Nas áreas de teologia, de estudos de religião e de diálogo entre as religiões diversos elementos da obra de Tillich servem para possibilitar a superação do próprio Tillich na direção que ele começava a trilhar nos últimos anos de sua vida. É importantíssima a contribuição que fez a todas as formas de estudos de religião com sua análise da humanidade enquanto portadora do sentido de Deus. Expressou tal pensamento de maneira sucinta: “Um deus desaparece; a divindade permanece”. Tal sentido irrecusável do divino vem da apropriação que faz de Platão para apoiar a teologia cristã bem como para expressar a universalidade da religião. É provável que sua contribuição à antropologia teológica seja mais importante do que sua cristologia. Essa antropologia baseava-se na memória viva que tem a humanidade de sua origem divina em contraste com a alienação em que vive agora. Essa mesma memória funciona como impulso na direção da recuperação plena da antiga intimidade com o divino perdida na existência. Esta dialética pode ainda ser considerada uma análise convincente da gênese da religião no espírito humano
Quando Tillich afirma que a humanidade é universalmente religiosa, partindo da tensão entre o universal e o particular, precisa localizar o particular no contexto mais amplo do universal. Em vez de considerar a realização plena do universal na revelação cristã, parecia, agora, decidido a relativizar a particularidade cristã no contexto dessa humanidade universalmente religiosa. A reviravolta implícita nessa nova ênfase exigiria que o teólogo cristão apreciasse positivamente as demais manifestações do essencial em outras épocas, culturas e tradições. Nem por isso o compromisso com a fé cristã seria diminuído. Ao contrário, a fé seria aprofundada por meio do reconhecimento das infinitas variações daquilo que os cristãos percebem no evento Cristo, tanto nas religiões como nas culturas seculares. O poder do simbólico nas diferentes religiões aumentaria com essa percepção.
Ao privilegiar o universal, Tillich, nos últimos escritos, desenvolvia idéias latentes capazes de transformar a relação entre o cristianismo e as outras religiões da conversão para o diálogo. As religiões, a partir do reconhecimento mais amplo do caráter religioso universal e autenticamente presente na humanidade, ampliariam a consciência coletiva e individual, facilitando o diálogo a respeito de diferenças de ênfases, símbolos, valores, rituais e seus efeitos nas circunstâncias sociais de suas culturas. Tal atitude suplantaria, por certo, qualquer tipo de proselitismo agressivo. Se a religião puder ser encarada como expressão universal do espírito humano fundamentada na participação do espírito no ser e na vitalidade de Deus, será bem mais difícil universalizar-se quaisquer de suas expressões particulares e mais difícil ainda engajar-se em atividades genocídas e holocáusticas contra os que se comprometem com manifestações alternativas de religiosidade.






