no Festival de Cinema de Sarajevo.
Posted in Filosofia on February 22, 2010 by Nelson Costa
Por que a religião ainda permanece ?
Posted in Psicologia., Teologia. on February 20, 2010 by Nelson CostaHoje, a freqüente emergência de movimentos religiosos, assim como o empenho aplicado ao fortalecimento das instituições que sobrevivem da veiculação do sagrado, nos demonstram até que ponto o território dos fundamentalismos tem se difundido. É possível, inclusive, que os vínculos que unem a civilização ao sagrado sejam mais fortes em nossa época do que o foram em outros momentos históricos. A zona limítrofe à qual a história da civilização nos trouxe causa tanta perplexidade que a retomada do culto ao Eterno não faz outra coisa senão ilustrar a tentativa de suportar o choque de uma realidade irremediavelmente fragmentada. A difusão do sagrado testemunha a súplica desesperada para que os estilhaços dessa realidade sejam reunidos, ainda que de modo bastante precário, a fim de restabelecer sua unidade imaginária.
Por essa razão, Lacan (2005) dirá que a religião está destinada a triunfar em nossa época. O triunfo da religião sobre a ciência e também sobre a psicanálise se justifica porque, na prática religiosa, Deus é a garantia de que há, ainda, uma verdade estável e permanente. O Onipotente confere estabilidade para aquilo que é, em si mesmo, pura contingência. Realizando um movimento contrário, a ciência e, mais precisamente, a psicanálise, nos informa que o estado real de nossa realidade é exatamente aquilo que podemos assistir a olho nu, e que as mídias, ao seu modo sensacional, não cessam de nos informar: jogo contínuo com o imprevisível, ausência de garantias ou controle.
Fanatismo por uma crença justificada – 3 Parte.
Posted in Filosofia on February 19, 2010 by Nelson Costa[Sem Deus tudo é nada; e Deus? Nada supremo.]
De: “Le cirque de la solitude”, in: Syllogismes de l’amertume. Paris: Gallimard, 1980, p.79
Acho que algo muito mais radical que um declínio da fé religiosa ocorreu em nosso mundo. Para as pessoas cultas, o mundo se tornou desmistificado. Ou antes, para ser mais preciso, deixamos de tomar os mistérios que vemos no mundo como expressões de algo sobrenatural. Não mais consideramos os acontecimentos estranhos como exemplos da ação de Deus através da linguagem dos milagres. Os acontecimentos estranhos são apenas acontecimentos que não compreendemos. O resultado dessa desmistificação é que já estamos para lá do ateísmo, num ponto em que o assunto já não nos interessa à maneira em que interessava às prévias gerações. Para nós, se descobríssemos que Deus existe, isso seria um fato da natureza como qualquer outro. Às quatro forças básicas do universo – gravidade, eletromagnetismo, força nuclear forte e força nuclear fraca – adicionaríamos uma quinta, a força divina. Ou, mais provavelmente, veríamos as outras forças como formas da força divina. Se o mundo sobrenatural existisse, ele também seria natural.
Dois exemplos ilustram a mudança do nosso ponto de vista. Quando dei aula na universidade de Veneza, como professor visitante, eu costumava caminhar até uma encantadora igreja gótica, a Igreja da Madonna del Orto. Originalmente, haviam planejado batizá-la de igreja San Christoforo, mas, durante a construção, quando foi encontrada uma estátua da Madonna no pomar local, presumiu-se que ela tinha caído do céu. Uma estátua da Madonna caída do céu no pomar do próprio terreno da igreja era milagre suficiente para justificar a mudança do nome para Igreja da Madonna do Pomar. Eis o que interessa: se hoje uma estátua fosse achada ao lado de um canteiro de obras, ninguém diria que ela houvesse caído do céu. Mesmo se a estátua fosse achada nos jardins do Vaticano, as autoridades eclesiásticas não alegariam que caíra do céu. Pensar isso não seria possível porque, em certo sentido, sabemos demais.
O Cristianismo Teo-capitalista.
Posted in Nelson Costa, Teologia. on February 16, 2010 by Nelson Costa“O povo foi seduzido por um tipo de progresso imoderado, por uma patologia ideológica, como alguns antropólogos chamam”.
Thomas Beaudoin.
Um cristianismo teo-capitalista muitas vezes funciona como uma máfia, que promete segurança e proteção a partir de uma taxa. Mas se você não pagar essa taxa, a máfia diz que, o “Poderoso chefão” irá destruí-lo.
Em vez de um “esquema de proteção”, esse cristianismo se torna um “esquema de perdão”, que gera uma criação de culpa e ansiedade. Um esquema de perdão e conforto que no final cria mais culpa e ansiedade, para você precisar de mais perdão e conforto amanhã ; assim por diante. Ou seja, esse sistema funciona da seguinte forma: ele promete a satisfação e a felicidade através da posse e consumo, mas procura sempre inflar o seu desejo de felicidade, assim você terá sempre a necessidade de possuir e consumir mais, sempre terá uma enorme insatisfação.
Esse sistema, faz você sonhar com uma realidade sem sentido, fundamentada nas Escrituras Sagradas. Você associa tais “realidades” com os dizeres “santos”, e leva seus anseios e desejos aos líderes dessa máfia, que pregam um deus mafioso que, atende a todo consumismo humano de quem se submete a ele; aonde no final lhe consomem. Em outras palavras, você fica totalmente doutrinado pela estrutura imperialista da narrativa capitalista santa – Cristianismo teo-capitalista.
Sem entrar no mérito da questão política – que não é o mesmo caso neste contexto – Jesus simplesmente nega esse dualismo cristão-capital, muito feudal, quando ministra o Sermão da Montanha por exemplo, descrito em Mateus 5,1-7:
Tempo de transcendência.
