Nelson Costa Jr

Durante a maior parte do século XX, os Estudos Bíblicos e a Filosofia da Religião não foram consideradas disciplinas com pontos de intersecção significativos. Entretanto, a medida em que o fim do milênio se aproximava, um movimento formado por um punhado de filósofos da religião cristãos denominado “Epistemologia Reformada” (RE) sugeriu a demanda pelo diálogo interdisciplinar. Tendo Alvin Plantinga como seu principal representante, estes filósofos afirmaram estar preocupados com o que eles consideraram uma falta de reflexão filosófica sobre os fundamentos da Crítica Histórica e seus resultados heterodoxos. Neste artigo, o autor (na qualidade de estudioso da Bíblia) sugere que os argumentos de Plantinga não foram levados a sério em virtude de seu fundamentalismo e de seu consequente fracasso em compreender a natureza e os conteúdos dos debates hermenêuticos que tem acirrado os ânimos no interior da Teologia Bíblica nos últimos 200 anos.

Introdução

Desde meados do século XX filósofos da religião tem proliferado consideravelmente (Stump 2000:896). Consequentemente tornou-se cada vez mais difícil distinguir claramente entre a filosofia da religião e a teologia filosófica. Isto fez com que, ao contrário de um período anterior, quando os filósofos sentiram que a reflexão sobre a religião seria filosoficamente respeitável somente se fosse abstrata e genérica, os filósofos da religião de hoje sentissem-se livres para examinar qualquer conceito em qualquer religião, uma vez que estes são filosoficamente interessantes por direito próprio (Stump 2000:896). Como parte desta expansão do loci religioso-filosófico, alguns filosófos da religião começaram a olhar além das proposições da Teologia Sistemática para as pressuposições da Teologia Bíblica em busca de temas filosoficamente interessantes para abordar. Ao fazê-lo, alguns manifestaram um interesse no que perceberam ser problemas filosóficos sérios pertinentes aos pressupostos epistemológicos do Criticismo Bíblico (por exemplo, Plantinga 2000c:374-421; Stump 1985; Ward 1998:81-98).

Na verdade, nem todos os filósofos da religião tem mostrado muito interesse em – ou possuem quaisquer dificuldades com – o Criticismo Bíblico. Os filósofos em questão são associados com o movimento comumente referido como Epistemologia Reformada (RE), cujos pontos de vista são encontrados nas obras de filósofos cristãos (protestantes) como Alvin Plantinga, William Alston e Nicholas Wolterstorff (veja Forest 2006; Hoitenga 1991). Como uma corrente de pensamento, a ER possui suas raízes no assim chamado argumento da paridade apresentado por Alvin Plantinga em seu livro God and other minds (veja Plantinga 1967). Em relação aos Estudos Bíblicos, a principal preocupação da ER parece ser os resultados “heterodoxos” dos estudos bíblicos histórico-críticos. Alegadamente, o que os estudiosos críticos da Bíblia estão fazendo vai de encontro às correntes de “perspectivas tradicionais” e, segundo alguns proponentes da ER, torna a Bíblia inútil para a teologia filosófica contemporânea (Plantinga 2000c:374-421; Stump 1985). Como resultado, alguns expoentes da ER abordaram os Estudos da Bíblia em seus escritos e, ao faze-lo, emitiram um convite para o diálogo interdisciplinar – algo que considero ser há muito aguardado. Entretanto, eu próprio estou motivado a aceitar o convite parcialmente como resultado de uma preocupação com o que Stump (1985) considera os dois principais motivos para a discussão, que são:

  • Filósofos da religião podem aprender muito com os estudiosos da Bíblia e um conhecimento minucioso do Criticismo Bíblico é crucial para a avaliação filosófica do Judaísmo e do Cristianismo.
  • Falta uma reflexão filosófica sobre a epistemologia do Criticismo Bíblico e seus resultados serão muito diferentes se os Estudos Bíblicos forem submetido à análise e ao questionamento por filosófos.

