Nelson Costa Jr

Nas áreas de teologia, de estudos de religião e de diálogo entre as religiões diversos elementos da obra de Tillich servem para possibilitar a superação do próprio Tillich na direção que ele começava a trilhar nos últimos anos de sua vida. É importantíssima a contribuição que fez a todas as formas de estudos de religião com sua análise da humanidade enquanto portadora do sentido de Deus. Expressou tal pensamento de maneira sucinta: “Um deus desaparece; a divindade permanece”. Tal sentido irrecusável do divino vem da apropriação que faz de Platão para apoiar a teologia cristã bem como para expressar a universalidade da religião. É provável que sua contribuição à antropologia teológica seja mais importante do que sua cristologia. Essa antropologia baseava-se na memória viva que tem a humanidade de sua origem divina em contraste com a alienação em que vive agora. Essa mesma memória funciona como impulso na direção da recuperação plena da antiga intimidade com o divino perdida na existência. Esta dialética pode ainda ser considerada uma análise convincente da gênese da religião no espírito humano

Quando Tillich afirma que a humanidade é universalmente religiosa, partindo da tensão entre o universal e o particular, precisa localizar o particular no contexto mais amplo do universal. Em vez de considerar a realização plena do universal na revelação cristã, parecia, agora, decidido a relativizar a particularidade cristã no contexto dessa humanidade universalmente religiosa. A reviravolta implícita nessa nova ênfase exigiria que o teólogo cristão apreciasse positivamente as demais manifestações do essencial em outras épocas, culturas e tradições. Nem por isso o compromisso com a fé cristã seria diminuído. Ao contrário, a fé seria aprofundada por meio do reconhecimento das infinitas variações daquilo que os cristãos percebem no evento Cristo, tanto nas religiões como nas culturas seculares. O poder do simbólico nas diferentes religiões aumentaria com essa percepção.

Ao privilegiar o universal, Tillich, nos últimos escritos, desenvolvia idéias latentes capazes de transformar a relação entre o cristianismo e as outras religiões da conversão para o diálogo. As religiões, a partir do reconhecimento mais amplo do caráter religioso universal e autenticamente presente na humanidade, ampliariam a consciência coletiva e individual, facilitando o diálogo a respeito de diferenças de ênfases, símbolos, valores, rituais e seus efeitos nas circunstâncias sociais de suas culturas. Tal atitude suplantaria, por certo, qualquer tipo de proselitismo agressivo. Se a religião puder ser encarada como expressão universal do espírito humano fundamentada na participação do espírito no ser e na vitalidade de Deus, será bem mais difícil universalizar-se quaisquer de suas expressões particulares e mais difícil ainda engajar-se em atividades genocídas e holocáusticas contra os que se comprometem com manifestações alternativas de religiosidade.

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Ontem ainda eu suspirava: “Céu! Somos em excesso os condenados aqui em baixo! Quanto a mim, já vivo há tanto tempo entre eles! Conheço-os a todos. Nós nos reconhecemos sempre; nos detestamos. A caridade nos é desconhecida. No entanto somos polidos: nossas relações com o mundo são muito corretas! Não é espantoso? O mundo! os mercadores, os ingênuos! — Não somos desonrados. — Mas como nos receberiam os eleitos? No entanto há pessoas mal-humoradas e alegres, falsos eleitos, precisamos pois de audácia ou humildade para abordá-los. São os únicos eleitos. Não são os que abençoam!

Tenho recobrado dois vinténs de razão — isto passa rápido! — vejo que minhas angustias decorrem de não ter me apercebido suficientemente cedo de que estamos no Ocidente. Os pântanos ocidentais! Não que eu julgue a luz alterada, a forma extenuada, o movimento desviado…Bem! eis que meu espírito quer assumir absolutamente todos os desenvolvimentos cruéis que sofreu o espírito desde o fim do Oriente…Isto quer meu espírito!

…Meus dois vinténs de razão se acabaram! O espírito é autoridade, quer que eu esteja no Ocidente. Seria preciso calá-lo para concluir como eu desejaria.