Posted in Teologia. on February 15, 2010 by Nelson CostaO que é o ser humano? É um ser de abertura. É um ser concreto, situado, mas aberto. É um nó de relações, voltado em todas as direções. Já dizia o grande “filósofo” (comunicador) Chacrinha: “Quem não se comunica se estrumbica.” É só se comunicando, realizando essa transcendência concreta na comunicação, que o ser humano constrói a si mesmo. É só saindo de si, que fica em casa. É só dando de si, que recebe. Ele é um ser em potencialidade permanente. Então, o ser humano é um ser de abertura, um ser potencial, um ser utópico. Sonha para além daquilo que é dado e feito. E sempre acrescenta algo ao real.
Emile Durkheim, um dos fundadores da sociologia, fala da singularidade do ser humano como ser social, capaz de criar utopia, de acrescentar algo ao real. É algo exclusivo dele, nenhum animal é capaz de utopia. Por isso, ele cria símbolos, cria projeções, cria sonhos. Porque ele vê o real transfigurado. Essa capacidade é o que nós chamamos de transcendência, isto é,transcende, rompe, vai para além daquilo que é dado. Numa palavra, eu diria que o ser humano é um projeto infinito. Um projeto que não encontra neste mundo o quadro para sua realização. Por isso é um errante, em busca de novos mundos e novas paisagens. A conclusão que tiramos desse fato é que não devemos nos deixar enquadrar por ninguém, por papa nenhum, por governo nenhum, por ideologia nenhuma, por revelação nenhuma. Por nada no mundo, porque tudo é menor. O ser humano é um projeto ilimitado, transcendente, não dá para ser enquadrado. Ele pode, amorosamente, acolher o outro dentro de si. Pode servi-lo, ultrapassando limites. Mas é só na sua liberdade que ele o faz, é só quando se decide a isso, sem nenhuma imposição. Não há nada que possa enquadrálo, nenhuma fórmula cientifica, nenhum modo de produção, nenhum sistema de convivialidade. Nem mesmo o nosso moderno sistema globalizado, dentro do pensamento único que afirma “não há alternativa para ele”, reforçado pelo fundamentalismo da economia de hoje, que garante que “só existe o modo de produção capitalista global, com sua ideologia política, o neoliberalismo, não há outro caminho a seguir”.
Essa concepção supõe um conceito pobre do ser humano. Transforma-o, no fundo, num mero consumidor, que só tem boca para consumir, mas não possui cabeça para projetar. Quem defende e pratica essa concepção não está interessado em formar um cidadão criativo, capaz de pensar por si e plasmar o seu próprio destino. Está interessado em gerar consumidores, agalinhados em seus poleiros, perdidos da sua identidade de serem águias. Em nome da nossa transcendência, protestamos contra esse modo de realizar o processo de globalização que, em si, representa um patamar novo da história humana.
Espiritualidade farisaica.
Posted in Nelson Costa, Teologia. on February 12, 2010 by Nelson Costa“O homem nasce livre, e em toda parte é posto a ferros. Quem se julga o senhor dos outros não deixa de ser tão escravo quanto eles”.
Jean-Jacques Rousseau
Como estamos impregnados dessa espiritualidade farisaica ! Quando estamos bem, nos aproximamos de Deus. Quando mal, cheios de contradições e infidelidades, não nos achamos dignos de nos aproximar dele. Numa narrativa zen-budista, um monge pede ao mestre para sair do mosteiro, que era em plena cidade, para ir à montanha encontrar Deus. O mestre lhe concede três anos, ao término dos quais vai visitá-lo. Pergunta-lhe se já havia encontrado Deus, ao que ele responde: “Olha, acho que estou chegando lá, mas não cheguei, me dê mais um prazo”. O mestre concorda: “Você tem mais três anos”. Três anos depois, o mestre volta. “E então?” O monge disse: “Estou quase. Já toquei na porta dele, só falta abrir. Preciso de um último prazo”. O mestre vai embora e, ao voltar, três anos depois, o monge lhe confessa que Deus até abrira a porta, mas não Se mostrara ainda. O mestre indaga: “Está convencido de que, atrás da porta, vai encontrar Deus?” Ele responde: “ Olhe, depois de nove anos, para falar a verdade, não estou convencido”. E pergunta ao mestre: “Onde está Deus ?” Ele aponta para a cidade: “Lá embaixo, na merda.”
Está parábola zen-budista é justamente para mostrar a espiritualidade de Jesus. Ela é o inverso da espiritualidade dos fariseus. No primeiro modelo de espiritualidade, o do fariseu, o centro da santidade está na minha capacidade de ser virtuoso. No modelo de Jesus, quanto mais na merda estou, mais Deus me ama e mais devo me abrir para Ele. Ou seja, não há montanha a subir, não há virtude a servir de critério para o encontro com Deus. Há apenas uma coisa: Deus nos ama irremediavelmente, apaixonadamente. E quanto pior estivermos, mais nos devemos abrir a esse amor de Mãe – Jesus vive, a experiência de Deus, que acolhe, tem misericórdia, é Pai e Mãe – Porque a mãe se preocupa mais com filho doente, fraco, que está metido em uma porção de rolos. É com esse que ela mais sofre, é a esse que ela mais quer. É preciso deixar-se acolher, na linha do acolhimento que Jesus faz à prostituta, ao ladrão, ao sujeito que está condenado pelos fariseus, enfim, à escória. Os convidados ao banquete, na parábola, são a escória. São os privilegiados no festim do Pai.