Quando consideradas fora do contexto, estas afirmações parecem relativamente incontroversas. Contudo, quando consideradas em conjunto com os detalhes das idéias acerca da Bíblia sustentadas por vários proponentes da ER, estes motivos para querer se engajar num diálogo interdisciplinar tornam-se problemáticos. Sob um olhar mais atento percebe-se que na verdade eles são impelidos pela agenda ideológica de um movimento que lamentavelmente tornou-se bastante familiar na sociedade cristã contemporânea: o fundamentalismo (veja Carrol 1997 sobre o cristianismo ‘bíblico’). Isto talvez seja a razão pela qual vários teólogos crítico-bíblicos não se incomodaram em diálogar com estes filósofos da religião (a parte de outro fato lamentável – o do moderno sentimento anti-filosófico na Teologia Bíblica do século XX; veja Barr 1999:146-171). Entretanto, considerando-se a popularidade crescente do fundamentalismo na espiritualidade leiga e na qualidade de estudioso do Antigo Testamento interessado na filosofia da religião, não consigo dispensar levianamente esta oportunidade de discussão interdisciplinar. Estou convencido de que ao passo que a filosofia da religião pode e deveria ser aplicada ao pensamento bíblico (algo que eu mesmo faço), é hermeneuticamente problemático faze-lo sem considerar seriamente as implicaçõs filosóficas da história da religião (israelita).

O fato é que as acusações contra o Criticismo Bíblico feitas por Stump (1985) e Plantinga (2000c) não são inteiramente corretas. Simplesmente não é verdade que os estudiosos da Bíblia não prestaram a devida atenção a seus pressupostos epistemológicos, especialmente em vista do fato de que os últimos 200 anos de Criticismo Bíblico desde a separação entre a teologia bíblica e a dogmática com Gabler (e a subsequente distinção entre Teologia do Antigo e do Novo Testamento com Bauer) levaram a intrincadas discussões hermenêuticas, ramificações epistemológicas e questões filosóficas que nem Stump (1985) nem Plantinga (2000c) parecem apreciar. Para ser exato, estes dois expoentes da manipulação filosófica da Bíblia pela ER são estranhamente reminiscentes do que era encontrado na Ortodoxia Reformada pré-crítica do tempo anterior a Gabler, quando a ‘eisegese’ bíblica dogmática era praticada na ausência de qualquer consciência histórica real ou da possibilidade de uma apreciação real do fato de que as concepções de Deus na teologia filosófica clássica são anacrônicas no contexto da antiga religião israelita. E ao passo que ser ‘reformado’ pode significar para vários religiosos hoje exatamente o que Calvino supostamente acreditou séculos atrás, várias convicções teológico-sistemáticas calvinistas são de pouca valia quando confrontadas com os desafios conceituais com os quais a teologia bíblica não-fundamentalista tem que lidar (contra Childs 1992:72).

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Protestos […] contra as leituras pós-modernas da Bíblia provavelmente não terão efeito. Isto é, a menos que aqueles que se preocupam com leituras sérias dos Evangelhos explorem formas de articular uma epistemologia melhor.

N. T. Wright.

Você nunca olha para mim à partir do lugar que  te vejo.

Jaques Lacan

Devido ao atrevimento do pensamento graças ao bojo da pós-modernidade, a Igreja tem perdido uma boa parte de seus fiéis. Porém, festejar como um bom humanista, ou criticar como um bom cristão fundamentalista tal fenômeno, é deixar de observar as racionalizações da era; é ser ingênuo – É óbvio que um novo problema religioso está surgindo mergulhado num emaranhado de indefinições. Sem direção, muitos debruçam num ateísmo empírico – ou num forte agnosticismo -, ou dentro de um teísmo de defesa – numa epistemologia reformada. De qualquer forma, será óbvio que veremos novos “santos” acontecimentos que, muitos cristãos desinformados denominarão por “avivamento” – pretendo falar mais num outro post.