Eu mandava ao diabo as palmas dos mártires, os esplendores da arte, o orgulho dos inventores, o ardor dos saqueadores; eu retornava ao Oriente e à sabedoria primeira e eterna. Parece que é um sonho de indolência grosseira!

No entanto, de modo algum eu pensava no prazer de escapar aos sofrimentos modernos. Não tinha em vista a sabedoria bastarda do Corão. — Mas não há um suplício real no fato de que, desde esta declaração de ciência, o cristianismo, o homem se jogue, prove a si mesmo as evidencias, se encha de prazer de repetir essas provas, e não viva senão assim? Tortura sutil, tola; fonte de minhas divagações espirituais. A natureza poderia entediar-se, talvez. O senhor Prudhomme nasceu com o Cristo.

Não é porque cultivamos a bruma! Devoramos a febre com nossos legumes aquosos. E a embriaguez! e o tabaco! e a ignorância! e as devoções! — Estará tudo isso suficientemente longe do pensamento da sabedoria do Oriente, a pátria primitiva? Porque um mundo moderno, se tais venenos são inventados!

Os homens de Igreja dirão: Compreendemos. Mas quereis falar do Éden. Nada há para vós na historia dos povos orientais. — De fato; era no Éden que eu pensava! Quanto significa para meu sonho esta pureza das raças antigas!

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“ Fiquei impressionado com partes da obra de Nietzsche, que de anticristo mesmo só tem — pelo menos até onde entendi —, um discurso contra a retórica que se fez depois da Cruz. Acho que ele mais entendeu o Cristo que muitos cristãos – nisso me incluo – , e se dizendo “espírito livre”— como também intitulou Jesus — se tornou um cristão dentro dos seus próprios conceitos. Quem não faz o mesmo ? ”

No seu íntimo o cristianismo possui várias sutilezas que pertencem ao Oriente. Em primeiro lugar, sabe que é de pouca relevância se uma coisa é verdadeira ou não, desde que se acredite que é verdadeira. Verdade e fé: aqui temos dois mundos de idéias inteiramente distintas, praticamente dois mundos diametralmente opostos – os seus caminhos distam milhas um do outro. Entender esse fato a fundo – isso é quase o suficiente, no Oriente, para fazer de alguém um sábio. Os brâmanes sabiam disso,Platão sabia disso, todo estudante de esoterismo sabe disso. Quando, por exemplo, um homem sente qualquer prazer através da idéia de que foi redimido do pecado, não é necessário que seja realmente pecador, mas que simplesmente sinta−se pecador. Mas quando a fé é exaltada acima de tudo, disso segue−se necessariamente o descrédito à razão, ao conhecimento e à investigação meticulosa: o caminho que leva à verdade torna−se proibido. – A esperança, em suas formas mais vigorosas, é um estimulante muito mais poderoso à vida que qualquer espécie de felicidade efetiva.

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Do Caçador de Replicantes: Brabo.

Certo diabo apaixonou-se por Deus sem nunca tê-lo visto. Depois de preparar-se por longo tempo, e com a ajuda de um informante, conseguiu infiltrar-se no complexo celeste e foi comprando com subornos, nível após nível, a vasta hierarquia de segurança que o separava da presença divina. Esse trajeto demorou muitos anos.

Naquela tarde o diabo molhou a mão do penúltimo intermediário e adentrou a ante-sala do trono por uma portinha lateral de serviço, junto da qual o esperava um anjo de cavanhaque e costas muito largas.

– Entre de uma vez – ordenou o anjo, e fechou a porta logo em seguida. A vinte passos deles, alto como uma montanha, dormia em sua cadeira o guardião da sala do trono.

Sem qualquer outro intercâmbio eles transpuseram o espaço até junto da porta da proposição, que está sempre fechada e cujas folhas esculpidas em madeira e revestidas de ouro têm cento e quarenta e quatro mil anos-luz de altura.

– Então – disse o anjo, quando estacaram diante da porta e avaliaram-se pela primeira e pela última vez – é você o diabo que apaixonou-se por Deus e vem procurando uma oportunidade de encontrar-se com ele.

– Apenas me poupe desse ar de superioridade moral – respondeu o diabo, ignorando a pergunta. – porque você sabe muito bem que somos muito parecidos. Nós no inferno odiamos tanto o pecado quanto vocês deste lado do abismo. Se estivesse prestando atenção, perceberia que são só os pecadores, os apóstatas e réprobos que nós atormentamos. Só os pecadores podem ser tentados, e só eles conhecerão a aflição da nossa miséria e do nosso desespero. Os santos, os valorosos e puros despertam apenas nossa admiração; nesses não ousaríamos tocar.

– Ou talvez seja nisso que você quer que eu acredite.

– Acredite no que quiser – pediu o diabo. – Apenas saiba, porque não tenho outra a pessoa a quem dizer, que foi justamente esse amor pela integridade e esse desprezo pela corrupção que fizeram com que eu me apaixonasse pela imagem divina.

O anjo deu de ombros e empurrou a porta, que era tão pesada e vasta que foram necessários mil anos para abrir uma fresta pela qual o diabo pudesse passar. A porta rangeu formidavelmente, mas o guardião em sua cadeira não se moveu nem despertou.

O diabo apertou nas mãos do anjo o valor que haviam ajustado, e fez menção de entrar na sala do trono pela estreita passagem. No último instante o anjo segurou-o pelo braço.

– Só preciso que você não ignore, porque quero ser honesto com você – disse o anjo, – que transposta esta porta a distância até o trono é vasta ao ponto do incalculável, e que quando finalmente chegar você estará velho, cansado e desorientado. Não só isso, mas encontrar-se com Deus terá para você um efeito inteiramente descaracterizador. Bastará contemplar pelo mais breve instante a divina presença para você ser imediatamente consumido por ela. Você não terá oportunidade de admirar a imagem de Deus ou de declarar o seu amor. Você terá gasto a sua vida inteira para chegar até Deus, e irá perdê-la para sempre no instante em que o encontrar. Se deixo você passar é porque sua entrada não representa risco para Deus; mas representa um horrendo risco pra você.

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“O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente”.

Mário Quintana.

“Segundo a minha experiência – afirma Hermann Hesse, numa de sua cartas -  o elemento mais irritante e destruidor dos homens é aquele impulso baseado na preguiça de pensar e na necessidade de permanecer em paz, que leva para o coletivo, para a explicação racional, para a vulgaridade subordinada à dogmática rigorosa,  seja ela política ou religiosa”. O hábito precisa ser entendido, em seu mecanismo implacável, para que seja possível vislumbrar um pouco além do cotidiano. As exposições racionais e metódicas valem para uma infinidade  de circunstâncias e são de imensa importância na vida, mas nos casos em que o racionalismo e o  método transformaram-se em biombos, escondendo a realidade  em nome da busca dessa realidade, tudo  muda de figura. A técnica, a cultura, o  conhecimento acumulado são pouco ágeis e sutis para um empreendimento tão delicado quanto à abordagem do real, nesse “fio da navalha” que é o momento presente.

Não há retórica na conclusão de que essas descobertas só podem acontecer  agora -  não ontem, nem dentro em pouco. O fio do momento que passa (e que ainda não passou) existe entre duas vertentes e é o único pedaço do tempo que conhecemos de fato. O que as escolas e correntes dizem disso pode ser interessante, mas desvia atenção  do assunto e “verbaliza” ainda mais o  pensamento. Não há nada  que  a erudição  possa fazer para ajudar, no caso, mesmo porque ela costuma ser prolixa, principalmente quando usada como alavanca nos  truques de auto-afirmação. Essa é a carga  mais pesada porque exige resistência e leveza, que freqüentemente se excluem. É preciso resistir ao   peso  dos  hábitos mentais, do costume social,  dos modismos de todo tipo, sendo ao mesmo tempo flexível como um florete, e penetrante como ele.

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Gosto das palavras de Santo Agostinho, em suas Confissões, quando discute a questão do tempo:

“O que é então o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; porém, se quero explicá-lo a quem me pergunta, então não sei. No entanto, posso dizer com segurança que não existiria um tempo passado, se nada passasse; e não existiria um tempo futuro, se nada devesse vir; e não haveria o tempo presente se nada existisse. De que modo existem esses dois tempos – passado e futuro –, uma vez que o passado não mais existe e o futuro ainda não existe? E quanto ao presente, se permanecesse sempre presente e não se tornasse passado, não seria mais tempo, mas eternidade. Portanto, se o presente, para ser tempo, deve tornar-se passado, como poderemos dizer que existe, uma vez que a sua razão de ser é a mesma pela qual deixará de existir? Daí não podemos falar verdadeiramente da existência do tempo, senão enquanto tende a não existir.”