Idolatría é ter um deus como objeto de nossas ideologias/realizador de vontades. “Derrubamos imagens, as intenções continuam.”

O resultado do que foi introduzido acima, estabelece duas fortes ideologias para o futuro da Igreja : uma conservadora, e outra niilista. Pessoalmente, não defendo nenhuma das duas, creio que o Cristianismo tem muito mais à oferecer do que signos convencionais. Infelizmente, as categorias “niilismo e absolutismo” não esgotam opções descritivas. Enfim, muita gente confundindo a possibilidade de certeza no entendimento – aqui não defendo a certeza cartesiana – com a impossibilidade de entendimento…blá,blá,blá.

Como disse, sem ter para onde correr, muitos bons homens se prendem numa epistemologia sem sentido, como a epistemologia reformada. Quem nunca ouviu falar de:

Willian Alston, Nicholas Wolterstorff , Michael Rea e Alvin Plantinga?

Grandes pensadores que, através de um policiamento em prol de suas propriedades bíblicas privadas, apostam em pensamentos como esse, de Pascal: “Vamos pesar os ganhos e perdas práticos em apostar em um dos lados da moeda – isto é, na existência da verdade objetiva.[…] Se você ganhar, ganha alguma coisa. Se perder, não perde nada. Não hesite, então, em apostar na existência da verdade objetiva. Ou então, arriscam no enunciado “racional” dos irmãos Karamazov ( Do último romance de Fiodor Dostoiévski):

“SE DEUS não existe e a alma é mortal, tudo é permitido”.

Seria a epistemologia reformada uma forma de fácil credibilidade, de fideísmo transposto para a hermenêutica? Acredito que não. Buscar encontrar determinados fundamentos epistemológicos sobre Deus, é ansiar pela primazia de minha percepção. Será que não podemos fazer nada melhor do que apostar? Não é tudo permitido no manicômio, e mesmo assim Deus pode existir? Como já bem dito por Locke: a fé não representa de forma alguma um fundamento adequado. Ou seja, de modo geral, qualquer um que deseja defender as verdades bíblicas, necessita exercitar a hermenêutica da desconfiança: Negar a própria existência do significado determinado, porque os textos não podem testemunhar, tampouco relatar ou confessar.

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Quando o assunto é a interpretação de textos, a honestidade proíbe a certeza.

Kevin Vanhoozer.

Acreditar em absolutos de “particulares básicos”? A certeza cartesiana, um conhecimento absoluto fundamentado no sujeito do conhecimento, não é possível nem cristã. O cristão é um “particular básico” – um conceito primitivo que não pode ser explicado por algo mais básico. Prefiro perguntar de onde vem essa posição elevada. Prefiro rejeitar todas as formas de posições privilegiadas acima do fluxo.

John Caputo.

Pois a letra mata, mas o Espírito vivifica (2 Co 3.6).

Aquilo que constitui um texto é algo escorregadio de se definir

Geoffrey Hartaman.

Um critério apenas funciona em determinada prática social, porque um grupo de pessoas precisa “que algo seja feito”. O leitor desse critério, não é só um consumidor, mas também um produtor de significado. Gostemos disso ou não, o que encontramos em textos bíblicos muitas vezes é influenciado por quem somos e onde estamos. Isso pode não ser totalmente óbvio, mas, tendemos a acreditar que a maneira pela qual vemos as coisas reflete verdadeiramente a maneira como as coisas são. Ou seja, não só os textos bíblicos necessitam de desmitificação, mas também nossas maneiras de lê-los.

É certo que a Bíblia possui poder limitado. Ela precisa esperar pacientemente nas prateleiras até que um leitor a pegue, abra e comece a ler. Querendo ou não, ela se encontra à mercê dos caprichos do leitor – Interpretação boa ou má. Um texto bíblico pode ser memorizado ou decorado, ou pode ser usado para decorar o fundo de uma gaiola. De qualquer forma, o texto não pode retrucar, protestar ou se defender. Os leitores parecem ter sempre a última palavra. Eles podem ignorar as Escrituras, pular páginas, acrescentar coisas e, enfadados, podem descontextualizar e interromper tudo. Os textos bíblicos podem parecer inteligentes – Já dizia Sócrates sobre textos -, mas, quando lhe fazemos uma pergunta, eles ou guardam um silêncio solene, ou “dizem sempre a mesma coisa”. O versículo bíblico por exemplo, é desafortunado e desamparado, inerte e mudo, até ser tomado por um leitor.

A Bíblia, na era da escravidão interpretativa que, executa os “desígnios providenciais do senhor” – como um mecanismo de defesa – contra a pós-modernidade, se parece com um boneco de ventríloquo: ele serve como oportunidade para que se projete a própria voz.  Ela passa a ser percebida. Em sentido restrito, torna-se uma oportunidade para os leitores perceberem a si mesmos. Ela se torna um espelho. E sabemos que, se um asno olha para ela, não se pode esperar que um apóstolo olhe de volta. Como dizia Kierkegaard:

E as interpretações, então: 30.000 diferentes!

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Discurso de  Slavoj Žižek aos manifestantes do movimento Occupy Wall Street.

Fonte: Editora Boi Tempo.

Slavoj Žižek visitou a Liberty Plaza, em Nova Iorque, para falar ao acampamento de manifestantes do movimento Occupy Wall Street (Ocupe Wall Street), que vem protestando contra a crise financeira e o poder econômico norte-americano desde o início de setembro deste ano.

O filósofo nos enviou a íntegra de seu discurso para publicarmos em nosso Blog, que segue abaixo em tradução de Rogério Bettoni. Caso deseje ler a versão original em inglês, está disponível no site da Verso Books (assim como outros comentários de filósofos e cientistas sociais sobre o movimento Occupy Wall Street).

***

Não se apaixonem por si mesmos, nem pelo momento agradável que estamos tendo aqui. Carnavais custam muito pouco – o verdadeiro teste de seu valor é o que permanece no dia seguinte, ou a maneira como nossa vida normal e cotidiana será modificada. Apaixone-se pelo trabalho duro e paciente – somos o início, não o fim. Nossa mensagem básica é: o tabu já foi rompido, não vivemos no melhor mundo possível, temos a permissão e a obrigação de pensar em alternativas. Há um longo caminho pela frente, e em pouco tempo teremos de enfrentar questões realmente difíceis – questões não sobre aquilo que não queremos, mas sobre aquilo que QUEREMOS. Qual organização social pode substituir o capitalismo vigente? De quais tipos de líderes nós precisamos? As alternativas do século XX obviamente não servem.

Então não culpe o povo e suas atitudes: o problema não é a corrupção ou a ganância, mas o sistema que nos incita a sermos corruptos. A solução não é o lema “Main Street, not Wall Street”, mas sim mudar o sistema em que a Main Street não funciona sem o Wall Street. Tenham cuidado não só com os inimigos, mas também com falsos amigos que fingem nos apoiar e já fazem de tudo para diluir nosso protesto. Da mesma maneira que compramos café sem cafeína, cerveja sem álcool e sorvete sem gordura, eles tentarão transformar isto aqui em um protesto moral inofensivo. Mas a razão de estarmos reunidos é o fato de já termos tido o bastante de um mundo onde reciclar latas de Coca-Cola, dar alguns dólares para a caridade ou comprar um cappuccino da Starbucks que tem 1% da renda revertida para problemas do Terceiro Mundo é o suficiente para nos fazer sentir bem. Depois de terceirizar o trabalho, depois de terceirizar a tortura, depois que as agências matrimoniais começaram a terceirizar até nossos encontros, é que percebemos que, há muito tempo, também permitimos que nossos engajamentos políticos sejam terceirizados – mas agora nós os queremos de volta.