(Confissões, Livro XI, Capítulo XIV)

O que é requerido para alguém poder evocar alguma coisa de memória? A linguagem é requerida? Levando em conta que macacos-rhesus são capazes de evocar algo de memória, e tudo indica que eles não têm linguagem, segue que a linguagem não é requerida.

Uma coisa é ser capaz de reconhecer alguma coisa que já foi percebida no passado, e está sendo percebida no presente. Outra coisa, bem diferente, é ser capaz de evocar livremente alguma coisa que foi percebida no passado. Nós humanos somos capazes de fazer isso, talvez porque sejamos capazes de formar uma evocação pelo uso da linguagem. Essas duas capacidades, o reconhecimento e a evocação livre, são duas modalidades de memória. Há evidências abundantes de que diversos animais que parecem não ter linguagem são capazes de reconhecer. Mas não havia evidências de que tais seres são capazes de evocar. Até agora.

Benjamin M. Basile e Robert R. Hampton, psicólogos da Universidade Emory, de Atlanta, nos Estados Unidos, demonstraram que macacos-rhesus são capazes de evocar memórias, apesar de, ao que tudo indica, não serem dotados de linguagem. Basile e Hampton montaram um experimento no qual se pede a indivíduos da espécie rhesus que reproduzam em uma tela uma configuração de cores que foi percebida no passado, mas não está sendo percebida no presente. Os indivíduos foram capazes de realizar a tarefa, o que demonstra que são dotados de memória evocativa.

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“Acredite em suas crenças e duvide de suas dúvidas, bem como duvide de suas crenças e acredite em suas dúvidas.”

A presunção de estar certo não é o pior dos males, no surgimento das dissidências e na aparição do fanatismo. Os métodos de ação é que geram as discordâncias. O reformador supõe, naturalmente, que seu método não é apenas o melhor, mas o único capaz de regenerar, de fazer o homem feliz, de obter a justiça. Quando há resistência ou objeção, nasce a idéia de usar a força, e com ela são criadas as legiões, as tropas de adeptos, os grupos onde ninguém é pessoalmente responsável por coisa alguma e tudo é permitido. A convicção é inofensiva até o momento da praxis, quando as imposições começam a ferir direitos e a restringir a liberdade de outros. A partir desse ponto, toda resistência reforça a certeza, até transformar o convicto num cruzado.

Thomas Arnold em carta à A.P. Stanley, em 1836, lembra que o  fanatismo consiste, afinal, em idolatria pura e simples, na  medida em que o fanático cultua alguma coisa que é criação do seu desejo. Ele viu muito longe quando disse que fanatismo é idolatria. Fabricamos as imagens que vamos adorar em seguida, e essas imagens podem ser concretas, abstratas ou especulativas. Cultuar alguma coisa feita por aquele que rende culto é idolatria – um círculo ilusório, que conduz sempre ao mesmo ponto. A intuição interior tende para a linha reta, sem as curvas que num tempo variável conduzem a si próprias, numa repetição eterna. Os fanáticos têm medo da incerteza, e por isso são determinados e rígidos. Voltados numa só direção, transmitem a idéia de que sabem o caminho, o que não acontece. Na verdade estão andando em círculos.

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Às  vezes posso ouvir a canção da santa masmorra que confronta os pensamentos que corrompem o coração humano com o determinismo ideológico. Ela é suave certos instantes, e agressiva em outros. Ela diz que as implicações da vida estão vivas. Ela diz que o imperador está nu, mas que, muitas vezes, nada muda quando expomos sua nudez.

Nessa santa torre descobri que o problema maior da ideologia religiosa não é a religião e o seu problema em si, mas sim, as novas ideologias a qual se opõem contra ela com as mesmas máscaras que um dia a corrompeu.