Dirão que somos “não americanos”. Mas quando fundamentalistas conservadores nos disserem que os Estados Unidos são uma nação cristã, lembrem-se do que é o Cristianismo: o Espírito Santo, a comunidade livre e igualitária de fiéis unidos pelo amor. Nós, aqui, somos o Espírito Santo, enquanto em Wall Street eles são pagãos que adoram falsos ídolos.

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Se supusermos que a Bíblia é um livro com um significado determinado e autorizado por um autor, vamos lê-la encerrada em uma instituição acadêmica que autoriza um paradigma interpretativo restrito.

Francis Watson.

É legítimo interpretar os textos metaforicamente, como se eles fossem metáforas? Tanto Ricoeur quanto Derrida concordam que aquilo que vale para a metáfora também se aplica aos textos. Existem pelo menos três maneiras pelas quais os textos se parecem com metáforas: (1 Assim como a metáfora, o texto desvia-se de seu sentido literal em virtude de ser escrito e, portanto, liberto de seu autor e de sua situação original. Em outras palavras, assim como a metáfora, o texto é “transferido” para um novo domínio semântico. Portanto, o texto é livre para entrar em associação criativa com novos contextos e abordá-los. (2) Graças a essa transferência, a referência textual torna-se indeterminada. O que os textos são torna-se uma função de como os leitores os entendem em novos contextos. Dessa forma, assim como a metáfora, o texto tem múltiplos significados.(3) Da mesma maneira que não se pode substituir uma metáfora por uma paráfrase literal, não se pode simplesmente substituir o texto por uma interpretação (e.g., a obra dos conceitos). Existe um excedente de significado em ambos que resiste à tentativa do intérprete de reduzi-los a um significado literal ou unívoco.

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Silogismos da amargura.

postado em: Teologia

O Inferno — tão exato como um atestado.
O Purgatório — falso como toda alusão ao Céu.
O Paraíso — mostruário de ficções e de insipidezes…

A trilogia de Dante constitui a mais alta reabilitação do diabo empreendida por um cristão.

CIORAN, E.M. Silogismos da amargura. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2011.

Sobre o fanatismo.

postado em: Filosofia

Entende-se hoje por fanatismo uma loucura religiosa, sombria e cruel. É uma doença do espírito que se pega como a varíola. Os livros a comunicam bem menos que as assembleias e os discursos. Raramente alguém se excita ao ler, pois então pode ter o senso ponderado. Mas quando um homem ardente e de uma imaginação forte fala a imaginações fracas, seus olhos estão em fogo e esse fogo se comunica: seus tons, seus gestos abalam todos os nervos dos auditores. Ele grita: Deus te olha, sacrifica o que é apenas humano: combate os combates do senhor [lê-se na Bíblia: proeliare bella Domini (I. Reg. XVIII, 17)]: e vai-se combater.

O fanatismo está para a superstição como o delírio para a febre, como a fúria para a cólera. Aquele que tem êxtases e visões, e que toma os sonhos por realidades, e suas imaginações por profecias é um fanático noviço que dá grandes esperanças: poderá em breve matar pelo amor de Deus.

De: VOLTAIRE. “Fanatisme”. In: Dictionnaire de la pensée de Voltaire par lui même. Paris: Éditions complexe, 1994.

O professor de filosofia da Universidade de Londres A. C. Grayling lançou o livro The Good Book: A Secular Bible (O Livro Bom: Uma Bíblia Secular, ainda sem edição no Brasil), uma espécie de guia para ateus. Ao lado do cientista Richard Dawkins e do escritor Christopher Hitchens, Grayling, 62 anos, é um dos expoentes do chamado Novo Ateísmo, que milita pelo abandono de religiões e superstições. Assim como na bíblia cristã, a obra de Grayling começa no Gênesis e segue para Lamentações e Provérbios, tudo organizado em capítulos e versos. “A estrutura bíblica é convidativa e acessível. O leitor pode escolher trechos ou seções para ler separadamente”, diz o autor.