Quem se arriscar a entrar nessa torre, descobrirá que lá o professor é ensinado por seus alunos, o ator é estimulado por sua audiência, o médico é curado pelos seus pacientes, e o pastor é salvo pelos pecadores.

Muitos passaram por esse lugar. Lá, um homem chamado Abraão descobriu Hagar. Um outro, depois de batizar o filho de Deus, e ouvir uma voz do céu, perguntou a um homem simples: Quem é esse Jesus de Nazaré? Numa outra época, um outro intruso da torre que possuía um senso de ordem descobriu que, não conhecia o amor, quando se irritou com Deus por ter perdoado a corrupção de um povo a qual o fez acabar dentro do estômago de uma baleia. Num desses castelos, um homem numa cruz questionou seu Pai: Por que me desamparaste? Possivelmente, nesse momento, alguém está numa dessas torres; mas não percebeu ainda. Não consegue abrir o coração. Não deseja que ninguém o veja cego e nu, ou desesperado no mar das questões. Enfim, exemplos do passado e do presente dessa torre é o que não faltam.

Ô maravilhosa graça! Como é bom saber que um dia pude ver; e agora estou cego! Que um dia fui salvo; e agora estou perdido! É bom saber que o lugar que tu operas nunca é num lugar confortado pela certeza do absoluto. Seu mover só se dá aonde existe liberdade; uma condição que muitos não aceitam devido a fraqueza de espírito – Devido não desejar a masmorra.

Logo, como expressar o valor desse local? Qual seria o melhor discurso para descrevê-lo? Qual é o seu plano?

Muitos vivem a vida no caminho que o destino estabelece para eles – como se fosse Deus que tivesse determinado. Com muito medo, deixam de explorar outros. Mas, de vez em quando, algumas pessoas surgem de dentro dos obstáculos só para derrubá-los. Pessoas que percebem de dentro dele que o livre arbítrio é um presente que muitos nunca saberão usar, a não ser que lutem por ele. Por fim, eu acho que esse é o plano da masmorra –  de ensinar o destino a pedir socorro!

O alfabeto da fé.

postado em: Teologia

Nos bancos da frente, as senhoras de idade ligam seus aparelhos de surdez e uma jovem senhora entrega à filha de seis anos um livro e um marcador.

Um calouro universitário, em casa devido às ferias e levado ali à força, está inclinado para frente, com a mão no queixo. O vice-presidente de uma empresa que, naquela semana, havia pensado seriamente em suicídio por duas vezes, coloca o hinário no encosto do banco da frente. Uma garota grávida sente a vida se mexendo dentro dela. Um professor de Matemática do Segundo grau que, por 20 anos, conseguiu manter sua homossexualidade oculta para a maioria das pessoas, inclusive ele mesmo, dobra o programa do culto ao meio com seu polegar e o coloca embaixo da perna (…) O pregador puxa a pequena corda que acende a luminária do púlpito e revira as notas feitas em cartões, como se fosse um jogador de casino. As apostas nunca foram tão altas!

(Extraído de “ The Alphabet of Grace – Frederick Buechner).

Acho muito interessante a frase do meu amigo Peter Rollins : “To believe is human; to doubt divine” – Acreditar é humano; duvidar é divino. Ou seja, onde não houver espaço para a dúvida, também não haverá espaço para especular sobre o que  a fé, no sentido mais amplo, significa – Basta analisar a realidade dos personagens bíblicos.

A fé é nostalgia. É um nó na garganta. A fé é mais um passo adiante do que uma posição, mais um pressentimento do que uma certeza. A fé é espera. Ela está caminhando no tempo e no espaço.

Portanto, se alguém se achega a mim e me pede ( o que acontece com frequência) para falar sobre minha fé, é exatamente sobre essa jornada no tempo e no espaço que falo. Os altos e baixos das lágrimas, os sonhos, os momentos particulares, as intuições. Falo sobre a sensação ocasional que tenho de que a vida não é uma sequência de eventos que gera outros eventos tão a esmo, quanto uma tacada no jogo de bilhar faz que as bolas se afastem em diferentes direções, mas que a vida tem um roteiro, assim como num romance – aqueles eventos que, de algum modo, nos levam a algum lugar.

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