Porém, nas 608 páginas da obra de Grayling não há sequer uma menção à palavra “Deus” ou qualquer outra referência divina, mas sim citações e conceitos de grandes pensadores como Aristóteles, Isaac Newton e, não podia faltar, Charles Darwin. O autor acredita que há pensamentos profundos e sérios sobre o bem nas grandes tradições não-religiosas que seriam mais humanos e vivíveis — sem estar sob o comando de uma autoridade.

Antevendo críticas, Grayling já declara: “Quase tudo escrito em meu livro vem de grandes mentes do passado. Quem atacá-lo automaticamente atacará Cícero, Confúcio e por aí vai”. Para terror dos religiosos deterministas , Grayling chegou a elaborar os 10 mandamentos dos ateus, estes sim redigidos a partir de suas próprias ideias. “Só espero não me tornar um ‘deus’. Certamente eu não seria bom nisso.”

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Nas áreas de teologia, de estudos de religião e de diálogo entre as religiões diversos elementos da obra de Tillich servem para possibilitar a superação do próprio Tillich na direção que ele começava a trilhar nos últimos anos de sua vida. É importantíssima a contribuição que fez a todas as formas de estudos de religião com sua análise da humanidade enquanto portadora do sentido de Deus. Expressou tal pensamento de maneira sucinta: “Um deus desaparece; a divindade permanece”. Tal sentido irrecusável do divino vem da apropriação que faz de Platão para apoiar a teologia cristã bem como para expressar a universalidade da religião. É provável que sua contribuição à antropologia teológica seja mais importante do que sua cristologia. Essa antropologia baseava-se na memória viva que tem a humanidade de sua origem divina em contraste com a alienação em que vive agora. Essa mesma memória funciona como impulso na direção da recuperação plena da antiga intimidade com o divino perdida na existência. Esta dialética pode ainda ser considerada uma análise convincente da gênese da religião no espírito humano

Quando Tillich afirma que a humanidade é universalmente religiosa, partindo da tensão entre o universal e o particular, precisa localizar o particular no contexto mais amplo do universal. Em vez de considerar a realização plena do universal na revelação cristã, parecia, agora, decidido a relativizar a particularidade cristã no contexto dessa humanidade universalmente religiosa. A reviravolta implícita nessa nova ênfase exigiria que o teólogo cristão apreciasse positivamente as demais manifestações do essencial em outras épocas, culturas e tradições. Nem por isso o compromisso com a fé cristã seria diminuído. Ao contrário, a fé seria aprofundada por meio do reconhecimento das infinitas variações daquilo que os cristãos percebem no evento Cristo, tanto nas religiões como nas culturas seculares. O poder do simbólico nas diferentes religiões aumentaria com essa percepção.

Ao privilegiar o universal, Tillich, nos últimos escritos, desenvolvia idéias latentes capazes de transformar a relação entre o cristianismo e as outras religiões da conversão para o diálogo. As religiões, a partir do reconhecimento mais amplo do caráter religioso universal e autenticamente presente na humanidade, ampliariam a consciência coletiva e individual, facilitando o diálogo a respeito de diferenças de ênfases, símbolos, valores, rituais e seus efeitos nas circunstâncias sociais de suas culturas. Tal atitude suplantaria, por certo, qualquer tipo de proselitismo agressivo. Se a religião puder ser encarada como expressão universal do espírito humano fundamentada na participação do espírito no ser e na vitalidade de Deus, será bem mais difícil universalizar-se quaisquer de suas expressões particulares e mais difícil ainda engajar-se em atividades genocídas e holocáusticas contra os que se comprometem com manifestações alternativas de religiosidade.

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